Hoje, vou contar uma história aqui.
Antigamente, se acreditava que havia hierarquias na Terra e no cosmos. E que o céu mandava na Terra.
Algo que as religiões e a própria astrologia perpetuaram por séculos – o que se deu através da hierarquia dos planetas, como conto em Reviravolta no Céu – uma revisão feminista da astrologia.
Tudo ia revoltantemente bem para os poderosos até que as pessoas na Terra começaram a entender que todos eram seres humanos iguais, sujeitos à atuação das mesmas forças, como a da lei da gravidade. Com essa compreensão eclode uma grande e reviravolta de paradigmas e, com elas, as revoluções pra acabar com as monarquias.
É nessa época, quando a consciência humana passa a romper com a ideia de uma hierarquia absolutista, que se descobre Urano, o planeta símbolo da revolução, do quebrar paradigmas, da mudança, da liberdade. E que, na astrologia, bagunçou a ordem (que Saturno tanto simbolizava) e iniciou uma mudança.
Cerca de um século depois, quando a arrogância de uma ciência mecanicista capaz de construir monstruosidades teóricas e tecnológicas (outra face do simbolismo de Urano) começa a se achar maior que o mistério da vida na Terra e do que o próprio cosmos, eis que se descobre Netuno no céu.
Planeta esse que vai simbolizar o próprio mistério, o transcendente, o sagrado. E que é descoberto quando começamos a dissolver muros e limitações impostos pela hierarquia e pela ordem patriarcal e passamos a questioná-las também no sagrado. Netuno simboliza a consciência coletiva que despertou pro fato de que pro universo, não existe topo de cadeia. De que são as relações que tornaram possível a vida por aqui.
Da compreensão que são relações nada hierárquicas que tecem e sustentam a vida na Terra surge o famoso “somos todos um”. Não há diferenças pra vida entre um ser humano e uma formiga, entre um asiático e um europeu. Cada um com seu cada qual tem seu papel nessa grande teia que todos tecemos e que é a vida.
Mas, ao invés de acabar com as hierarquias projetada no transcendente, não é que outras novas foram criadas e disseminadas?
Inspiradas por um narcisismo espiritual, outra faceta nossa que Netuno simboliza, se criaram crenças que reforçaram ainda mais a ideia de seres superiores e outros inferiores na espiritualidade e também na ciência, com seu racismo científico.
Todas essas faces de Netuno, que também simboliza a fantasia e a ilusão que habitam a natureza humana, mostram como podemos nos enganar e nos confundir, o que a neblina e a bruma que caracterizam seu simbolismo também mostram. Ao invés de nos libertar com essa nova consciência de que não precisamos de intermediários pra vivenciar o sagrado, dando voz ao que fascina e encanta a alma, o mistério que nos habita e empodera, criamos novas hierarquias para o mundano e o sagrado/espiritual.
Mas como a evolução não é uma força que se possa represar no universo, eis que nossa consciência e curiosidade faz com que a física, mais uma vez, traga a compreensão que mais uma vez transformaria tudo ao fazer ruir a ideia de um universo estático e ordenado hierarquicamente. O universo não só não é estático, como nada previsível.
Somos uma esfera em movimento, numa galáxia em movimento, num universo que se move numa direção (dizem), num mesmo ritmo constante. Isso faz com que o cosmos tenha um modus operandi ordenado, sim! Mas o que se desdobra a partir dele, não! Porque depende do contexto e das condições do momento. E, por isso, não pode ser antecipado, previsto.
Essa descoberta romperia de vez com muitas ideias que colonizaram as consciências humanas por séculos, por milênios. Entre elas, a de que as hierarquias e a concentração de poder são saudáveis e naturais. E assim, eclode a grande reviravolta no cosmos, no céu e na Terra.
As vivências nossas na Terra abriam espaço na consciência pra avançar no processo de libertação da colonização milenar que fizeram em nós de que o mundo se constitui de hierarquias e certezas. Foi o maior plot twist na Terra!
