Aviso: esse será um longo post, que transborda um tanto do que tenho vivido e tem nos inundado nas três últimas semanas.
Chove forte em Porto Alegre e a tensão, o pânico e angústia se instalam em nossos corações, diante da possibilidade de que as águas voltem a subir, elevando o nível do Guaíba e de todos os demais rios, podendo desabrigar mais pessoas, colocando gentes e bichinhos em risco. É constante o medo de que a cidade alague ainda mais, chegando em locais que já acolhem e abrigam desabrigados, e também dificulte o trabalho das equipes do Demae, o Departamento Municipal de Água e Esgoto da cidade, que estão se virando para restabelecer o abastecimento de água potável nesse Porto nada Alegre e fazer a manutenção das casas de bombas. Fico indignada quando penso que, se o sistema das casas de bombas tivesse com sua manutenção em dia, o Guaíba podia chegar até 6 metros, que as bombas iriam segurar as águas. Mas o prefeito Sebastião Mello preferiu não investir um tostão sequer nisso. E cá estamos nós, sofrendo com o coração na mão, sentindo pânico e ansiedade com o som da chuva, temendo por nossas irmãs e irmãos. Eu não sabia o que era sentir ansiedade climática. Agora, eu sei. E sinto como ela atravessa o corpo, rasgando o peito e a pele, nos deixando em alerta constante, sofrendo pelo que pode vir a acontecer com nossas irmãs e irmãos. A tristeza e a justa indignação convivem no meu peito.
Escrevi esse post no dia 12 de maio, no domingo do dia das mães. Nele, expressei um sentimento que não é só meu. É coletivo entre quem aqui está vivendo e compartilhando esse momento até então inimaginável no Rio Grande do Sul. Um momeno de profunda tristeza e larga destruição. Cidades inteiras devastadas, riscadas do mapa, e uma capital (ainda) mergulhada na lama e no luto, nos tornaram mais reflexivas e monotemáticas.
“Parece que a realidade tá distante, que o tempo parou e que o mundo tá todo quebrado e virado do avesso”, escreveu uma das amigas que atravessa esse momento comigo.
Compartilho do sentimento dela.
Não é uma simples enchente – o que já seria cruel e complicado. É uma verdadeira devastação. Uma catástrofe política-climática provocada pela ganância de alguns e ampliada ao extremo pela omissão e negligência de governos que compactuam com o projeto negacionista dos atuais donos do mundo. Para eles, Marte é a saída e seus bunkers milionários, a garantia da sobrevivência no luxo e na impunidade. Para a maioria de nós, no entanto, nada disso é opção e nos resta lama, lágrimas na chuva, doenças e muita destruição.

Mudam os cenários, as personagens, mas a história é a mesma. Aliás, se eu me sinto um pouco como a personagem de Jennifer Lawrence em Não Olhe para Cima, vendo a destruição se aproximar e ninguém dando bola, imagina a galera ativista e as cientistas climáticas.

MARCAS QUE FICAM
É impossível não ter alguém do nosso círculo de relações, seja uma pessoa próxima ou uma conhecida, que não tenha precisado evacuar a casa, ou acolhido alguém ou perdido tudo. Todos conhecemos alguém que viveu algo assim.
Uma amiga me conta que sua cunhada perdeu o pai. Ele não quis deixar pra trás sua vida e sua casa e acabou afogado pelas águas em Eldorado do Sul. Um motorista de aplicativo me relata que carregou no banco traseiro do seu carro a filha que perdeu o pai – um médico que veio de fora do estado pra ajudar os desabrigados e acabou falecendo, enquanto trabalhava por aqui.
Ele também compartilha comigo que carregou a solidariedade na forma de um grupo de manicures. Dispostas a tornar um pouco menos triste e mais digno o dia de mães que haviam perdido tudo (algumas, até mesmo, filhas e filhos), elas foram para abrigos de Porto Alegre pintar unhas dessas mães num final de semana chuvoso, úmido e frio, que congelava os ossos e a nossa esperança.
Por fim, o jovem motorista me relata ter ficado perplexo com a atitude de uma passageira que, ao falar com alguém no celular, se mostrava indignada com o fato de não ter um salão aberto para que ela pudesse arrumar os cabelos. Fato esse que ocorreu num dia em que a cidade estava imersa na lama; e nós, no desespero, no desalento e na escassez de água potável nas torneiras e de água mineral nas prateleiras do comércio.
São muitas histórias, muitos relatos dos eventos dramáticos. Quase todos sobre perdas. Seja contado e ouvindo essas histórias, seja confortando e ajudando quem perdeu muito e tudo, precisamos viver e lidar com o luto.
Não, não está tudo bem.
LUTO COLETIVO
Quem está longe talvez não consiga entender a dimensão do que aqui acontece, a profundidade do luto que nos atravessa, a dor que é testemunhar tanto sofrimento e tantas perdas. Há muitas milhares de pessoas, que perderam tudo, tudo, tudo que tinham. Casa, móveis, roupas, acessórios, livros, brinquedos, fotos, diários, memórias, sonhos, afetos e alguma amigo ou amigo.
As águas podem ter baixado e a chuva cessado. A água potável pode ter voltado às torneiras e o sol ter dado as caras nos últimos dias. Mas não está tudo bem ainda. Estamos longe disso.
A água destruiu cidades inteiras. Arrasou vidas. Aniquilou sonhos. Matou gente, bichos, seres de toda as espécies. Arruinou negócios de todos os tamanhos. O luto de todos nós vai ser longo e precisamos vivê-lo, dar espaço a ele. Conhecer esses relatos, escutar a voz dessas pessoas, é uma forma de compreender a dimensão da tragédia que vivemos e de ajudar a lidar com o luto coletivo que nos atravessa.

