Você já ouviu falar em overview effect (efeito perspectiva, em português), uma profunda mudança cognitiva da consciência vivida por alguns astronautas ao visualizarem a Terra a partir do espaço?
Pois então, vários deles reportam que, ao ver do espaço o nosso planeta, admirando toda a sua beleza, o sentimento que desperta é o de amor por esse nosso Pálido Ponto Azul e de encantamento com a vida aqui. Muitos contam que passam a ver a Terra como um ser vivo, como um oásis de vida, protegido por uma fina atmosfera com a espessura aparente de uma folha papel, flutuando na aridez inóspita do espaço.
Veja esse trechinho do documentário The Overview Effect que recebi de uma querida participante durante o curso Mundo Adentro, Céu afora.
Ainda que esse termo tenha sido cunhado por Frank White em 1987, bem antes disso, quando a primeira foto do planeta visto do espaço foi publicada num jornal de grande circulação nos Estados Unidos no final de 1968, esse maravilhamento com o nosso planeta impactou artistas, poetas e milhares de pessoas.
Caetano Veloso compôs a belíssima canção Terra (escute aqui). E , no dia após à divulgação da foto, como eu conto em Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia, o poeta Archibald MacLeish escreveu o seguinte:
“Ver a Terra como ela realmente é, pequena e azul e bela naquele eterno silêncio em que flutua, é ver-nos como viajantes juntos sobre a Terra, irmãos nesse brilhante afeto em meio ao frio eterno —irmãos que agora se sabem realmente irmãos”.

Desde o meu primeiro contato com a História do Universo, esse é o sentimento que tem me atravessado. O maravilhamento, o encantamento, aquele quentinho de alegria no coração, diante da beleza que é a natureza, o universo, a Terra, a vida em si.
Como não se encantar sabendo que a gente (eu e você), as focas, os pinguins, as plantas, as árvores, as aves, e tudo nesse planeta começou a existir bilhões e bilhões de anos atrás? Muito tempo antes de estarmos aqui, lá quando as estrelas começaram a explodir no cosmos e os rastros dessas explosões deram origem aos átomos que estão em cada pedacinho dos nossos corpos e de tudo que existe nesse mundão e no cosmos?
Como não se maravilhar ao saber que quando eu olho para uma estrela no céu ou para uma árvore ao meu lado eu estou olhando para uma forma de existência feita pelos mesmíssimos átomos dos quais eu sou feita?
Como não se encantar diante dessa profunda conexão entre a nossa existência, a da Terra e a trajetória do universo, sabendo que a Terra e toda a vida que nasceu aqui é resultado de uma série de transformações que vão desde a combustão e explosão de estrelas, que lançaram no espaço os átomos que formam o corpo que habitamos, ao surgimento de bactérias em nossas águas primordiais e tudo o que veio depois delas?
É exatamente maravilhamento o que sinto diante da imensidão dessa compreensão.
É esse sentimento de respeito, de afeto, de encantamento que transborda em mim e me faz querer celebrar o privilégio que é estar e viver na Terra. Nesse lugar de rara beleza e tão único no universo, como vem defendendo o físico Marcelo Gleiser.
Assisti várias entrevistas que ele concedeu em março, durante o lançamento do seu novo livro O Despertar do Universo Consciente no Brasil. Em todas elas, o físico fez questão de reforçar o quão raro no universo é a existência de vida tal qual a que temos aqui, com a diversidade de seres e paisagens. O que faz com que a Terra possa ser considerada um oásis no espaço. Um superplaneta entre os bilhões de outros.
“A Terra é muito especial. É muito rara. A gente só está aqui porque existe vida no planeta há 3,5 bilhões de anos. … Só quando a vida existe por bilhões e bilhões de anos é que ela pode se tornar complexa e ir de uma bactéria até um dinossauro e até um ser humano… Tem que ter várias características para que a vida não só aconteça, mas também floresça por bilhões e bilhões de anos”.
Não é lindo saber que a vida precisou de todo esse tempo para gerar árvores, plantas, dinossauros, fugos, jacarés, borboletas, lagartas, girafas, cachorros, gatos e gente, humanas, como eu e você?
Como não se sensibilizar quando nos damos conta do quão lindo é esse planeta que nos proporciona algo tão incrível e raro no universo como a vida do jeitinho que ela é?


