Enquanto escrevia Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia, várias vezes me perguntei quem era eu para questionar conceitos astrológicos e propor a inserção da Terra no panteão dos planetas na astrologia. Quem era eu pra pensar diferente?
Foi lendo mulheres como a historiadora Gerda Lerner e a ensaísta Rebecca Solnit, e conversando e escutando relatos de outras mulheres nos encontros do Clube de Teoria Feminista Ontem e Hoje, que entendi o quanto isso ainda é resultado da voz do patriarcado dentro das nossas cabeças. Essa voz que faz com que questionemos nossas capacidades (a intelectual e a criativa, principalmente), e duvidemos dos nossos pensamentos, do nosso juízo e da nossa potência, mesmo que tudo mostre o contrário.
Não sei você, mas eu já senti isso me atravessar diversas vezes.
Ainda que não seja exclusividade nossa essa sensação irreal que nos leva a duvidar e questionar a nossa própria capacidade, ela é muito mais frequente e tem maior incidência em nós/mulheres.
Para as psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes, autoras do artigo The Impostor Phenomenon in High Achieving Women: Dynamics and Therapeutic Intervention (O fenômeno do Impostor em mulheres bem sucedidas: dinâmicas e intervenções terapêuticas), no qual o termo aparece pela primeira vez, a internalização de estereótipos de gênero é um dos agentes por trás dessa falsa percepção que é a síndrome da impostora.
É sempre impressionante observar o quanto o nosso universo interior, a nossa percepção sobre nós mesmas, foi e ainda é impactada pelo patriarcado. Foram cerca de seis mil anos de repetição contínua em nossas mentes de que nós/mulheres somos inferiores, não tão inteligentes, não tão capazes, não geniais, não humanas. E que nosso valor está apenas na beleza dos nossos corpos e cabelos e na nossa servilidade.
Pensando nisso, me pergunto se a síndrome da impostora não poderia ser comparado a uma espécie de gaslighting milenar do patriarcado que acabou internalizado em nós. Se pensarmos que são quase seis mil anos de doutrinação por parte de instituições religiosas, filosóficas, educacionais, jurídicas, políticas, culturais e sociais, postulando que somos seres inferiores e incapazes intelectual, moral e criativamente, faz algum sentido.

A noção de que somos igualmente humanas e tão dotadas de competências, inteligência, genialidade, capacidade e capital intelectual e criativo quanto qualquer homem na face da Terra é recente pra caramba na nossa consciência. E foi preciso 1200 anos para construí-la.
Quem mostra magistralmente isso é a historiadora Gerda Lerner no livro A Criação da Consciência Feminista.
Nessa obra, ela revela como nós/mulheres tivemos que provar a nós mesmas que éramos capazes de pensar, escrever, falar sobre nossas condições, sobre a vida, o mundo e o que nos interessasse. Aliás, é de rasgar o coração e ferver o sangue e a cabeça ver que mulheres brilhantes pediam desculpas, nos prefácios de seus livros, tão somente por pensar e escrever suas ideias.
Essa autorização a si mesma nas nossas mentes e corações foi uma construção lenta e silenciosa, já que foi muito combatida e reprimida pelos poderosos à frente desse sistema criado por homens, para homens e pelos homens.
Entre as razões que fizeram esse processo ser tão demorado está o isolamento das mulheres e a impossibilidade de trocas entre elas, o que acabava impedindo que o trabalho das que vieram antes chegasse às gerações posteriores. Aliás, eis por que a formação de salões de mulheres no século 18 foi tão crucial no processo de transformação da nossa consciência.
Isso me faz pensar na Caça às Bruxas e suas inquisições.
Sabendo que a feitiçaria era uma prática comum e usada pelos poderosos da época, não é difícil unir os pontos e entender que a mobilização de mulheres, o que desafiava a ordem vigente, é o que de fato foi cruelmente perseguido e combatido à época. E não é assim até hoje? A Casa Mulheres Mirabal, que acolhe e abriga mulheres em situação de violência em Porto Alegre, que o diga.
CAÇA ÀS BRUXAS
No curso Caça às Bruxas: Misoginia e Inquisição, que teve sua segunda edição em outubro do ano passado, a historiadora Suzana Veiga mostra como a Idade Média se caracterizou pela articulação das mulheres em espaços coletivos, tais como as guildas, nas áreas urbanas. E que elas também se reuniam em tavernas para beber e provavelmente conversar sobre suas vidas.
Nessa época, as mulheres ocupavam postos de parteiras, médicas, curandeiras, e tiveram acesso a ocupações que posteriormente seriam consideradas masculinas, tais como ferreiras, açougueiras, padeiras, chapeleiras, cervejeiras, entre outras, como conta Silvia Federici em O Calibã e a Bruxa.
Aliás, vem do ofício das cervejeiras a associação das bruxas com vassouras. Para sinalizar que a cerveja estava pronta, elas deixavam vassouras encostadas junto à porta, do lado de fora de suas casas.
“A disseminação da crença na bruxaria se organiza e institucionaliza num período de profunda instabilidade e rebelião, mudança de regimes políticos, transformações sociais e religiosas, fomes e pestes”, diz Suzana.
“Segundo Brian Levack não foi coincidência que as primeiras descrições do sabá tenham surgido numa época em que a Europa experimentava uma onda de rebeliões sociais na segunda metade do século XIV”, pontua minha amiga historiadora.
Nesse período, também começavam a pipocar na Europa, movimentos que pediam reformas na Igreja. Foi assim que mulheres e homens que ousavam questionar a ordem vigente passaram a ser perseguidos, caçados, queimados. Eles, como hereges. Elas, como bruxas. Como sempre, o poder estabelecido cria uma grande cortina de fumaça para desmobilizar pessoas e desviar a atenção do que de fato interessa.
Para acabar com a perigosa mobilização das mulheres, são construídas narrativas teológicas, jurídicas, literárias, médico-científicas e imagéticas da mulher como uma figura desprezível, cheia de veneno, perigosa por sua maldade natural. E fácil de ser aliciada pelo capeta, devido a sua fraqueza de espírito e intenso desejo sexual.
Essa construção vai tecendo no imaginário a figura da bruxa como uma mulher velha, desgrenhada, maldosa, perigosa e insaciável sexualmente. Mas as jovens também não escapam.
“A juventude, beleza e sensualidade das mulheres também a condenavam, pois desvia o homem de sua vocação militar e intelectual”, conta Suzana. “E contribui para a criação da ideia da bruxa jovem e bela que seduz com poções e feitiços de amor, beleza e juventude”
Essas narrativas vão incitando e escalando o discurso de ódio às mulheres nas classes populares, especialmente através dos panfletos, o Whats da época, fazendo com que as mulheres sejam vistas como as culpadas por todos os males que aconteciam no mundo ao seu redor. E acabem perseguidas e mortas, muitas vezes pela própria população enraivecida, que decide fazer justiça com as próprias mãos, antes mesmo da Inquisição.

