Foi lá no início de 2019, que eu tive a ideia de criar a personagem Dona Astrô e um universo fictício pra ela para falar de astrologia e do comportamento nosso de cada dia usando contação de histórias. Assim nasceu meu #astrostorytelling, que esmoreceu meses depois, com as mudanças que começaram a me atravessar e se intensificaram no período da pandemia.
Durante a escrita de Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia no ano passado, voltei a pensar nessa personagem quando uma pergunta despontou na minha mente: e se Dona Astrô começasse a ler teóricas feministas e se desse conta do quanto o modelo conceitual da astrologia reproduz e se sustenta em ideias machistas, misóginas? O que ela faria? Mudaria alguma coisa ou não?
Foi assim que a personagem Dona Astrô se tornou Feminista e passei a publicar orientações astrológicas feitas por ela e com essa pegada no instagram.
Depois de meses escrevendo Dona Astrô Feminista por lá, eis que a proposta pareceu perder o sentido e eu fiquei sem compreender a razão. Porém, nos dias que antecederam o eclipse na semana passada, tudo ficou bem claro: era tempo de ampliar repertório e viver nova mudança na narrativa astrológica e no meu astrologar.
Seguindo a intuição, procurei a Ana Paula Malagueta da @devishala, que sabe muito sobre deusas de diferentes panteões mitológicos, e agendei uma aula com ela. A ideia é criar conexões entre deusas e planetas astrológicos com embasamento arquetípico. Pra onde esse encontro com as deusas vai me conduzir eu não faço a menor ideia. Mas estou muito curiosa pra saber!
Pra me ajudar nesse processo, recorri ao universo que eu havia criado lá em 2019 e ao meu astrostorytelling, e reescrevi o post no qual contava como Dona Astrô se tornou Feminista – que compartilho abaixo com você!
Enquanto esse processo vai tomando forma dentro de mim, junto com a nova voz de Dona Astrô, farei uma pausa nas orientaçõs diárias dela no instagram. Espero voltar em breve.
DONA ASTRÔ EM TRANSFORMAÇÃO FEMINISTA
A Cloud é um lugar nos rincões do universo que opera como uma grande central de dados da Terra.
É lá que fica A Grande Memória da Terra e os Serviços de Inteligência que acumulam todo o conhecimento, saber e evolução das inteligências das espécies e seres que habitam o planeta #3 da Via Láctea.
Cada Serviço tem uma linguagem e um método todo seu. E um gestor que se reporta diretamente à dupla Universo/Evolução, os responsáveis pela criação e expansão de tudo que existe e é.
Nossa história começa quando Dona Astrô, a icônica diretora do Serviço de Inteligência Astrológica, a SIA, se depara com um livro esquecido por seu assistente pessoal, um pinguim cósmico chamado Pen, sobre sua mesa.
O livro era de uma Sapiens chamada Ivone Gebara, que a namorada de Pen, uma gata bibliotecária do setor de Pensamento Ocidental da Cloud, havia esquecido com o namorado.
Intrigada com o curioso título, Teologia Feminista, Dona Astrô mergulhou na leitura dele. E a partir daí, não parou mais.
A cada dia, lá estava ela, com um livro novo em mãos, bebericando seu drink vino galáctico e devorando páginas e mais páginas de ideias e teorias criadas por Sapiens fêmeas na Terra, também conhecidas como mulheres.
Sentada sobre a mesa com as pernas cruzadas ou na sua poltrona cor de brilho de estrela, a cada rotação a Terra, ela lia uma Sapiens diferente… Rita, Simone, Silvia, Monique, Lélia, Carole, Audre, Débora, Vandana, bell, Françoise, Rebecca, Marília… Foram muitas!
Assim se passaram várias rotações da Terra, até que, num retorno de Vênus, ao acabar mais um livro de uma Sapiens chamada Gerda Lerner, Dona Astrô saltou da cadeira e se pôs a caminhar agitada, de um lado para o outro, num vaivém frenético, que só fazia brilhar e agitar ainda mais as micro estrelas que desenham constelações nada estáticas sobre seu macacão escuro como o espaço.
