Escrevo esse texto ao som de uma serra elétrica derrubando árvores bem saudáveis no jardim do prédio ao lado.

Nenhuma das árvores indo ao chão teve seus galhos quebrados ou arrancados durante o temporal que assolou (e desolou) Porto Alegre na semana passada.
Nenhuma delas está próxima a qualquer tipo de fiação. Elas ficam junto a uma enorme parede de concreto, que é a lateral de outro prédio.
Nos 13 meses em que sou vizinha desse jardim, nunca vi uma alma sequer desfrutar desse lugar. Além dos funcionários da manutenção aparando os arbustos uma vez ao mês, a única vez que vi alguém nele foi quando duas garotas catavam pedras no chão e as usavam num estilingue, numa tentativa de acertar passarinhos.
O que a gente vê por aí quando para e olha ao redor, não é?
Nessa última semana, tem sido estarrecedor e surpreendente ver como moradores de Porto Alegre – e de outros lugares do Brasil, como me contam minhas amigas – declararam guerra às árvores, como se fossem elas as culpadas pelos problemas e pela destruição causadas por nós mesmos.
Eu não consigo entender esse comportamento. Sério. Será que há alguma explicação?
Sempre fui apaixonada por árvores. Desde a infância. Nada turbinava tanto minha imaginação quanto ir para o pátio que tínhamos nos fundos da nossa casa, escalar os troncos de dois frondosos pés de caquis e ficar pendurada em seus galhos por horas, inventando brincadeiras e histórias ainda mais mirabolantes. Hoje, me encantam as formas e texturas de seus troncos, galhos e copas, suas sombras refrescantes, que são verdadeiros oásis nas ruas áridas e escaldantes de concreto.

Além disso, me fascina o modelo de vida colaborativa que elas nos dão, como aprendi lendo o botânico Stefano Mancuso e, essa semana, o livro A Vida Secreta das Árvores, de Peter Wohlleben.
Nessa leitura, aprendi que as árvores prosperam e vivem centenas de anos graças ao modelo de colaboração e cooperação que pauta sua existência. Eu já sabia que elas ajudam umas às outras, mas não sabia, por exemplo, que aquelas que têm mais recursos compartilham com as que têm menos, numa espécie de distribuição de riqueza. É praticamente um socialismo vegetal.
Será esse o motivo do ódio dos cidadãos contra as árvores?
Será essa a causa do anseio ensandecido de derrubá-las? E também das podas capengas e malfeitas, que fragilizam as árvores e facilitam que caiam por aí, causando estragos e levando a culpa?
Serão elas e seu modo de viver uma ameaça ao mundo capitalista neoliberal, onde a ordem é a acumulação e o individualismo exacerbados? Por isso, o melhor é cortar o mal pela raiz? Literalmente?
A essa altura, pauso a escrita por um momento, pois o barulho de troncos e galhos tombando no chão escala. O coração aperta e preciso dar um tempo para me tranquilizar. Tristeza e indignação me consomem.