Veja, você, como também essa estratégia para manipular opiniões e emoções é antiga e segue sendo bastante usada pelos donos do poder, acabando em banho de sangue quase sempre.
Foi o que aconteceu. Um verdadeiro massacre que ocorreu não só na Europa, mas também nas colônias aqui nas Américas, inclusive no Brasil.
Rasga meu coração saber que a média de idade da maioria das condenadas à fogueira na França, Inglaterra e Suíça (que queimou muitas mulheres) era 60 anos. E que 57% das vítimas da Inquisição foram mulheres pobres e do meio rural – onde havia mais alegação de feitiçaria. Exatamente onde o sincretismo religioso era forte e ainda se mantinham vivas as tradições de cultos a deusas pagãs, que eram realizados nas florestas.
Nada é por acaso, mesmo.
Inclusive, é fácil concluir que o motivo pelo qual nós/mulheres estamos, mais uma vez, tão sob ataque hoje é o usual: a ameça que representamos ao poder vigente sempre que estamos organizadas e mobilizadas pelo afeto e pelo pensamento crítico e estratégico.
Nossa força fica como a das águas: ninguém detém.
COMO AS ÁGUAS
Como contei em Reviravolta no Céu, desde o início dos encontros do Clube com Suzana e as colegas, em janeiro de 2022, observei uma mudança sutil e significativa.
A cada nova conversa, escuta atenta, troca e reflexão com essas mulheres, fui percebendo que a voz da impostora ia ressoando cada vez menos dentro de mim e o que crescia era a minha voz mais autêntica. Nessa roda de mulheres incríveis, fui sendo acolhida e me curando.
É isso que as rodas de mulheres fazem.
E, por isso, elas são tão temidas e o nosso isolamento é sempre celebrado.
“É na potência dos encontros, com pequenas ações e muita prosa em nossos grupos e comunidades, dia após dia, que vamos tecendo coletivamente as mudanças em nós, nas nossas comunidades e ao nosso redor, nas mais diversas áreas. Assim vamos construindo a transformação que desejamos ver no mundo”, escrevi no capítulo final de Reviravolta no Céu.
Acredito nisso, na potência dos encontros para transformar a nós mesmas mundo adentro e a realidades aqui fora.
Tem sido transformador pra caramba estar nessas rodas e dialogar sobre as mentiras que nos venderam como verdades históricas e cósmicas – e que nos mantiveram sem consciência da nossa real potência e capacidade até pouco tempo atrás. Entender as raízes e motivos da nossa opressão coletiva nos dá a possibilidade de mudar, imaginar e contruir juntas novas realidades.

UM FILME, UMA RODA
Falando em bruxas e rodas de mulheres, sou apaixonada pelo filme Da Magia à Sedução. Estrelado por Sandra Bullock e Nicole Kidman e tendo as maravilhosas Dianne Wiest e Stockard Channing no elenco, ele conta a história de duas irmãs de uma família de bruxas. Uma das cenas mais incríveis do filme é a que mostra o imenso poder de uma roda de mulheres! Elas se unem para ajudar uma das irmãs que enfrenta as consequências nefastas de um relacionamento tóxico e abusivo. A cena me faz pensar no quanto a união de mulheres e os laços que se formam entre nós são forças incríveis para aniquilar o que oprime e aprisiona nossos corpos e espíritos. E, também, para mudar e transformar realidades.
(sugestão: leia escutando essa música de Stevie Nicks que está na trilha do filme)

FEITIÇARIA X BRUXARIA
As práticas mágicas não eram condenadas nos tempos de inquisição. Inclusive, reis e poderosos da época usavam esses serviços. O problema todo era quem estava autorizada a executas tais práticas: apenas homens e, claro, escolhidos pelas instituições religiosas.
Como conta Suzana, as doenças do corpo eram tratadas por médicos. Castigos divinos, pela igreja. E doenças consideradas diabólicas eram tratadas por agentes mágicos. Geralmente, feiticeiros.
O feiticeiro estudava para se tornar agente mágico e ser responsável por fórmulas, ritos e poções para inclinar vontades. Diferentemente da bruxa, que sabia manipular a magia por já nascer da semente do mal ou fazer rituais mágicos orientada pelo demônio e, assim, embruxar pessoas.
PS da LILA
Esse texto foi escrito e enviado na minha newsletter no ano passado, após as aulas do curso Caça à Bruxas: Misoginia e Inquisição da maravilhosa historiadora Suzana Veiga. Considerei oportuno trazê-lo aqui para o blog em função das reflexões em torno da data de hoje e da própria existência do 8M.
