Como combater a intolerância e os discursos e gestos de ódio que assolam o mundo, sem escalar ainda mais essa hostilidade?! Como me fazer presente e enfrentar essa escuridão que a pandemia escancarou ainda mais e que me fez ficar sem ar e sem voz inúmeras vezes nos últimos meses e ano? Argh!
Pois em See No Stranger – a Memoir and Manifesto of Revolutionary Love, ainda sem versão em português, a advogada e ativista dos direitos civis Valarie Kaur me deu uma bússola pra esse sentimento, essa urgência, esse anseio que me transborda há meses.
Pra começar, Valarie me fez entender que ficar assim, com peito apertado, oprimido, sem fôlego e sem ar diante da injustiça, revela que sou humana. Além disso, diz ela, esse desconforto também mostra que estou desperta/consciente de que o mundo está em uma profunda transformação e que estou sendo chamada a participar dessa transição. E então, ela propõe:
Escrito com alma e uma narrativa poética, sensível e potente, revolucionária pra esses nossos tempos, Valarie nos aponta uma direção narrando a sua própria história, atravessada e marcada por intenso ativismo contra crimes de ódio à comunidade Sikh e a outras tantas, também vítimas do preconceito, da injustiça, da intolerância e da supremacia branca nos Estados Unidos. Crimes que escalaram após os ataques do 11 de Setembro.
“O futuro é escuro. E se essa escuridão não for da tumba, mas sim a do útero?! Respire e faça força”, diz ela, fazendo uma linda analogia desse momento que vivemos com um trabalho de parto. “Estamos em trabalho de parto. O trabalho de parto requer dor — e amor. O Amor Revolucionário é o chamado dos nossos tempos.“
Sim, estamos todos testemunhando e vivenciando esse parto. Mas nem todos participando conscientemente dele. E em seu livro, ela nos convida a ESCOLHER entrar nesse processo de parir o novo mundo movidos pela ética do amor, o amor revolucionário, como ela explica no livro e nesse Tedtalk aqui (com legenda em português).
“Estamos encenando uma intervenção cultural para o nascimento de um novo futuro. … Nossa missão é equipar nossos movimentos e comunidades com ferramentas para trabalhar no amor — amor pelos outros, nossos adversários e por nós mesmos. Quando derramamos amor nessas três direções, então o amor se torna revolucionário”.
Nessa jornada, Valarie nos lembra o que de fato faz a diferença e importa. Como, por exemplo, que não existe cura ou reconciliação sem encarar a verdade. Jamais. Porque só a verdade cura. E que a escuta atenta, uma potente entrega, nos ajuda a compreender momentos de grande injustiça. E assim, nos dá força pra ‘respirar e empurrar’. E mais: que o amor é muito maior que um sentimento. É uma escolha de abraçarmos e engajarmos TODAS as nossas emoções e entrarmos em ‘trabalho de parto’.
Mas como se vive isso na prática isso? Valarie explica.
- Amando os outros. Escutando suas histórias e refletindo sobre elas, o que nos leva a ver no outro não um estranho, mas um irmão e também um parte minha que eu ainda não. Uma escuta empática que me faz entender a dor deles e me unir à sua luta.
- Amando nossos oponentes, o que só acontece quando entendemos que eles são fruto de um sistema errado, corrompido. E o que temos que nos unir e combater é o sistema, e não as pessoas. Porque é aí que a mudança de fato ocorre. O que Gandhi, Martin Luther King e Mandela nos ensinaram. Maaaas, pra isso, primeiro precisamos extravasar a nossa raiva em ambientes seguros. E depois disso, só depois disso, conseguimos escutar nossos oponentes e ter informações suficiente pra reimaginar o sistema que queremos mudar.
- Maaaas só conseguimos isso tudo quando aprendemos a amar e cuidar de nós mesmas. E aqui ela faz a analogia com o trabalho de parto. Pra enfrentar e dar conta dessa luta, precisamos lembrar de respirar, fazer coisas que nos encham de vida. E permitir e trabalhar para que os outros também respirem. Ou seja, “quando respiramos através do fogo da dor e nos recusamos a deixá-la tornar-se ódio”. E nos momentos mais difíceis, lembrar do que está nascendo, ao que se está dando vida, e invocar a bravura feroz do amor pelo que vai nascer.
Em cada etapa dessas, vamos participando e fazendo o nosso papel nos ‘partos’ que a vida nos convoca, com os dons e habilidades que temos. E assim nos tornamos agentes da transformação guiados pela ética do amor. O que o Dalai Lama chama de amor inteligente no livro A Ética é mais importante que a Religião – Um Apelo do Dalai Lama ao Mundo, que é a transcrição de uma entrevista sua para o jornalista alemão Franz Alt. Nele, o Dalai defende que o século 21 seja o século da vitória do amor sobre a violência. Que seja o tempo da revolução da empatia e da ação compassiva.
Por fim, Valarie ainda me fez recordar várias técnicas e práticas de conexão que já utilizei e ajudaram demais na minha jornada de autoconhecimento e despertar. Como o hábito de escutar a mulher sábia que me habita.
O resultado?! Insights pra caramba e certeza de que eu quero me juntar a esse trabalho de parto coletivo de um mundo sem tanta injustiça e tamanha maldade, em suas muitas formas tais como preconceito, ignorância, violência, egoísmo, indiferença e mentiras descaradas. Se você quiser saber mais, deixo aqui o link do Revolutionary Love Project.