Gerar vida complexa como a nossa por aqui, conta o físico, vai muito além de ter certas condições químicas no planeta. É preciso que essas condições todas estejam no planeta há muito tempo – no caso da Terra, cerca de 3,5 bilhões de anos, para colocar em números.
Além disso, também são necessárias condições externas como, por exemplo, ser cercada por planetas maiores (como Júpiter e Saturno, no caso da Terra), que acabam recebendo o impacto de meteoros, asteroides e outros corpos celestes, evitando que eles atinjam a Terra.
“A vida é resiliente, mas também tem seus limites. Ela não existe acima de uma temperatura e nem abaixo de uma certa temperatura. Tem uma janela de temperatura para vida”, nos lembra Marcelo.
A vida aqui é tão excepcional, diz o físico, que ainda não há sinal de nada semelhante cosmos afora – embora haja muito interesse em nos convencer do contrário. Marte e Vênus, por exemplo, nem de longe são um lugar que propicie vida. Menos, ainda, a vida que temos na Terra.
Quanto mais amplio meu repertório sobre esse assunto, mais compreendo que são muitos os fatores que se tramam para que a vida como desfrutamos aqui seja possível. Para que possamos fazer coisas simples como sair na rua sem precisar de máscara de oxigênio, tomar banho de mar sem a necessidade de roupa especial que proteja a pele de danos irreversíveis, caminhar numa calçada sem “derreter feito lesma”, como disse Ailton Krenak, devido ao calor. Para viver ao invés de apenas sobreviver.
“Repensar quem nós somos no universo, nesse planeta, é essencial para o nosso projeto de civilização, para o futuro desse projeto de civilização”, defendeu Marcelo.
Concordo.
É preciso rever o nosso papel nesse planeta e contar uma nova história sobre nós mesmos. A atual história, que há cerca de seis mil anos vem sendo contada pela visão de homens, especialmente os brancos do norte global, é bem problemática.
Além de repleta de inconsistências e equivocada, sua ideia norteadora de que o homem é dono do mundo, da natureza e do corpo da mulher, e que desses recursos ele pode dispor como bem entender, conforme a sua vontade, é o que vem destruindo a trama da vida na Terra.
É essa história que vem nos conduzindo ao colapso e à destruição daquilo que de mais precioso existe aqui e universo afora: a vida como a conhecemos. O que me leva às palavras de V, Eve Ensler, ativista fundadora do V-Day e dramaturga autora de peças como Monólogos da Vagina, em sua emocionante carta de desculpas para a Terra apresentada por ela, alguns anos atrás, na conferência da Biooners, fundação sem fins lucrativos voltada a questões ambientais.
“Eu não te via, Mãe. Você não era nada para mim. Minha arrogância-feita-de- traumas e ambição me levaram àquela cidade pulsante quebrada. A perseguir um sonho, correr atrás do prêmio, a conquistas que finalmente provariam que eu não era ruim, ou estúpida, nada, ou errada. Oh, minha Mãe, que desprezo eu tinha por ti. O que você tinha a oferecer que me daria status no mercado de ideias e conquistas? O que suas árvores nuas poderiam oferecer, senão a solidão impressionante do inverno, ou o esverdeamento que eu não podia receber ou suportar? Reduzi você ao clima, a um inconveniente, a algo que me atrapalhava, à lama suja que arruinaram minhas botas de cidade superfaturadas com sal. Recusei o seu convite, desprezei a sua generosidade, desconfiei do seu amor. Eu ignorei todas as maneiras que usamos e abusamos de você. Fingi acreditar nas histórias dos pais [patriarcas], que diziam que você tinha que ser domada e controlada – que você estava lá fora para nos machucar.”

Mas como mudar essa narrativa que vem destruindo a vida aqui?
Creio que um bom começo seja olhar para a Terra com o mesmo sentimento de maravilhamento dos astronautas em nossos corações. E, depois, fazer o que fez V na sua carta – resgatar a nossa capacidade de celebrar e homenagear quem nos permite viver e experienciar a vida como conhecemos: a natureza. Gaia.
Mais do que nunca, precisamos desse sentimento de maravilhamento que transcende a lógica, que a racionalidade não explica, e que provoca uma mudança cognitiva de consciência profunda que muda tudo tudo tudo dentro da gente.
Mais do que nunca é hora de usarmos toda a nossa capacidade simbólica e criativa na construção de histórias e narrativas que celebrem nossa profunda relação de conexão e pertencimento com a natureza e com universo, enaltecendo toda a beleza, exuberância e raridade da vida que Gaia nos proporciona aqui, sem demandar nada em troca de nós.
Nesse propósito, de mudança de história, encerro a news de hoje, data em que celebramos o Dia da Terra, com mais um trecho lindo da carta de V à Gaia.
“Sou feito de terra e areia e estrelas e rio, pele, osso, folha, bigodes e garras. Eu faço parte de vocês, disso, nem mais nem menos. Eu sou micélio, pistilo de pétala e estame. Eu sou galho e colmeia, tronco e pedra. Eu sou o que esteve aqui e o que está por vir. Eu sou energia e sou poeira. … Sou lavanda, dente-de-leão, margarida, dália, cosmos, crisântemo, calcinha, coração sangrando e rosa. Eu sou tudo o que foi nomeado e não nomeado … Eu sou todas as suas criaturas desaparecidas, todos os pássaros doces que nunca nasceram. … Estou aqui agora, mãe. Eu sou sua. Eu sou sua. Eu sou sua”.
Celebremos a vida, a natureza e a Terra. Hoje e sempre.
PS: você pode ler a carta inteirinha de V à Terra (e escutá-la fazendo a leitura da carta) aqui nesse post do The Marginalian de Maria Popova. Aliás, tem muitas leituras incríveis por lá!