– Não é possível isso, Pen – bradou diante do seu assistente pessoal, que já vinha testemunhando os bufos e a indignação crescente da chefa a cada nova leitura, assim como a mudança na cor das tatuagens em formato de raio que Dona Astrô traz em ambos os pulsos.
Reza a lenda que as cores dessas tatuagens indicam não só o humor da diretora da SIA, mas também o espírito do mundo na Terra.
Amarelo sinaliza tempos de percepção, criação e imaginação. Vermelho, por sua vez, é rEvolução. Disrupção. Transformação intensa e profunda. Já laranja, indica que vem mudança aí!
Não foi surpresa alguma para Pen ver que tais raios brilhavam num tom carmim a la Ziggy Stardust de David Bowie, o músico Sapiens por quem Dona Astrô tem um crush.
– Olha só o absurdo que fizeram com o saber astrológico na Terra! – bradou ela – E não só com ele, pelo que constatei nessas obras! Isso não pode ficar assim!
Foi nesse dia que Dona Astrô iniciou um movimento inédito no Cosmos e na Cloud: começou a fazer encontros pós expediente num pub galáctico com diretoras de outros serviços de inteligência, como o das Tradições Orais, o das Lendas e o da História das Mulheres, que fora criado não fazia muito tempo.
Tornou-se corriqueiro encontrá-las em conversas animadas por lá.
Logo, o grupo foi crescendo e, sem demora, estavam participando integrantes de outros setores de conhecimento, como do Saber Simbólico e Mitológico, dos Saberes Originários, da Inteligência Cosmológico, do Pensamento Ocidental, dos Dogmas e Religiões, das Leis, da Educação e até uma subversiva da Ciência, que ia disfarçada para evitar represálias dos colegas.
Assim, nascia uma troca de informações entre saberes e inteligências que atualizava a todas sobre os últimos avanços dos Sapiens na Terra. Sempre regado com muita alegria, risada, indignação, generosidade, vino e cevada galácticas. Todos na Cloud sentiam e sabiam que algo novo nascia ali…
Foi após mais um desses encontros que Dona Astrô surpreendeu Pen. Ao chegar na SAI, seu assistente pessoal encontrou a chefa debruçada sobre seu CosmicPad, digitando furiosamente nos teclados.
– Escrever é subversivo. É transformador, Pen – disse ela, sem sequer erguer a cabeça, antes de calar e mergulhar na escrita outra vez.
Assim foi sua rotina durante várias rotações da Terra. Dali, ela saia apenas para conversar encontrar as amigas e colegas no pub cósmico.
Numa tarde de conjunção de Urano e Plutão, Dona Astrô finalizou e achou que era hora de levar as ideias revolucionárias do grupo, sobre as quais vinha escrevendo, ao coração do Universo. Levantou-se e foi conversar com a Evolução.
Não muito tempo depois disso, as mudanças começaram a acontecer, no discurso e na prática de muitos setores. Mulheres começaram a ser nomeadas diretoras dos Serviços de Inteligência e dos Saberes. A integrante do setor de Ciência que ia escondida aos encontros não só foi promovida, mas também não precisou mais se camuflar para participar dos encontros.
No serviço sob seu comando, a partir dessa nova percepção de mundo que encontrara nas leituras de pensadoras, teóricas e escritoras Sapiens feministas, Dona Astrô começou a implementar mudanças.
Trabalhando em uma parceria com colegas do Serviço de Simbologia e Mitologia, as deusas de diversos reinos da Terra foram convocadas, a fim de criar uma nova narrativa para a astrologia. Uma que fosse nada hierárquica, misógina, tóxica, colonial e machista. E que fosse sagrada no sentido de contemplar relações mais éticas, saudáveis, empáticas, afetivas e plurais.
Com elas, Dona Astrô passou a tecer novas histórias, utilizando a linguagem que o universo dialoga com as Sapiens na Terra. Suas narrativas logo se espalharam na Cloud, no Cosmos e nas consciências e corações de Sapiens antenadas com o espírito do mundo na Terra. E a revolução começou a acontecer também no pequeno e belo planeta azul da Via Láctea.