Fico pensando nas muitas histórias e memórias que foram extintas junto com essas árvores. Em como terá sido sentir toda a sua existência sendo despedaçada, serrada, aniquilada. Pouco a pouco. Uma violência por vez.
Essa visão quebra meu coração e diz muito sobre o pensamento dominante atual. Quando volto ao teclado, outra conexão me vem à cabeça.
Nesse momento em que crescem os ataques às árvores, também testemunhamos um incremento nos casos de feminicídio e de violência contra as mulheres país e mundo afora. Não por acaso, na visão patriarcal, nós, mulheres, sempre fomos associadas à natureza. E, por isso mesmo, nossos corpos e mentes foram mantidas sob rígido controle através da violência, da opressão e da cooptação.
Pensando nessa associação, me dou conta de outra potente semelhança que há entre mulheres e árvores: a força de vida que há na nossa capacidade de formar redes.
“No subterrâneo, ocorre uma troca ativa, segundo a qual quem tem muito cede e quem tem pouco recebe ajuda. E é nesse momento que entram em cena os fungos que, com sua rede extensa, funcionam como uma gigantesca redistribuidora de energia”, explica Peter.
“Ao longo dos séculos, um único fungo pode se estender por muitos quilômetros quadrados e criar uma rede capaz de ligar florestas inteiras. Ele transmite sinais de uma árvore para outra e as ajuda a trocar notícias sobre insetos, secas e outros perigos. Aliás, a ciência já fala da existência de uma wood wide web que permeia as florestas”, conclui.
Os fungos funcionam como uma espécie de cabos de fibra ótica da internet do mundo natural, garantindo uma rápida transmissão de mensagens entre as árvores, ao conectar suas raízes. Graças a essa rede, quando uma árvore está sendo atacada por predadores, todas as demais em seu entorno se comunicam entre si e imediatamente tratam de ajudar a que está sendo agredida.
E não é exatamente isso que fazemos entre nós, mulheres?
Mas o mais interessante (e talvez perigoso para esses cidadãos) vem no que descubro a seguir.
Sabe por que as árvores fazem essa distribuição?
Spoiler: não é espírito altruísta, não. Nem filantropia. Nada disso.
É sabedoria, explica Peter em seu livro.
As árvores intuitivamente sabem que, se estiverem sozinhas, têm muito mais probabilidade de sucumbir aos ataques de seus predadores. E que se uma delas enfraquece, ou fica doente, todas serão prejudicadas. Por isso, as mais fortes e saudáveis, que produzem mais nutrientes, compartilham essas suas riquezas com as mais fracas e doentes, para que toda a comunidade possa prosperar.
“O bem-estar do grupo depende da comunidade, e, quando os membros supostamente fracos desaparecem, os outros também saem perdendo. A floresta fica mais exposta e o sol quente e as tempestades de vento alcançam o solo, interferindo na umidade e na temperatura ideal. Mesmo as árvores fortes adoecem muitas vezes no decorrer da vida. Quando isso acontece, passam a precisar do auxílio das vizinhas mais fracas. Caso as árvores menores já tenham morrido, bastará um inofensivo ataque de insetos para selar o destino de árvores gigantescas”, conta Peter no livro.
Ler isso só me deixa mais inclinada ainda a acreditar que o modelo de existência das árvores é de fato uma ameaça aos preceitos e valores que orientam e governam o mundo atual. Um exemplo a ser combatido. Uma sabedoria a ser extinta.
Sabedoria essa que a mulher ancestral Gaia na minha astrologia mulheril, que representa o planeta Terra, simboliza. É ela que nos dá a consciência de que eu prospero e abundo quando todos ao meu redor também o fazem. E que nos faz compreender que é na colaboração e parceria que a vida prospera.
Desejo que a gente se reconecte com essa sabedoria pra ontem, diante dos rumos que o mundo toma. Não acredito que possamos reverter no curto prazo o estrago já feito. Mas, assim como as árvores, podemos nos unir em redes e nos fortalecer para vivermos em afeto, esperança, em comunhão criativa e alegria. E, juntas, nos mantermos em pé.

PS DA LILA
Minha amiga e colega jornalista Silvia Marcuzzo, ativista e comunicadora ambiental, falou sobre as árvores em sua coluna na plataforma Sler na semana passada. Recomendo demais a leitura desse texto e deixo um trecho dele pra você. Leia a coluna completa aqui!
“… é vital considerarmos que com no calor de ‘Forno Alegre’, as árvores são elementos essenciais para regular o clima. São importantíssimas para a nossa saúde mental. E na hora de buscar um lugar para estacionar, todo mundo procura uma árvore para deixar o carro embaixo. Só que nos últimos tempos, o que temos visto, como eu também já comentei aqui é que parece que os seres humanos estão cada vez mais com desprezo e “raiva” das árvores porque elas “sujam”, caem folhas. Porque as raízes, na visão dessas pessoas, atrapalham… E também porque as árvores representam riscos.”
Essa news encerrou ao som da música Nos Barracos da Cidade, de Gilberto Gil, e comigo cantando seu refrão a plenos pulmões.

Obrigada por sua leitura e por estar junto aqui comigo, na alegria e na tristeza. Que a gente possa se unir em comunidades e viver como as árvores cada vez mais.