Enquanto escrevo essa newsletter, fico sabendo que o filho de um funcionário do prédio onde moro, um jovem de 21 anos, que estava ajudando a resgatar desabrigados, faleceu em função de leptospirose. E na feira ecológica ontem, tomei conhecimento dos prejuízos que esses agricultores tiveram. Seu Odilar, por exemplo, viu todo o brócoli e repolho plantados serem levados pelas águas e calcula ter perdido cerca de R$ 8 mil reais só nos moranguinhos. Ele também me diz estar preocupado com o fato da terra estar sem condições alguma para plantio.
Como se manter daqui pra frente?
Quem também perdeu e muito foi Seu Daniel e sua família. Pela terceria vez em oito meses, ele viu as águas levarem toda a sua lavoura. Com as economias que tinha, conseguiu plantar e cultivar novamente. Agora, me contam seus colegas de feira, além de já não ter mais recursos para isso, ele também viu o barro e a lama chegarem ao teto de sua casa e destruir tudo tudo tudo que ele tinha. Morador de Eldorado do Sul, uma das cidades mais atingidas, que ficou 90% submersa nas água e na lama dessa catástrofe político-climática, S. Daniel conta com o apoio dos demais feirantes e fregueses. Vamos ajudá-lo com pix e rifas.
Definitivamente, não está tudo bem. Fomos vítimas não só de uma situação da natureza, mas de um completo abandono, descaso e negligência criminosa de quem deveria zelar pela vida da população.
IRRESPONSABILIDADE E NEGLIGÊNCIA
A negligência do governador Eduardo Leite e de prefeitos como Sebastião Mello, de Porto Alegre, que, por projeto político, resolveram ignorar TODOS os alertas recebidos e jogar de forma leviana e irresponsável com a vida da população gaúcha e porto-alegrense, numa espécie de roleta russa, é cruel, criminosa, desumana e abjeta.
Muitos vídeos e reportagens mostram isso. Trago aqui algumas. Entre elas, duas feitas pela jornalista Sílvia Marcuzzo, amiga e colega que precisou evacuar o apartamento em que mora no bairro Menino Deus e, até o início dessa semana, ainda não havia
Essa aposta deles deu ruim.
Muito ruim, como hoje testemunhamos. E eles sabem disso. Sim, eles têm noção do tamanho da irresponsabilidade das escolhas e da improbidade administrativa deles. Eles sabem e, agora, tentam se safar. Tanto é assim que ambos já contrataram a mesma empresa (não por acaso) pra limpar a barra deles e livrá-los de qualquer responsabilidade legal.
A conta dessa tragédia político-ambiental é deles, sim.
Ética, moral e administrativamente.
Enquanto eles ESCOLHERAM desprezar todos os avisos, hoje, há milhares de pessoas juntando os cacos de suas vidas e enterrando afetos e entes queridos.
A conta dessa tragédia político-ambiental é deles e de todos os senadores, vereadores e deputados estaduais e federais que vem destruindo tudo aquilo que protege o meio ambiente, a nós e a vida como conhecemos por aqui. Tudo aquilo que vinha ajudando a evitar tragédias desse porte e nos manter vivos e sãos por aqui.
Nomes como
Arthur Lira, Rodrigo Pacheco, Jaime Bagatolli, Lucas Redecker, Marcel Van Hattem, Marcio Bittar, Luis Carlos Heinze, Zequinha Marinho, Hamilton Mourão, Ricardo Sales, Alceu Moreira, Pedro Lupion e muitos outros são, de alguma forma, responsáveis pela dimensão dessa tragédia. Algo que a montanha de fake news que inundou a rede, junto com a lama no nosso estado, vem tentando encobrir, negar, disfarçar. Mas nada vai mudar os fatos, as escolhas feitas, as prioridades equivocadas eleitas, as mentiras, o negacionismo, a irresponsabilidade dos atos. Infelizmente, a conta disso tudo quem está pagando é a população, especialmente a empobrecida e a mais vulnerável.
Eu teria muito, muito mais para falar. Mas não é um único texto, uma só news, que vai dar conta de esgotar tudo o que nos inunda e atravessa nesse momento. Além disso, agora, é hora de viver o luto e de se mobilizar pra ajudar a reconstruir vidas. Lares. Dignidades. A Terra.
SOLIDÁRIA GENTE
Temos visto muita gente mobilizada em iniciativas lindas. Primeiro, foi nos resgates. Agora, nas reconstruções e autorrecuperações que acontecem em todo o Estado. Esse é um processo que vai ainda muito longe e temos um inverno inteiro pela frente. As pessoas vão precisar de muito apoio, suporte, solidariedade e ajuda ainda. Se você puder contribuir com qualquer valor para uma das muitas inciativas que postei no final da minha newsletter no Substack, agradeço. Sua ajuda será muito bem-vinda.
