Faz dois anos que Dona Graça, minha mãe, apesar de sua autonomia e lucidez, não fica mais sozinha em casa e nem sai à rua desacompanhada. Isso passou a ser a regra, depois que ela se perdeu, enquanto ia para uma aula de pilates, que ficava numa rua bem ao lado da que moramos.
Nunca esquecerei a sensação de incredulidade e medo ao receber a ligação da professora, preocupada com o fato de nossa mãe não ter aparecido na aula. Fiquei desnorteada por alguns segundos. Instantes depois, sai porta afora atrás de Dona Graça.
Enquanto vagava pela rua, a ansiedade só crescia. Quantas coisas passam na nossa cabeça em um momento assim, não é? Um misto de impotência, o receio de não encontrá-la ou que ela pegasse algum caminho que a afastaria e tornaria tudo mais difícil.
No fim, acabou tudo bem. Passada uma hora do seu sumiço, ainda andando pelas ruas do bairro, recebi uma ligação do zelador do prédio, avisando que minha mãe estava em casa, que ela havia voltado e me aguardava na portaria. Respirei aliviada. Aleluia.
É incrível como, num dia, a gente lê sobre as estatísticas dessa realidade e, no outro, fazemos parte de tais números.
Ao chegar no prédio, encontrei Dona Graça bastante assustada. Ela tinha noção tanto do lapso de memória que tivera, como do fato de que vagara sem rumo, que estava perdida. Enquanto conversávamos, ela contou que seu retorno se deu por acaso. Ela voltou não por ter lembrado onde morava, ou qual era o seu destino, mas, sim, por ter reconhecido o prédio ao passar em frente a ele.
Depois disso, nossa mãe nunca mais saiu sozinha à rua.
Algumas confusões que aconteceram logo depois, como girar um dos botões do fogão, sem acionar o acendedor automático, e deixar gás vazando, nos serviram de alerta para a necessidade de Dona Graça ter sempre alguém por perto, zelando pelo bem-estar e segurança dela.
Desde então, ela passou a ter cada vez mais companhia. Hoje, contamos com três maravilhosas mulheres, suas fiéis acompanhantes, que ficam com Dona Graça durante seis dias da semana – o que me permite trabalhar nos meus projetos e com clientes de copy e ghostwriting e borboletear por aí. O sétimo dia é comigo ou com meu irmão Manuel. Nos alternamos. Já as noites, até o momento, são todas comigo.
Nessa nossa equipe, ainda está minha irmã, a Mônica, que atualmente mora no Maranhão. É ela quem administra toda a vida burocrática e legal da nossa mãe. Além disso, Moni se faz presente aqui com frequência regular – que poderia ser ainda maior se os preços das passagens aéreas não fossem tão abusivos – para nos ajudar.
Quando está em Porto Alegre, minha mana assume a ida a consultas médicas, compras de medicamentos e parte de toda a carga mental com a qual eu lido diariamente, me liberando o máximo possível.
Por muito tempo, com meu irmão e eu fora de Porto Alegre, foi Moni quem cuidou de nossa mãe praticamente sozinha. Num período de forte crise de depressão de Dona Graça, ela se viu obrigada a abrir mão de um projeto pessoal. Era impossível conciliar. Justamente por não ter a rede que hoje tenho.
Sei que essa estrutura que disponho para compartilhar o cuidado da minha mãe é mais exceção, do que regra. E que é bastante privilegiada. Tenho noção da rotina extenuante de muitas mães solo e filhas cuidadoras mundo afora, assim como a de tantas mulheres que, sozinhas, cuidam de seus pais e de seus filhos ao mesmo tempo, sem ajuda alguma.
Às vezes, fico imaginando como seria diferente a vida nossa de cada dia, se a visão que orienta a existência humana e as relações no mundo fosse centrada em relações de cooperação, ao invés de dominação. No cuidado amoroso de todos os seres e do planeta. Quanta coisa mudaria na realidade de milhares de pessoas? Especialmente na das mulheres? E da natureza?
Muita, acredito eu.
Às vezes, me sinto como uma mãe que compartilha guarda. Só que, ao invés de ser a de uma criança com um ex-companheiro, o que compartilho é o cuidado de minha mãe com meu irmão na rotina do dia a dia e com minha mana nas decisões do que é melhor para Dona Graça.
Enquanto vamos lidando com a realidade, que muda a cada dia, trazendo desafios e aprendizados que impactam nossa forma cuidar e de compartilhar o cuidado de nossa mãe, Dona Graça vai se adaptando às novas condições. E vai vivendo seus dias e limitações sempre com batom vermelho, brincos estilosos, roupas coloridas, boa prosa, alto astral e o seu joie de vivre, como ela tanto gosta de dizer.
