“Uma coisa é ser solteira. Outra, muito diferente, é o estado civil de desesperada”, disse a escritora chilena Claudia Aldana lá nos anos 2000, ao falar de sua personagem Consuelo Aldunate, que protagonizou a coluna 31 na revista Ya por dois anos.
Ao longo desse tempo, Consuelo viveu aventuras e desventuras amorosas retratadas na coluna, ao melhor estilo Carrie Bradshaw em Sex and The City.
Li numa entrevista que, para a autora, Consuelo retratava aquela louca e obsessiva busca por um parceiro de tal forma que acaba virando projeto de vida. E que ainda vemos sendo retratado em tantas comédias românticas e livros por aí.
Se lá no início dos anos 2000 isso soava divertido e até cool, eu mesma tendo criado uma personagem nesse estilo chamada Gabi Rezzabraba, hoje é impossível não problematizar o quanto essas histórias retratam alguns dos mais perversos espartilhos que sufocam e oprimem as mulheres.
Listo aqui três deles.
Primeiro, a obrigatoriedade de casar de qualquer maneira, e que acaba gerando a busca obsessiva por um companheiro, como se a vida da mulher se resumisse a isso. Não interessa o resto. É como se a vida sem um plus1 não pudesse existir e ser plena. Afinal, se ela não tem um homem ao lado é porque fracassou – ela não cumpriu o papel social esperado dela e para o qual foi educada desde a infância.
Outro espartilho é o prazo de validade pra fazer isso: quanto mais cedo, melhor. Pra garantir filhos, evitar se achar um fracasso que é ficar pra titia ou solteirona e fugir das cobranças e julgamentos constantes feitos pelos outros e por você mesma. A autocobrança pode ser o piro dedo em riste apontado para uma mulher.
Por fim, as aventuras e desventuras de Consuelo mostram bem como a mulher coloca rios de seu suado dinheiro no cuidado com aparência e roupas, com a beleza estética, a fim de garantir seu valor no competitivo mercado das relações. Pra aumentar a possibilidade de ter um parceiro. Que isso se concretize.
Todos eles juntos e combinados mostram, ainda, outro espartilho que nos oprime: o da juventude e seu frescor como o maior capital da mulher nesse sistema social de relações patriarcais que vivemos.
É o receio de perder valor perante o olhar do outro que faz com que as mulheres tenham pavor e medo de envelhecer e invistam muito tempo, dinheiro e energia na tentativa de driblar o desgaste natural do tempo e esticar a pele do corpo e a juventude o máximo possível.
Você tem ideia de quanto a indústria da beleza, dos cosméticos e dos cuidados estéticos fatura com essa cultura da juventude eterna? Bilhões e bilhões de dólares anualmente.
“Foi introjetado em nós que a distinção social se alcança através da exuberância”, explica a antropóloga Thaysa Barbosa no curso A Beleza no Brasil. Por isso“Foi introjetado em nós que a distinção social se alcança através da exuberância”, explica a antropóloga Thaysa Barbisa no curso A Beleza no Brasil. Por isso se investe tanto dinheiro e energia nisso: pra não perder o valor e os privilégios sociais que com ele vem. Pra não ser invisibilizada e sofrer as consequências disso.
Histórias como a de Consuelo nos ajudam a compreender o avanço questionar esses padrões e narrativas, para que se investe tanto dinheiro e energia nisso: pra não perder o valor e os privilégios sociais que com ele vem. Que ele garante. Pra não ser invisibilizada e sofrer as consequências disso.
O que me impactou lendo as aventuras de Consuelo é o quanto avançamos em termos de consciência pra poder identificar o quanto toda essas busca é fruto de uma história da carochinha que os patriarcas criaram, disseminaram, contaram e recontaram milhares de vezes. E que nos mantiveram reféns dessas ideias e ideais em nossas próprias mentes.
Por isso que eu digo e repito: é tempo de recontar essas antigas histórias com olhar e consciência de século 21. E falar com e sobre mulheres que têm ajudado a reescrever essas histórias sobre a gente. Uma delas é a V (Eve Ensler anteriormente), que reescreveu a lindamente a história de Eva.
O tempo urge e o mundo demanda que a gente desconstrua essas (e tantas outras) narrativas ainda carregadinhas de valores patriarcais (que nem nos damos conta) e que até hoje orientam condicionam nossas escolhas de forma inconsciente.
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