Ele achava astrologia uma bobagem. Nonsense. Mas em um final de semana em Mallorca, na Espanha, no final de 1913, após ler um livro sobre os planetas escrito por um astrólogo famoso à época, que sua impressão mudou. Radicalmente. Ao invés de um mambo-jambo sobre futuro, ele se deparou com um sistema que examinava os atributos psicológicos e arquetípicos atribuído a cada um dos planetas zodiacais. E ficou fascinado!
Desse encontro nasceria a suíte Os Planetas, criada pelo compositor britânico Gustav Holst, entre 1914 e 1916, enquanto leciona numa escola de educação para meninas.
Com sete movimentos, cada um deles expressando os atributos emocionais e características associadas a um astro, o resultado é sensacional! O de Marte, inclusive, serviu de inspiração para a criação do tema de Darth Vader em Star Wars.
A obra é repleta de sons extremamente inovadores, como o do coro feminino, ao final do movimento de Netuno, que fica em uma sala ao lado da orquestra, sem que o público possa vê-lo, entoando sons que vão gradualmente se afastando, como se desaparecessem no espaço. Para executar todos eles, era necessária uma grande orquestra, o que complicou e adiou a apresentação ao público. Afinal, eram tempos austeros em meio à Primeira Guerra Mundial.
Foi ao final da guerra, já em 1918, numa sessão privada para 250 convidados, que Gustav Holst finalmente apresentou, pela primeira vez, sua obra. E, dois anos depois, o público conheceria Os Planetas.
Abaixo, deixo pra você as músicas de cada planeta, em sua ordem original, tal qual Gustav Holst criou – pra ele, uma sequência que respeitava o equilíbrio e a harmonia do sistema solar.
A imagem linda que abre o texto é uma colagem da talentosa Lidy Araújo.
Esse movimento é impactante pra caramba! É quase uma marcha rumo à guerra. Não por acaso, mas sim absoluta sincronicidade, esse movimento foi escrito no eclodir da sangrenta primeira grande guerra. Uma curiosidade: logo que ouvi o movimento de Marte, de cara pensei em Star Wars. E bingo! Não deu outra. O compositor John Williams se inspirou nesse movimento ao criar a música tema do Império. 😉
Depois do conflito, chega Vênus pra reestabelecer a harmonia, com muita flauta doce e harpa – instrumentos associados ao feminino, à graça, à beleza. Temas absolutamente venusianos.
O movimento do mensageiro alado é o mais rápido e mais curto movimento da suíte, ao melhor estilo mercurial.
Eu ADORO esse movimento. Ele me lembra celebração com cor, vida e alegria. Mas o que mais me encanta nesse movimento é a melodia liiinda que faz a seção do meio. Ela me emociona e me enche de fé e esperança, sempre. E, quase sempre, me faz chorar.
Esse é um movimento mais instrospectivo, denso, lento, quase um lamento. Tem momentos que até lembra uma marcha fúnebre – e Saturno é associado com o envelhecer e o fim da vida. Mas a beleza ao seu final é de uma serenidade linda.
Diz que Holst inovou muito nesse movimento, que é inspirado em O Aprendiz de Feiticeiro, composta por Paul Dukas e imortalizada no filme Fantasia da Disney.
Etéreo e celestial como Netuno, esse movimento nos leva ao céu com o coro feminino entoando ‘ums ahs’ que mais parecem sereias nos transportando ao cosmos. E olha que máximo isso: esse coro fica numa sala ao lado da orquestra, sem que o público possa vê-lo. Ao final do movimento, a orquestra para de tocar, e ficam apenas as vozes femininas. Holst fez isso pra que a porta fosse sendo fechada pouco a pouco, criando, assim, um efeito de fade out ao final até então inédito, e que nos faz sentir como se as vozes estivessem se afastando e desaparecendo no espaço. Sensacional!
