Minha mãe geme de dor no quarto ao lado e fala incongruências em mais um delírio provocado por uma certa medicação (como não quero ser processada, evitarei nomes). Temo que os vizinhos daqui a pouco batam à nossa porta ou nos olhem atravessado amanhã, nos corredores ou no elevador, tamanho o estresse que rola agora.
Hoje, faz 13 dias que Dona Graça fez cirurgia e colocou a prótese no joelho.
Com o joelho dela, vai tudo bem. Aleluia! Mas as medicações que ela vem tomando para a dor estão causando fortes efeitos colaterais que estão acabando com o bem-estar dela e o nosso.
No domingo e na segunda-feira, minha mana e eu lidamos com os estragos causados por outra medicação. Essa aí causou tamanho ressecamento no seu intestino que nos vimos obrigadas a fazer um enema (aka, lavagem intestinal) nela em casa. E vê-la sofrer e lidar (ela e nós duas) com as consequências disso. Oh, Lord, foi um verdadeiro tsunami fecal.
Estamos exaustas física e emocionalmente. Mas estou tão ligada no piloto automático que nem consigo chorar. Me sinto anestesiada. Será que endureci? Ou será uma estratégia pra não sucumbir?
Talvez eu tenha criado resistência, casca, já que essa não é a primeira vez que lidamos com situações extenuantes envolvendo minha mãe. Desde a sua primeira internação por depressão até hoje lá se vão 26 anos (toda a minha vida adulta), algumas crises severas e muitos sentimentos .
Dona Graça ainda geme no quarto ao lado.
Impossível não se sensibilizar e conseguir dormir.
Vou fazer um chá e esperar o teto dela passar.
Que amanhã seja um dia melhor.
PS em 16/08: passava da meia noite quando mamis finalmente conseguiu dormir. E nós, também. Foram 4 horas de delírios.
Imagem: Cas Holmes/Unsplash
