Se você me acompanha aqui, sabe que o feminismo impactou profundamente a minha prosa e forma de astrologar e fazer a leitura de mapa astral. E que toda essa mudança não foi feita do dia pra noite e nem rolou de repente, não! Foi um processo que teve várias etapas, como conto no meu novo livro, Reviravolta no Céu, e é fruto de muitos encontros, diálogos, mentorias, leituras, pesquisas e, claro, conversas com mulheres sensacionais.
Nesse processo todo, não só o feminismo instigou penso e mudança. Muitos outros saberes, em especial a nova cosmologia, também me impactaram profundamente.
A descoberta de um universo repleto de explosões e colisões dramáticas, que é tão caótico e imprevisível quanto a vida na Terra, e onde estrelas morrem e nascem, impactou a nossa consciência como um tsunami, provocando a maior mudança de paradigma até aqui. Uma ainda maior do que as causadas pelas descobertas de Copérnico e Newton!
Ainda que tenham tirado a Terra do centro do universo e declarado que somos todos iguais perante a força da gravidade, nem mesmo essa dupla havia questionado a ideia de ordem, estabilidade e previsibilidade do universo sacramentada por Aristóteles na Antiguidade.
Foi só no século 20 que a compreensão de que vivemos em um universo em constante expansão, misterioso, imprevisível e nada ordenado e hierarquizado, como se acreditava, sacudiu a ciência e muitas das suas (e das nossas) certezas até aqui. Com isso, a ideia de um cosmos ordenado e hierarquizado esfacelou-se. Ruiu. Rachou. Quebrou. E isso mudou tudo na nossa imaginação e na realidade!
Essa nova ideia provocou mudanças, abriu espaço para que muitas outras certezas fossem questionadas e possibilitou que novas ideias florescessem no nosso inconsciente, no nosso imaginário, nos levando a revisionar diversas narrativas. Inclusive o ‘assim na Terra, como no céu’.
Com a queda do conceito de ordem e imutabilidade do Cosmos, o que passou a ser igual “tanto acima, quanto abaixo” foi exatamente a incerteza sobre como algo vai se desdobrar, se concretizar. Não há mais certezas, mas, sim, múltiplas possibilidades. E isso é bastante assustador para nós!
Nossa socialização sempre teve como objetivo controlar tudo o máximo possível, a fim de evitar o imprevisível. E como o desconhecido vem sendo cultivada no nosso imaginário, na nossa paisagem cognitiva, há milênios como algo aterrorizante que deve ser evitado a qualquer custo, aprendemos a temê-lo.
A ideia de abraçar e acolher o caos, o desconhecido, o impermanente, é bastante recente no nosso mundo interior – tem menos de 100 anos que ela despertou em nossos corações e mentes e, com ela, novas percepções. Uma delas, a da complexidade do mundo, do universo e da nossa natureza interior.
Para um cérebro acostumado a buscar as soluções mais simples que garantam a sua sobrevivência com o menor gasto de energia, isso é difícil, desafiador e exaustivo pra caramba! Ainda estamos aprendendo a conhecer e a lidar com todas as nuances, sutilezas, singularidades e camadas da natureza do cosmos, da nossa psique e seu imaginário e da vida na Terra.
Talvez por essa a razão tantas pessoas desejem voltar o tempo e anseiem viver numa época em que a realidade parecia mais simples, sem tantas nuances assim. Como se fosse possível segurar a evolução da nossa consciência…
Diante do medo de lidar com o desconhecido e da necessidade de controle, num momento de fricção e de tantas incertezas no parto de um novo modelo de mundo como o que atravessamos, talvez isso seja o motivo da busca por certezas em oráculos.
Mas será mesmo esse o caminho? A mim, parece que não.
Num mundo em que nada é certeza e tudo é possibilidade de desdobramento, de vir a ser, acredito que o caminho seja “o da autonomia espiritual e da manifestação da força da vida”, como tão bem coloca Tatiana Soares, minha professora de Kundalini Yoga e colega de cluster feminista. Nesse caminho, diz minha colega, vamos aprendendo que o melhor oráculo a nos guiar já está dentro de nós. Basta aprender a estar atenta para perceber e ouvir. É exatamente aí, no caminho da autonomia do ser que entra a Terra na astrologia!
