Imagem: Toni Reed/Unsplash
“Para eu existir, eu me sustento em outras vidas e elas em mim. Eu dependo delas e elas dependem de mim. A própria existência só é possível a partir da sustentação da coletividade; da interedependência, portanto”, diz Ivone Gebara. E suas palavras me fazem pensa no eixo Terra/Sol.
Esse eixo é uma representação da consciência que faz compreender que, pra existir, o self/eu precisa de um solo, de um corpo. E que esse corpo, que possui sabedoria, integra uma campo muito maior de ser: o da Terra e de todos os seus sistemas. Compreensão essa que desperta a empatia, o respeito e a sensibilidade, que são incorpoadorados à racionalidade.
Ele simboliza a consciência da nossa relação de conexão e dependência com todos os demais seres, com a natureza! O que as palavras do pensador indígena Ailton Krenak traduz: “podemos estar separados da natureza na cabeça, mas não tem jeito de se separar da natureza como organismo.” Ele é esse novo e potente eu, consciente da nossa interdependência. E do quanto a vida aqui é sagrada, assim como todos os seus seres – gente, plantas, animais, rios, ar.
O eu que sabe que todos somos iguais, feitos da mesma matéria, perante o universo, fazendo ruir conceitos de separação, distinção, criados e perpetuados ao longo dos séculos pelo patriarcado. E que sabe que cultura e natureza só estão separados na mente humana. Uma percepção que desperta em nós uma nova ética nas nossas relações com os demais seres, humanos e não-humanos, e com a própria Terra, nos tornando sensíveis e atentos aos impactos que causamos uns aos outros e ao próprio planeta.
Tudo isso imediatamente me faz pensar no mapa astral da jovem ativista ambiental Greta Thunberg. Eis aí um bom exemplo para mostrar como funciona na prática. Aos 15 anos, Greta passou a faltar aula às sextas-feiras e sentar-se do lado de fora do parlamento sueco, sempre com um cartaz com os seguintes dizeres: em greve pelo clima. Assim iniciava o Fridays for Future, um movimento internacional de estudantes que clama por medidas concretas no combate às mudanças climáticas.
A racionalidade pragmática, determinada e focada do seu Sol em Capricórnio mostra a consciência da necessidade de ação e da tomada de atitudes práticas, o que ela faz ao se mobilizar e usar sua voz para cobrar governantes quanta a falta de ação concreta capricorniana. Sua Terra em Câncer oposta ao Sol, indica que ela é sensível aos impactos e à ameaça que a crise climática representa à vida dela e de todas as pessoas e demais espécies e seres na Terra. Ou seja, do sentir canceriano nascem a urgência e a veemência de seus atos e palavras por ações concretas para a preservação da vida nossa e de todo o planeta.
Eu sei que pensar com essa consciência de interdependência numa sociedade extremamente individualista, orientada pela racionalidade neoliberal a entender o desenvolvimento do self/eu como uma ação individual e desconectada do social, é um desafio de proporções gigantescas. Mais ainda nesses tempos narcísicos de selfies em que até mesmo bandas e grupos musicais entraram para a lista de espécies em extinção, já que os novos artistas preferem carreiras solo, como li em reportagem do jornal El País tempos atrás.
Mas também sei que é possível, sim. As culturas indígenas nos mostram isso. A filosofia Ubuntu deixa claro isso. Os encontros com o cluster feminista de Suzana Veiga reforçam isso. Os ensaios do psicólogo Luciano Lobato revelam isso. As aulas do Clima me mostraram isso. Movimentos como o do Bem Viver e os projetos Liberte o Futuro e Reflorestar Mentes são uma amostra de que é possível, sim! E que muita gente vem se debruçando sobre o tema, pensando, pesquisando e vivenciando essas novas formas de ser e (con)viver, como já contei aqui. Entre elas, Ivone Gebara, que citei antes.
“Um Sol forte sem uma consciência de Gaia é divorciado da natureza”, dizem Arielle Gutmann e Kenneth Johnson em Astrologia e Mitologia. É um self sem consciência de que a sua própria vitalidade individual depende intimamente da vitalidade de toda a Terra, acrescento eu.
No mapa, esse eixo ajuda a compreender como irradiar e florescer a própria singularidade no mundo, contribuindo para o bem-viver seu e do maior número de pessoas e seres aqui. Como isso vai de fato se desdobrar e acontecer na vida de cada dia é algo muito particular de cada pessoa e que depende das interações entre os planetas do seu mapa e as muitas possibilidades que cada combinação propõe, assim como da sua socialização, daquilo que você apreende da cultura da sua família, do seu entorno, do seu lugar.
EU SOU PORQUE A TERRA É
O simbolismo da Terra me parece estar conectado à vital relação de reciprocidade entre nós e todos os demais seres da Terra, humanos e não humanos. O que requer uma nova ética baseada em relações de respeito, cuidado e ser/estar sensível aos outros, a todos os seres e à nossa casa comum. Afinal, nós só existimos e somos porque a comunidade da Terra existe e é, em primeiro lugar.
Diante disso, colocar a Terra no mapa astral fez ainda mais sentido pra mim! Afinal, é uma forma simbólica potente de representar esse novo entendimento do eu/si mesmo como algo que vai além do ego e do próprio umbigo! É uma maneira de fazer cair a ficha de que eu só sou, porque a Terra e os demais seres (humanos e não-humanos) são. O que é muito bem representando – visual e simbolicamente – no posicionamento que a Terra ocupa num mapa astral: obrigatoriamente sempre oposta ao Sol, símbolo do si mesmo/self.
Não é incrível isso?
O eixo Terra-Sol se torna, portanto, uma representação potente desse novo eu. Dessa nova e necessária consciência de interdependência.
