Dizem as más línguas que Perséfone, filha de Deméter e Zeus, foi raptada por Hades, o senhor do submundo, com o consentimento do pai da donzela, numa negociação política.
Veja, você, como usar os outros com moeda de troca é nada novo sob o céu.
Para evitar um possível conflito com o irmão Hades, que já teria ficado boladão com o fato do mano mais novo (e não ele) ter assumido o Olimpo, Zeus achou de bom tom não contrariar o desejo do Big Bro soturno. Dar a filha em troca de vantagens pessoais era uma escolha nada difícil para ele.
Zeus sequer precisou pensar duas vezes nas consequências para concordar. Afinal, dando ruim, quem iria julgar essa sua decisão, se ela fora certa ou errada? Quem era o juiz da coisa toda no céu e na Terra?
Ele, oras!
As leis eram um assunto sob a sua regência para serem usados a seu favor.
Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Seguimos vendo homens com muito poder e dinheiro mandando matar, estuprando e abusando mulheres, violando a Terra de todas as formas sem se preocupar com as consequências que todos os demais vão sofrer e cagando para as leis.
Aliás, isso me lembra o que ouvi um empresário dizer certa vez: os rigores da lei são aplicados aos inimigos. Para os amigos e brothers, apenas a lei. E até ali, como temos acompanhado. Do Oiapoque ao Chuí, o Brasil está cheio de casos mostrando isso: de dono de cursinho ensinando homens a estuprar mulheres já mortas em necrotério a incorporadoras construindo resorts e espigões em locais não permitidos, à revelia da lei. E, o que é pior ainda, sendo aplaudidos por isso.
Assim, o destino da jovem Coré foi selado pelo acordo de cavalheiros entre os dois deuses e ela acabou sequestrada ‘por amor’.

Enquanto tudo isso acontecia, Deméter nada sabia. Ela não só foi excluída das negociações, como foi mantida absolutamente na ignorância sobre o destino de sua filha. Quando Coré desaparece, ela não tem ideia do que possa ter acontecido. Nem mesmo seu desespero foi suficiente para que qualquer outro deus do Olimpo lhe contasse o que sabia – e todos sabiam.
Ninguém queria meter a colher nessa história e ficar mal com Zeus, o traste que fez toda a tramoia. Quem acaba ajudando essa mãe é outra mulher – como sempre, né, gurias?
Quem segura a mão de Deméter nesse momento é uma deusa pré-olimpiana que não fazia parte do clubinho privilegiado de Zeus e estava nem aí pra ele. Hécate, a ancestral deusa das encruzilhadas, conhecida por sua sabedoria e visão, reconheceu e acolheu a dor daquela mãe em luto.
Hécate tem a ideia de visitar Apolo, o filho queridinho de Zeus que é o deus do sol. Do alto de sua posição privilegiada no céu, ele deve ter visto algo, diz Hécate.
Euzinha desconfio que a deusa tenha sido bem estratégica nessa escolha. Ela sabia que Apolo ia dar com a língua nos dentes, sim, graças à arrogância de quem jura que sabe tudo e está sempre certo.
O fato é que não deu outra! Apolo entregou tudo.
– Não se preocupa, Demi. A Coré tá superbem. Ela se casou com o poderoso Hades, o dono do conglomerado todo do Submundo. Ele é riquíssimo e poderosérrimo, colega.
Disse o deus sem noção, absolutamente indiferente ao que a notícia significava e provocava na deusa à frente dele. Sem se importar, ele seguiu, tagarela.
– Fica tranquila, que nada disso aconteceu sem que Zeus soubesse, Demi. Hades foi falar com o pai e pediu a mão de Coré em casamento. Foi tudo dentro dos conformes. O pai Zeus deu sua benção, consentiu e Afrodite ajudou Hades no casamento. Então, fica tranquila, Demi. Eu te garanto que ela tá bem.
Ao final, ele ainda manda a real e termina de entregar tudo.
– Essa foi uma decisão muito sábia de papis. Você sabe, né… é preciso garantir a governabilidade.
Sim, nós sabemos.
Pacote do veneno aprovado, ministérios sendo rifados e usado como moeda de troca, Brasil na OPEP, mulheres sendo usadas como token e depois descartadas, mais um homem branco sendo nomeado ao STF e mostrando que está absolutamente à serviço do mundo corporativo e não dos interesses da população, corpos indígenas sendo oferecidos para o abate de grileiros e invasores de terras ancestrais com a aprovação do marco temporal, ação cada vez mais distante da retórica.
