Por muito tempo, a tão propagada ideia “primeiro cuidar de si, depois do outro, depois do mundo” orientou minha visão de autoconhecimento e a narrativa por aqui.
Mas aí, chegou a pandemia e com ela o encontro com essa e tantas outras narrativas falaciosas cujo propósito têm sido manter um estilo de vida insustentável.
Eu não conseguia (e na real nem queria) ignorar ou deixar de sentir me atravessar o que estava acontecendo no mundo. Na boa, não dá pra ficar indiferente ao que o vírus escancarou pra nós: o tamanho da desigualdade, da injustiça, da crueldade, do nonsense, da indiferença de tantos, da falta de consciência e responsabilidade social de muitos, e de que tudo isso é consequência de narrativas pra lá de pensadas e mantidas pra perpetuar esse sistema e estilo de vida bom para poucos por aqui.
Com essa e tantas outras crenças desmoronando, e vendo ruir meu mundinho interior, que me silenciou a voz e a escrita, comecei a buscar respostas e uma nova visão que fizesse mais sentido.
Encontrei muitos autores e pensadores questionando e desafiando a lógica e a verdade de tantas narrativas e práticas que adotamos sem nunca nos perguntar de onde elas vêm, com que intenção foram criadas e por que se sustentam até hoje, apesar de serem insustentáveis. E que nos levaram a uma crise climática, ética e humanitária sem igual. E a uma escalada vertiginosa da depressão, do burnout, da busca insana por gurus e soluções mágicas, dos crimes de ódio, do consumo ensandecido, e da exploração dos recursos da Terra sem que ela possa se regenerar.
Aliás, uma pausa aqui: se tem algo que Urano em Touro simboliza é de que é chegado o tempo de buscar sustentabilidade na nossa relação com a Terra e com a vida, ou seja, a capacidade de gerar e manter ao invés de destruir a vida aqui.
Foi com a advogada ativista dos direitos civis Valarie Kaur e seu Revolutionary Love que eu me deparei pela primeira vez com a ideia de trabalhar simultaneamente o eu, o outro e o mundo. Tudo junto e reunido. Ela inclusive desenhou uma bússola, um compasso pra ajudar e orientar como fazer isso, criando uma analogia linda com o trabalho de parto. O que ela explica em detalhes no livro See No Stranger – a Memoir and Manifesto of Revolutionary Love, ainda sem tradução no Brasil, e também no sensacional curso The People´s Inauguration, criado por ela junto com a plataforma Sounds True.
Pois participar do curso aí me deu ainda mais certeza de eu queria me unir à galera do Clima, curso de autoconhecimento e pensamento crítico da Perestroika que encontrei navegando na internet logo após ler o livro da Valarie no ano passado. A proposta de questionar as narrativas vigentes e reunir uma galera que se sente incomodada e não conformada com as coisas do jeito que estão fez todo sentido pra mim.
‘O chamado aqui não é pra esquecer a sua individualidade em prol da salvação do mundo, até porque isso não existe. Muita gente da militância relata esgotamento e exaustão quando a luta pela causa passa por cima de todos os tipos de autocuidado necessários pra seguir em frente. A ideia na real é construir uma perspectiva crítica e pensar em como podemos transformar o fora e o dentro ao mesmo tempo. Não adianta se só alguns estão bem. E vivemos em um sistema que tem por princípio o bem-estar de poucos. É usar a indignação com o que não parece certo para querer transformar. É olhar pra um post, uma notícia, uma compra, um voto, uma opinião e enxergar tudo de forma interligada. A gente influencia e somos influenciados o tempo todo, não existe separação.’
Transformar o fora e o dentro ao mesmo tempo. Eu, o outro e o mundo (o todo) interagindo o tempo inteiro. Sim, essa narrativa faz muito mais sentido que a anterior, diante dos desafios e da complexidade da transformação do mundo hoje. E também me parece uma ótima versão e aplicação da expressão ‘somos todos um‘, que apesar de ter virado clichê de retiro new age, carrega uma profunda verdade – a de que não existe separação – e um chamado pra ação com consciência social e coletiva (pois estamos todos juntos nessa).
É com tudo isso transbordando o pensamento e o corpo, e muito entusiasmo, que me preparo pro início das aulas do Clima online logo mais, ao anoitecer de hoje. Curiosa e animada com a possibilidade de aprender, conhecer, ampliar e trocar com essa turma de questionadores. E com alegria de estar reencontrando minha voz e minha escrita outra vez.
Imagem de Ryan Franco/Unsplash