É nesse momento em que a consciência humana vive essa transformação de paradigma e de entendimento de mundo bombástica que se descobre Plutão, planeta que simboliza o poder, o que não se controla, as transformações catárticas, a força visceral e instintiva que sustenta a vida que requer morte e perda para que um novo nasça e, assim, perpetue o movimento e a vida.
A própria órbita de Plutão, tão errática e nada previsível como as demais, já indicava simbolicamente que o se vivia na Terra era diferente de tudo que se conhecia até então.
As elites dominantes, incomodadas com a possibilidade de perder o controle das massas, tratam de contra-atacar, a fim de não perder o poder. E assim, a primeira manifestação de Plutão que se vive coletivamente é a do controle das massas pela sede de poder e manutenção de privilégios, com direito a guerra, fascismo, nazismo, bomba atômica e o engodo do neoliberalismo, com seu discurso que promove a manutenção do poder nas mãos de poucos.
Mas a consciência humana já havia sido tocada pela nova ideia da Física e seu novo entendimento do universo. E se rebela mais uma vez. Assim eclodem os movimentos sociais nas décadas de 1950, 60 e 70, como conto no livro. E, com eles, a luta pela libertação das ideias que estruturaram a civilização ocidental e colonizaram nossas mentes e corações.
De lá pra cá, nunca mais paramos de rEvolucionar, apesar dos contra-ataques das elites, que tentam conservar a qualquer custo a antiga ordem hierárquica que lhe dá privilégios a partir do poder e do controle sobre as pessoas. E haja fake News, mentiras e discurso de ódio pra perpetuar isso.
Mas, como disse antes, a evolução não é uma força que se possa represar no universo. Eis que hoje surgem vozes nas mais diversas áreas questionando essa ideia de forças e pessoas superiores e inferiores. De que o mistério, o sagrado, é algo externo a nós quando, na verdade, ele nos habita. De que os astros é que definem os rumos nossos e da vida por aqui, quando, na verdade, o que eles representam são os anseios psíquicos (individuais e coletivos) e impulsos que nos habitam e nos fazem mover na vida. E por isso, porque eles só têm significado pra nós quando a consciência já dá conta deles, já compreende o que eles simbolizam, é que primeiro vieram as mudanças na nossa realidade (no campo da materialidade) e depois a descoberta dos planetas.
Somos nós, a partir das vivências do corpo, da materialidade, que atribuímos significado ao que nos cerca e com aquilo que nos relacionamos. E é essa mudança de perspectiva e paradigma que nos fará mudar nossa forma de ser, estar e de nos relacionarmos (entre nós e com as demais espécies e seres).
Essa é a grande reviravolta que narro em Reviravolta no Céu – uma revisão feminista da astrologia e que nos faz reintegrar o sagrado ao corpo e à Terra e entender o papel dos astros como forças que já nos habitam e não como entidades externas que determinam a vida por aqui. E essa é uma compreensão muda tudo, tudo, tudo, nos devolvendo a autonomia que nos foi tolhida e retirada por milênios: a de de ser e viver plenamente com alegria o que (já) somos.
Qualquer relação, pessoal ou social, romântica ou no trabalho, nas amizades ou nas escola, nos grupos ou em qualquer instituição, em que haja hierarquia, vai existir concentração de poder. E, com isso, alguma forma de abuso. Da violência doméstica aos inúmeros casos de abuso psicológico, sexual, patrimonial, médico, religioso, todos se tratam de demonstração de poder. De obrigar alguém a fazer algo contra a sua vontade, porque alguém tem mais poder.
Acredito que mudar isso passa pela percepção dessa nova maneira de entender o universo e o nosso papel nele. E essa é uma construção que nos cabe fazer individual e coletivamente, com várias mentes e corações juntos, pensando e imaginando essa nova forma de ser, estar e se relacionar com o mundo e entre nós.
Imagem: Hari Nandakumar/Unsplash