Sim, a gente sabe como é.
O dinheiro e o poder entram, a ética e o discurso voam pela janela.
Eu fico imaginando Deméter ouvindo tudo isso. Aquele pai ausente, que jamais se interessou ou se envolveu na criação e formação da filha, de repente, do nada, entra em cena e decide o futuro dela, usando a jovem como moeda de troca para garantir vantagens pessoais e a manutenção do seu poder e reinado.
É incrível como o tempo passa, o mundo muda, mas nada muda, de fato, não é?
Fico imaginando os sentimentos de traição, raiva, impotência e dor atravessando Deméter e fazendo suas entranhas ferverem. Diz o mito que ela fez a estoica diante de Apolo e não esboçou reação alguma. Mas sua raiva logo se tornaria conhecida por todos.

Indignada com a traição coletiva que sofrera no Olimpo, Deméter abandona e o mundinho fashion olimpiano e suas funções como deusa da agricultura e da fertilidade da terra, e sai vagando pelo mundo, disfarçando-se de andarilha miserável.
Enquanto Deméter vai vivendo diversos encontros e formando uma rede de apoio que culmina na criação dos Mistérios de Elêusis, uma tradição voltada ao conhecimento dos ciclos de vida e morte, Zeus precisa lidar com as consequências catastróficas da sua atitude. A ausência da deusa faz com que os campos percam a vitalidade, tornando-se terra árida, e que as plantações não vinguem e a fome se espalhe mundo afora.
Zeus, então, decide gerenciar a crise ao melhor estilo homem poderoso: mandando outros deuses atrás de Deméter para convencê-la a mudar de ideia. Ele inclusive orienta seus asseclas que apelem ao coração bondoso e generoso da deusa, que vai se compadecer com a fome que mata a humanidade.
Veja, você, como apelar para a clássica chantagem emocional é uma estratégia tão antiga quanto o próprio patriarcado – e que até hoje funciona devido à nossa socialização e como somos ensinadas a colocar sempre em primeiro lugar as necessidades emocionais dos homens.
Mas Deméter de boba tem nada e a missão falha terrivelmente. Irredutível, ela diz que só vai voltar a fertilizar a terra quando se reunir com sua filha novamente. Zeus, então, desce do pedestal e agiliza o reencontro das duas.
Assim que Perséfone pisa na terra, os campos voltam a florescer. O encontro entre mãe e filha é emocionante e elas compartilham as experiências que viverem durante o período dessa separação. Deméter e Hécate, que também participa do reencontro, ouvem a jovem contar que já não é mais Coré, que agora se chama Perséfone, e que, após comer alguns grãos de romã, está grávida e feliz em seu novo mundo.
Com isso, o desfecho conhecido da história é o seguinte: Perséfone fica um período do ano com a mãe no mundo dos mortais; e em outro, ao lado de Hades no submundo. Enquanto está longe da filha, Deméter, a mãe enlutada, lamenta a ausência da filha e, em consequência do seu sofrimento, nada nasce ou cresce na terra.
Com esse mito, o patriarcado cria uma narrativa para explicar as estações do ano e os ciclos da natureza e substituir a anterior, personificada na grande deusa, cujo paradigma era de celebração dos ciclos, com o desfrute da vida e o acolhimento da morte, e que enaltecia a abundância da natureza.
E como ele faz isso, como cria essa nova narrativa?
Atrelando a ideia de escassez à natureza. De que a grande mãe nem sempre provê tudo, não. E que, em função de suas emoções, ela também faz faltar.
Essa mudança não foi coincidência ou acaso, não.
Ela foi bem estratégica.
O medo da escassez passou a ser justificativa para toda e qualquer violência por parte dos donos do poder contra a própria natureza e seus seres, sobre o corpo das mulheres e contra povos cujas terras pudessem ser fonte de exploração de recursos e de riqueza. Até hoje, essa ideia segue justificando atrocidades e falácias, além de muita injustiça e violência, como temos testemunhado no Brasil e mundo afora.
Se queremos mudar essa realidade, precisamos revisar essas histórias e contar outras novas, a partir de um novo paradigma para tecer a estrutura das relações na nossa sociedade. Sem essa mudança, nada muda.
