Amanhã tem eleição.
E me sinto de volta aos tempos de Velho Oeste. Ao invés de debates, o que vimos até aqui foi um festival de mentiras regado a desrespeito, ataques e muita baixaria. Bate-boca, agressões verbais, xingamentos, mentiras deslavadas, brigas, gritos, homens descontrolados beirando a histeria e até socos, sangue e arremesso de cadeiras.
Caraca!
Quando foi que passamos a aceitar esse tipo de conduta e comportamento de quem quer legislar e governar? Quando foi que normalizamos a violência e a mentira como prática e orientação nas relações políticas?
Ah, lembrei.
Desde que homens, usando de muita violência, mentiras e opressão, criaram um sistema de poder chamado patriarcado. E, mais recentemente, quando os atuais donos do mundo (aquele 1% da elite retratada como deuses na série Kaos) passaram a sentir ameaçados seus privilégios, regalias, poder e fortunas, à medida que as lutas antirracista e por direitos civis eclodiam na década de 1950 e se desdobravam, garantindo uma vida mais digna para mais e mais pessoas e não só para a nobreza da nova corte.
Quem me mostrou isso foi a historiadora estadunidense Nancy MacLean no livro Democracy in Chains (algo como Democracia acorrentada/algemada).

Nessa obra, que é resultado de uma pesquisa de cerca de dez anos, ela conta como esses caras poderosos, majoritariamente brancos, à época incomodados com o fato dos avanços antirracistas mexerem com suas fortunas e privilégios, iniciaram um contra-ataque silencioso para minar a potência do povo mobilizado, articulado e detentor de poder via voto.
Seguindo a visão de um economista do sul dos Estados Unidos chamado James Buchanan, de que a democracia deveria ser suprimida para que o capitalismo florescesse, eles começaram a implementar um projeto para corroer e liquidar o sistema democrático por dentro, tal qual Luke Skywalker fez com a Estrela da Morte em Star Wars.
Para isso, criaram a ideologia que sustentaria todo esse movimento: o libertarianismo – que, por sua vez, daria origem à teoria do estado mínimo neoliberal. Esse mesmo que nomes como Eduardo Leite, Sebastião Mello, Ricardo Nunes e tantos outros abraçam e defendem com garras e dentes.
O próximo passo foi ‘fabricar’ (termo meu) soldadinhos dessa ideia, bancando e investindo em carreiras políticas, acadêmicas e nas mais diversas áreas, assim formando uma legião de defensores dos interesses dos donos do mundo e dessa sua proposta.

Com a ajuda de marqueteiros nada éticos e muito interessados no volume do dinheiro que chegaria em seus bolsos, soldadinhos neoliberais dessa elite foram criados, bem treinados e remunerados e chegaram ao poder na política. A partir daí, começamos a ver avanços sociais e direitos constitucionais não só serem contidos, minados, mas muitos deles revogados.
Sim, eu sei…
Parece ficção.
Uma distopia hollywoodiana.
Mais uma teoria da conspiração.
Entendo.
Também fiquei com esse sentimento e bastante chocada/impactada quando li Nancy MacLean e seu Democracy in Chains lá em 2020, logo no início da pandemia, depois de ouvi-la numa live com a atriz e ativista Jane Fonda.
Honestamente, eu preferia que fosse ficção ou uma bobajada conspiratória. Mas, infelizmente, se olho para o mundo ao meu redor, com tudo que vem acontecendo localmente aqui em Porto Alegre e globalmente, me parece que o que ela diz está mais para realidade do que para ficção ou conspiração.
Na Inglaterra, por exemplo, os soldadinhos dos donos do mundo, atendendo interesses de corporações de combustíveis fósseis, criaram leis que criminalizam protestos pacíficos com o intuito de calar a voz e os atos de ativistas climáticos.
Nos Estados Unidos, a lei federal que garantia o aborto foi revogada e muitos estados estão, agora, criminalizando a interrupção da gestação. Além disso, há anos, legisladores estaduais vêm criando e implementado uma série de regras na legislação que têm dificultado o acesso a esse direito. O intuito, diz quem estuda o caso, é cercear o acesso de cidadãos de comunidades como a negra e dos mais empobrecidos ao voto.
Aliás, isso me lembra uma cena em Kaos em que Hades usa um espremedor de laranjas para mostrar a Zeus o que eles, a elite dos deuses todo poderosos, estão fazendo com os pobres e reles mortais: espremendo até sobrar só o bagaço.

