Dizem que a mudança é a única constante na vida.
E que somos metamorfoses ambulantes, como cantava Raul Seixas.
‘Você está sempre mudando‘, garante o psicólogo Dan Gilbert neste TEDTalk aqui. Ele afirma que somos um processo em constante desdobramento. Que somos seres inacabados e em contínua construção. Uma obra em andamento que, equivocadamente, pensa estar finalizada.
Concordo.
Estamos sempre vivendo algum tipo de transformação.
No exato momento em que escrevo esse texto para você, estou atravessando mais uma delas. Uma que é universal a todas as mulheres, mas que é vivida de forma muito particular e customizada por cada uma de nós. Falo do climatério, esse corredor que nos leva à menopausa.
Eu não percebi que ele estava se anunciando.
Além de ter um ciclo menstrual regulado nos últimos anos, com fluxo moderado e sem alterações, todos os exames de imagem (até o último checkup no ano passado) confirmavam o que os testes de laboratório indicavam: hormônios em plena operação, fazendo (e muito bem) o trabalho deles no corpo da cinquentona aqui.
Em função disso, não associei o sono picotado de cada noite ou a queda avassaladora de cabelos a uma possível oscilação hormonal. Não estava no meu radar (apesar dos avisos da minha amiga Babi). É que conhecendo meu jeitinho ansioso e sensível, e a forma como me envolvo com os perrengues de cada dia, logo fiz do estresse o grande culpado pelo desequilíbrio do meu organismo.
Só fui me dar conta de que poderia ser um anúncio do porvir, de que eu poderia estar cruzando o portal que leva à menopausa, quando percebi que junho havia acabado sem que eu recebesse a menstruação para o nosso encontro mensal.
Só aí eu conectei os pontos.
Após consulta médica e feitos todos os exames de sangue e de imagem, veio a confirmação oficial: nesse último ano, meus hormônios saltaram morro abaixo, despencaram, se lançaram no precipício, me colocando na estrada que leva à menopausa.
Se por um lado eu estou muito de boas e até feliz com a chegada desse momento (que acho libertador), por outro eu tô muito impressionada com a bagunça que esse drop, essa queda livre, fez no meu corpo e na minha rotina.
Caraca!
Tem sido muito doido sentir na pele e nas entranhas que, “de repente, não mais que de repente”, da calma fez-se angústia, da pouca paciência fez-se espuma, da mente fez-se bruma, da força fez-se cansaço, do conhecido fez-se mistério, e da paciência fez-se fim. Argh!
Perceber que meu organismo já não responde às demandas a que ele sempre foi submetido como até então eu estava acostumada, e que, muito pelo contrário, ele reage de um jeito nada usual, desconhecido e, portanto, imprevisível para mim, tem me deixado pasma. E angustiada. E frustrada. E cansada. Muito cansada. É desgastante demais dar voltas e mais voltas, num loooping interminável que oscila entre cansaço e disposição, sem sair do lugar.
Talvez as mudanças sejam passageiras, enquanto meu corpo se adapta ao novo e se reorganiza.
Talvez, não.
Talvez, daqui pra frente, tudo vai ser diferente, como canta Lulu Santos.
Como será pra mim, só o tempo vai me revelar. Seja como for, já estou buscando ferramentas que auxiliem o meu organismo a encontrar o novo ponto de equilíbrio dele nessa travessia do portal e ao longo da estrada que leva à menopausa.
Enquanto escrevia esse texto, me dei conta de algo bem interessante.
Eu tenho falado tanto em bailar com o caos, com essa força caótica criativa que é misteriosa, que é o novo, o desconhecido. E não é que ele veio me convidar pra dançar? A metamorfose hormonal que estou vivendo não é exatamente essa dança aí ?
Sabendo isso, me parece que a melhor escolha é sentir e entender o compasso dessa dança e me entregar a ela, fluindo no ritmo ditado pela música que a vida toca. É o que pretendo fazer.
Um beijo, boa semana e até a próxima!
Com afeto,
Lila
A imagem de abertura é de Eunice Stahl
