Até pouco tempo atrás, antes que a consciência feminista existisse e fosse forte entre nós, a voz do patriarcado nos fazia questionar nossas capacidades, duvidar dos nossos pensamentos, do nosso juízo e da nossa potência. E nos dizia que o corpo é traiçoeiro. É vil. E inferior às capacidades cognitivas.
O corpo, nos disseram, é uma ameaça à pureza da alma e deve ser controlado e doutrinado pela potência da mente e a força de vontade do espírito. Não é mera coincidência, portanto, que nessa nossa sociedade patriarcal, o corpo tenha sido associado à mulher – enquanto a mente e o espírito são associados aos homens.
Nunca, jamais, fomos orientadas a olhar e a entender o corpo como algo que contenha sabedoria. Pelo contrário, fomos e ainda somos ensinadas desde muito cedo que o corpo é ‘por natureza’ inferior à mente, que é a nossa parte ‘animal’, e que é a causa dos nossos problemas e de todos os pecados do mundo. Confiar nele e na sua inteligência, na sabedoria que habita nossas entranhas, é praticamente uma heresia.
É dessa ideia que nasce a noção de que o corpo, assim como a mulher, é algo inferior que deve ser tutelado, dominado, educado, doutrinado, e que não se deve confiar jamais no corpo (e, menos ainda, na mulher).
Mas a mente também é corpo, lembra a professora de educação física Carolina Pogliessi.
“Meu corpo sou eu, não está separado de mim, não está à parte. O corpo também é Carolina. Ele é lindo, é inteligente, é potente como eu sou como um todo. Se eu sobrecarregar minha mente, sobrecarrego meu corpo. Se eu ativo meu corpo, também levo saúde para a minha mente. Se eu desfruto da vida, o corpo sente”, conta Carol.
Sábia, Carolina.
Conheci Carol e seu Funcional Flow no final do ano passado e fiquei fascinada com sua proposta de reconexão com o corpo. De trocar o conceito do corpo sarado pelo corpo disponível. De substituir a ideia do corpo perfeito pelo corpo que desfruta a vida. Do exercício não como uma meta do corpo para se encaixar num padrão, mas para desfrutar da nossa existência aqui.
Gosto da narrativa que ela propõe, dessa mudança de olhar tão transgressora e potente, que vai na contramão do que se vê por aí. Ao invés de exercícios fragmentados em séries repetitivas, Carol adota sequências de movimentos, ora fáceis, ora desafiadoras, que vão trabalhando as diferentes partes do corpo num fluxo de movimento que vai conectando uma parte à outra e nos trabalhando como um todo.
O resultado?
Uma reconexão que vai despertando confiança em nós mesmas e no corpo, como muitas alunas relatam. Inclusive, euzinha.

ESPELHO, ESPELHO MEU
Foi na adolescência que eu comecei a me comparar com modelos de beleza e achar defeitos e imperfeições no meu corpo. E passei a fazer loucuras, na tentativa de ficar no padrão que eu desejava. Tomei chá de algas, um líquido viscoso que eu extraia conservando uma alga em água num pote de vidro na geladeira. Usei até ficar verde e seca, e meu pai, indignado com o que se apresentava à sua frente, jogar fora a dita cuja alga.
Uma década depois, já morando sozinha, em Gramado, passei duas semanas inteirinhas ingerindo somente Diet Shake. (Sim, nem me fala!) Perdi peso, mas ganhei um problemão digestivo que me deixou sequelas com as quais convivo até hoje. Depois dessa, abandonei as dietas da moda.
Em torno dos 34 anos, meu metabolismo mudou e emagreci sem que estivesse buscando isso. Talvez tenha acontecido devido às alterações que fiz na alimentação, ao descobrir uma intolerância à lactose, ou ao fato de ter começado as corridas em esteiras e nas ruas. Ou ambos, juntos e reunidos. Sem intenção, perdi peso.
A autocobrança, então, ganhou outro foco: a flacidez. E investi mais e mais na musculação. O que não foi sacrifício ou problema algum, já que sempre curti mexer o corpo. Amo meus momentos de contemplação. Preciso deles, mas não vivo sem movimento. Ele é essencial para mim.
Com a chegada dos 40, vendo a pele mudar, passei a fazer tratamentos para flacidez e celulite nas coxas e bumbum e botox nas marcas de expressão no rosto. Mas, independente da forma física que eu apresentasse, cheinha ou mais magra, mais ou menos isso ou aquilo, meu olhar supercrítico sobre o corpo não mudava e me fazia encontrar imperfeições em qualquer versão.
Eu sempre estava julgando a imagem que via refletida no espelho.
Foi só aos 50 anos, durante a minha revolução de consciência sob o céu pandêmico (falo dela nesse texto no meu blog), que eu comecei a entender as muitas camadas por trás dessa situação aí. Além daquelas bem particulares e individuais minhas, nas quais eu já trabalhava há algum tempo, entendi que muitas outras haviam. E que elas eram (e são) consequência da cultura patriarcal na qual estamos inseridas.
Historicamente, a beleza é um atributo feminino.
Desde cedo, recebemos a mensagem clara de que o nosso valor como mulher está associado à beleza dos nossos corpos, à gentileza dos nossos modos e à nossa capacidade de cuidar. É por isso que somos ensinadas a brincar de boneca, casinha, panelinhas, de miss, princesa, com sapatos, laços e bolsas, e a competir para saber quem é a mais bonita.
Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?
Isso não é por acaso, não, como explica Maria Carol Medeiros, doutora em Comunicação e pesquisadora da socialização feminina e da beleza.
Ela nos conta que a beleza é uma ideia construída e que mudou com o tempo. Se antes ela era considerada inata, que se tem ou não tem, da metade do século passado para cá, o capitalismo fez com que a beleza passasse a ser algo que pode ser adquirido. Ela tornou-se acessível a todas que podem comprá-la, através de cosméticos, maquiagens, procedimentos estéticos e cirúrgicos. O que, pra mim, só faz a autocobrança aumentar.
Deixo aqui a sugestão de dois episódios do Não te empodero, o podcast afiado dessa intelectual, nos quais ela aborda esse tema e a nossa relação com o corpo. São eles o episódio 25, Em crise com o meu corpo; e o episódio 22, Magreza, o corpo perfeito e Paolla Oliveira. Ouça! Eles são maravilhosos e muito elucidativos.
Sei que essa vivência que relato não é comum a todas as mulheres, que ela é fruto do encontro do meu universo subjetivo com o meio em que estou inserida, e que tem o recorte de uma mulher branca, classe média. Minha intenção é usá-lo para dialogar e provocar reflexão sobre algo que parece atravessar todas nós: a opressão sobre o corpo da mulher e a imposição de de padrões de beleza construídos socialmente.
UMA CONSTRUÇÃO
Com a revolução dos 50, deixei o botox. Também já havia abandonado os outros procedimentos estéticos há algum tempo. Nem tanto por opção, como é hoje, mas por falta de recursos para investir neles. A musculação e o funcional também já não faziam mais sentido algum para mim. Só caminhar e dançar me animava.
Então, vencida a etapa de distanciamento da pandemia, fui atrás de aulas de dança por aí. Ao me deparar com tanta performance nelas, acabei me decepcionando. Veja bem: eu amo e acho lindíssimas as danças coreografadas. Mas não era isso que eu buscava naquele momento. Tudo que eu queria era liberdade de movimento, me entregar ao ritmo e me deixar levar.
Assim, segui dançando na sala e voltei para o Yoga com Sabrina no Bhumi. No tapetinho, fui trabalhando camadas e mais camadas internas e sutis do corpo com o Yin Yoga. Numa prosa gostosa com Sa sobre essa minha busca, ela me falou do Flow e sugeriu que eu fizesse uma aula experimental com Carol.
Não deu outra. Assim que iniciei, eu soube que havia encontrado o que eu tanto buscava: uma prática que alia liberdade, consciência, exercícios para a beleza e o bem-estar do corpo (e da mente), sem imposição alguma de performance e com movimentos tão fluidos, que mais parece uma dança para mim. E ainda vinha com o bônus de me integrar a um outro grupo bacana de mulheres.
Com o Flow, fui (e ainda venho) aprendendo que ações centradas no corpo com um novo olhar, mais gentil, amoroso e perceptivo, vão construindo consciência da potência dele – já não mais atrelada à conquista de um ideal de beleza feminina imposto, que vem de fora. Pelo contrário.
Hoje, reconheço a potência do meu corpo do jeitinho que ele já é.
A busca por entender os vieses (alguns já nem tão) inconscientes que nos atravessam coletivamente como classe mulher, junto com a vivência do Flow, vem construindo uma relação mais amorosa comigo e com o corpo, com a minha criatividade e visão de mundo. Venho deixando para trás as nóias e me sinto cada dia mais em paz e à vontade com a imagem que vejo refletida no espelho.
Quando a vida me desequilibra e perco o rumo, lembro das aulas e, com gentileza, respiro fundo e retomo de onde parei. Sem julgamentos. Sem cobranças.
“O corpo é um bom lugar para estar! Um lugar próximo, onde podemos até descansar. Um lugar onde é possível experimentar menos controle, menos rigidez e mais entrega. Um lugar nosso! … Eu desejo que a gente encontre ferramentas para sentir, de novo, a beleza do nosso corpo. O exercício é a ferramenta que tenho hoje. E não porque muda a forma do corpo, seu formato. Mas porque muda nossa forma de olhar para o nosso corpo. Que a gente possa acessar a nossa beleza interna e estar confiantes, na maior parte do tempo”, diz Carolina em um post publicado em seu instagram.
Esse também é o meu desejo, Carol. Que a gente aprenda a sentir e confiar cada vez mais no corpo e em nós e reencontre esse lugar de conforto.
Encerro com um texto lindo da Carol Pogliessi e com a sugestão de que você leia os posts dela no instagram.
“O CORPO DA MULHER
O nosso corpo
o corpo da mulher é ocupado
ocupado pelos outros
pelos julgamentos
pelos nãos
pelo medo
o corpo da mulher é
ocupado por estigmas
ocupado por um sistema que nos oprime e nos violenta
eu desejo, mulher, que a gente volte a ocupar nosso corpo
tome posse do que é nosso
além disso, ainda mais, eu desejo que a gente passe a gostar desse lugar de ocupação
porque ele é maravilhoso
ele é potente,
ele expressa quem a gente é
a nossa história
que a gente possa, mulheres,
ocupar o nosso corpo
esse lugar de origem e criação
esse lugar que nos foi tomado
seguimos chicas, na luta pra amar nosso corpo, essa é uma grande revolução ”(texto originalmente publicado aqui).
