Que as pessoas adoram espiar a vida alheia, isso é fato. Prova disso são as centenas de revistas e sites de fofocas que circulam por aí. Bem como os programas ao melhor estilo voyeur, que se multiplicam. Até aí, tudo bem. Embora não aprovasse e menos ainda consumisse esse tipo de produto, o que Ela nunca imaginaria é que poderia protagonizar uma cena assim.
Anos atrás, quando ainda morava em seu antigo apartamento, chegando em casa após um treino de pilates, Ela se deparou com o vizinho do andar de cima, Seu Odair, carregado de muitas sacolas e pacotes em direção ao elevador. Gentilmente, Ela segurou a porta do elevador à espera dele. Ao cumprimentá-lo, percebeu um lampejo maroto em seu olhar. Mas não demorou o pensamento nisso, focando sua atenção no que havia disponível em casa para saciar sua fome, que só aumentava naquele pós-aula. Porém, seus pensamentos foram interrompidos pela voz jocosa de Seu Odair:
– Sabe, gosto muito de ficar madrugada adentro assistindo filmes. E da janela da minha sala acabo vendo a sua cozinha… Toda e tudo nela, porque as janelas do prédio ao lado são um verdadeiro espelho à noite… Já reparou isso?
Seu pensamento rápida e freneticamente abandonou a comida e substitui a omelete imaginada pelas porno cenas que Ela protagonizara com Adalberto, seu crush e PA, no balcão há menos de 48 horas. Sorriu, disfarçando o constrangimento, e respondeu a única coisa que cabia:
– É mesmo? Nunca notei.
– Sim – continuou bem animadinho o vizinho – Às vezes, vejo você e seu namorado por ali…
Antes que eu esboçasse qualquer reação, o elevador parou no meu andar e saltei dele apressada, me despedindo de Seu Odair com um breve tchau, ainda pensando nas cenas calientes protagonizadas com Adalberto – única razão das inserções àquela parte do apartamento nas madrugadas recentes, por sinal…
“Nãããoõoo”, pensou com seus botões, lembrando dos malabarismos sexuais na pia e no balcão da cozinha.
“E se isso for parar no YouTube?E se algum outro vizinho voyeur filmar isso?”
Ela estremeceu diante da possibilidade, já imaginando o custo disso para sua carreira.
“Como fica minha credibilidade na firma? E com que cara vou ao próximo encontro de família?”
Tais pensamentos e a ideia de ser alvo da rede lhe tirou o apetite e a fez girar nos calcanhares, descendo pelas escadas rumo à garagem outra vez. Uma hora e meia depois, estava de volta. Com Adalberto e cortinas em mãos. Aliviada, Ela se refestelou com seu PA depois de cobrir as janelas com os panos. Sem preocupar-se em ser pega com (ou sem) as calcinhas (ou qualquer outra peça) nas mãos.
Imagem: Kevin Cloney/Unsplash
Escrito em julho de 2009.

11 agosto 2017 @ 23:51
Marília, que lindo, criativo, talentoso e profissional teu trabalho!! Parabéns!!!
14 agosto 2017 @ 15:14
Obrigada, Diana! Tuas palavras significam muito pra mim. 🙂