Aqui no Brasil, vimos o Congresso Nacional desmantelar leis de proteção ambiental e envenenar a população com mais agrotóxicos com o seu Pacote do Veneno, ao invés de protegê-la contra os efeitos letais desses produtos – o Brasil é o país que mais usa agrotóxicos no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ ONU), estando à frente até mesmo da China, cuja população é cerca de sete vezes maior do que a nossa.
Este mesmo Congresso ainda tenta privatizar praias, aprovar o inconstitucional Marco Temporal e obrigar meninas a levarem uma gestação fruto de estupro adiante, só para citar alguns dos projetos dos nossos legisladores.
Essa todas são pautas que servem ao interesse de quem?
Da grande maioria da população que não é. Afinal, nenhuma delas promove uma vida melhor e mais dignas para mais e mais pessoas, especialmente a população mais empobrecida e vulnerável. Me parece que elas estão voltadas a atender os desejos dos novos deuses do mundo: a elite dona de todo o capital, cujo comportamento e ganância (como a série Kaos tão bem retrata) está literalmente não só sugando o sumo da Terra e das pessoas, mas também minando e ameaçando a democracia e a própria existência da vida no planeta.

Amanhã tem eleição.
E o voto ainda é um recurso de poder que temos à disposição. Ainda.
Um poder que, nós mulheres, não tínhamos cem anos atrás no Brasil.
Foi preciso muita contestação das ativistas que vieram antes de nós para que, na metade da década de 1930, conquistássemos o acesso às urnas e ao voto, ainda que de forma facultativa para muitas de nós e, portanto, sendo menos valorizado – foi só em 1965, ao tornar-se obrigatório para todas as mulheres, que nosso voto ganhou o mesmo peso que o dos homens.

QUE MULHER É ESSA?!!
Uma das mulheres que batalhou pelo voto feminino no Brasil foi Leolinda Figueiredo Daltro, professora e indigenista baiana e fundadora do primeiro partido feminino no país.
Junto com outras mulheres, em 1910, Leolinda criou o Partido Republicano Feminino, que buscava justamente ampliar os direitos das mulheres e promover a igualdade através do voto.

As integrantes do partido faziam muito barulho dentro e fora do legislativo, com passeatas nas ruas em prol do direito ao voto para as mulheres, e com presença ativa no plenário da casa legislativa, como forma de pressionar por uma lei com base na igualdade de direitos.
Se hoje a violência de gênero na política é o que é, imagine um século atrás. Leolinda sentiu na pele o contra-ataque de quem não queria abrir mão de seus privilégios e lutava para conservar tudo como está. Foi ridicularizada por sua origem humilde, sofreu bullying, deboche e muita violência em desafiar toda uma estrutura social classista, machista e racista.
Eu fiquei tão encantada com a história dessa mulher, que fiz o Mapa da Alma (mapa astral) dela – meu coração de escritora astróloga contadora de histórias é muito curioso. Fiquei fascinada! A coragem, a ousadia e principalmente o comprometimento com sua visão, que garantiram que ela plantasse a semente para o voto feminino e o movimento sufragista no Brasil, estão todos nos diálogos das astromulheres sagradas no céu do nascimento de Leolinda.
Aliás, faz meses que venho estudando mapas de mulheres incríveis que abriram caminhos para nós e cujas vidas fizeram a diferença para nossas vidas hoje. Leolinda, Audre Lorde, Maria da Penha, Mary Wollstonecraft, bell hooks, Mary Shelley são algumas delas. No meu retorno das férias, gostaria de iniciar uma série com leituras desses mapas no YouTube.
Encerro essa longa conversa desejando que tenhamos um dia de vitória da democracia e sua manutenção amanhã. Ruim com ela, pior sem ela.
PS:

