Diz uma amiga minha que, depois que a gente vê alguma coisa, a gente não consegue mais ‘desver’. Concordo com ela. Fica printado na mente e na alma.
Da mesma forma, depois que passei a olhar pro mundo com as lentes do feminismo e da nova cosmologia, e fui reconhecendo essas construções, não consigo mais desvê-las. E usá-las menos ainda.
Simplesmente, não consigo mais usar ferramentas ou conceitos que ajudem a perpetuar no inconsciente, no nosso imaginário, valores de um sistema que considera as mulheres (e tantos outros seres) capachos de homens brancos e seres menos inteligentes e criativos, menos dignos de direitos, menos humanos.
Meu novo livro, Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia, é sobre isso, sabe?
Sobre o que a gente vê/vive e não desvê/desvive e nos transforma. Algumas vezes, de maneira épica.
Exemplo disso é um conceito da astrologia chamado de debilidade e dignidade dos signos, que mostra em que signos do zodíaco os planetas ficam bem ou mal na foto (ou, em astrologuês, domiciliado, dignificado, em queda, em exílio).
Desde que encontrei o feminismo, essa construção passou a me incomodar muito. MUITO. Ainda mais sabendo que ela foi feita por um pensador mergulhado nos valores patriarcais e da antiga cosmologia, aquela que acreditava que era tudo estático no Cosmos.
As associações que ele fez (e que, sim, tem uma explicação lógica na visão de mundo dele, superinfluenciada pelos papéis sociais patriarcais estebelecidos à época) são o puro suco do patriarcado pra mim.
Peguemos Marte, o planeta que simboliza a assertividade, a energia, a virilidade, a libido, a guerra, o macho.
Sabe em que signos ele fica superduper bem na foto?
Em Áries, que é relacionado à iniciativa, ao jorro da virilidade e da juventude, à agressividade, à cabeça-quente. E em Escorpião, signo do instinto, do controle e do poder e do sexo.
Onde Marte fica bem? Em Capricórnio, signo da autoridade, do comando, do governante e dos louros do sucesso.
E onde ele fica bem mal na foto? Em Câncer, o signo do cuidar, do maternar, do nutrir, do lar, do sentimentos. E em Libra e Touro, signos da beleza e da arte da paciência, do cuidado para preservar, da harmonia e dos relacionamentos.
Tudo coisa de mulherzinha, eca! Coisas nada a ver com virilidade do macho e que lhe tiram a potência, oras!
Isso não lembra discursos reds e pills que temos visto por aí? Pois é…
Da mesma forma, Vênus, que teve seus atributos reduzidos pelo patriarcado à beleza, sedução, desejos tolos e amor romântico, a ser objeto sexual, boy toy, estava associada ao que era essencia às concubinas e prostitutas, mas nem tanto assim a uma futura esposa e mãe, uma mulher “decente”.
No simbolismo astrológico, os atributos associados ao planeta Vênus se relacionam ao papel social da mulher não só de dar prazer aos homens, mas de manter “intocadas” as futuras esposas e mães – afinal, o patriarca precisava ter certeza de que o filho que herdaria suas terras e posses era legítimo, que perpetuaria seu sangue, seu nome e seu capital. E eis o propósito do tabu da virgindade.
Quando a esposa fosse infértil, às concubinas também cabia o papel de gerar filhos para o patriarca. Por essa razão, e por estarem sob a proteção de um homem, as concubinas tinham um status superior ao das prostitutas na sociedade, o que a Bíblia bem retrata.
Não por acaso, esse planeta está em casa em Touro e Libra, aqueles em que Marte fica mal, e que são associados a beleza, arte, paciência, carinho, harmonia e relacionamentos.
Onde Vênus fica enfraquecida? Em Áries e Escorpião, ambos regidos por Marte, o machão, e que são da natureza do masculino, oras! Afinal, iniciativa, assertividade, impulsividade e cabeça-quente não é coisa de mulher.
Aliás, não cabe à mulher tomar a iniciativa. Nunca. Jamais. Pra nada. No sexo e na sexualidade, então, nem pensar! O desejo sexual, o orgasmo, o êxtase, o controle e os jogos de poder e manipulação emocional de Escorpião são proibidos à mulher. Isso só está liberado para o homem. Para elas, é um tabu.
E se o assunto é inteligência, também não combina com a mulher. Nem com Vênus, portanto Quer ver só? Sabe em que signo Vênus fica emudecida e perde seu poder?
Em Virgem, signo associado ao discernimento, ao pragmatismo e ao pensamento crítico, qualidades que não cabem de forma alguma à mulher no patriarcado. Afinal, à prostituta (Vênus) cabia ser sedutora, vaidosa, bela e servir sexualmente ao homem, e não deter conhecimento e educação. Menos ainda pensar criticamente.
Para o patriarca, mulher tinha que entrar muda, sair calada e não pensar coisa alguma no meio desse processo. E as nem tão belas assim, que não serviam nem pra esposa, nem pra concubina?
Para elas cabiam outros papéis, como o de serviçal da casa, parteira, lavadeira e outras atividades conectadas ao universo doméstico e ao servir produtivo. Todos esses atributos associados ao signo de Virgem.
Por fim, sabe em que signo em que Vênus ganha superpoderes?
Naquele que se opõe à racionalidade e à cultura da violência, naquele associado ao romantismo excessivo que beira à fantasia, ao sonho, à compaixão, à insanidade, à loucura. O oposto da racionalidade. Que signo é esse? Peixes, a antítese da lógica.
Sem esse viés machista, Vênus simboliza as relações que vamos tecendo com pessoas, assuntos, coisas, temas que nos fascinam, que nos encantam, que nos atraem porque mobilizam a alma! O planeta e símblo da força da alma que nos atrai e faz escolher auquilo que lhe nutre e retroalimenta com significado, prazer, alegria, amor. Quanta diferença, né!
É por isso (e mais algumas coisas que explico no livro Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia) que o conceito astrológico que mostra em que signos do zodíaco os planetas ficam bem ou mal na foto (ou, em astrologuês, domiciliado, dignificado, em queda, em exílio) me incomoda tanto. MUITO. Porque coloca os planetas em caixinhas e reduz a potência e o simbolismo deles. E são o puro suco do patriarcado!