O EIXO TERRA-SOL
O simbolismo da Terra vem pra nos mostrar o quanto a vida e todos os seus seres – gente, plantas, animais, ros, montanhas – e a natureza em si são sagrados, únicos e raros, num universo em que a vida é tão hostil, como diz o físico Marcelo Gleiser.
Junto com o Sol e formando o eixo Terra-Sol, ela nos mostra que o que a capacidade de criar e contribuir com a vida está em nós – em você, em mim e em todas as demais pessoas, seres e espécies com as quais compartilhamos existência por aqui. Todo mundo contribui com algo, assim como uma árvore contribui com o oxigênio e as chuvas e as abelhas com polinização.
É assim que estamos todos interconectados, entende? E essa compreensão desperta em nós a consciência de que todos somos iguais, feitos da mesma matéria, perante o universo, e juntos mantemos a vida no planeta. Somos todos igualmente importantes e sagrados sob o céu, portanto.
Essa forma de entender a nossa presença aqui acaba despertando em nós uma outra ética nas nossas relações com os demais seres, humanos e não-humanos, e com a própria Terra. Uma que conecta, une e irmana a todos por aqui, sem distinção alguma por espécie, sexo, raça, cor, acabando com a ilusão de separação criada e perpetuada ao longo dos séculos. Isso também nos faz sensíveis e atentos aos impactos que causamos uns aos outros e ao próprio planeta.
Aliás, sabe quem criou e perpetuou essa ideia no nosso imaginário, na nossa forma de ver o mundo e nas nossas relações?
O patriarcado.
Ao patriarcado interessava essa divisão entre céu e terra, ordem e caos, corpo e alma, mente e espírito, pra justificar a superioridade do homem sobre a mulher e a criação de um sistema de poder que controlasse, tutelasse e subjugasse a voz, a mente, o espírito e o corpo da mulher, assim como sua capacidade reprodutiva. Esse projeto acabou criando um sistema que, há milênios, gera enorme violência contra a mulher (mais, ainda, contra a negra e a indígena) e a todo o corpo da Terra.
Mas, como diz a teóloga ecofeminista Ivone Gebara, a dimensão humana é mutável e, por isso, construções simbólicas como arquétipos e mitos “devem e podem mudar”. E cá estou eu, mudando o meu astrologar pra reverter toda a divisão arbitrária criada pela lógica patriarcal entre masculino e feminino, superior e inferior, como forma de institucionalizar o poder do homem sobre as mulheres. A mesma lógica que dissociou o sagrado da Terra para explorá-la, dominá-la, usá-la e esgotá-la como um objeto à sua disposição. Exatamente como fez com a mulher.
Inspirada nisso tudo é que passei a compreender o quanto necessitamos da percepção da Terra para o nosso florescer potente, pleno e vibrante por aqui, e entender que a relação da Terra com o Sol vai além da ideia de luz e sombra dos eixos dos signos.
Hoje, entendo que o eixo Terra-Sol no mapa astral como um caminho a percorrer, uma jornada de autonomia da alma, de empoderamento, portanto. Um que passa pela forma como vamos irradiar e fazer florescer no mundo a nossa singularidade, a nossa voz, contribuindo para o bem-viver nosso e o de todas as demais pessoas e seres aqui.
Como isso vai de fato se desdobrar e acontecer na vida nossa de cada dia é algo muito particular de cada pessoa e que depende da sua socialização, daquilo que você apreende da cultura da sua família, do seu entorno, do seu lugar.
É por isso que amo tanto me reunir com grupos de mulheres pra repensar o mundo, reler mitos e revisionar narrativas de arquétipos que, até hoje, reforçam no nosso inconsciente, no nosso imaginário, ideias que retiram a soberania da nossa existência e a legitimidade da nossa voz. Com elas, lembro a cada novo encontro porque essa é uma mudança tão necessária e que nós, coletivamente, já estamos construindo juntas.
Foi lendo mulheres e trocando com mulheres que minha visão de mundo foi se ampliando e minha voz também, conforme fui percebendo todas as arapucas conceituais criadas pelo patriarcado para manter prisioneiros nossas mentes e sonhos. Por isso fiz toda essa mudança que conto no novo livro. Porque simplesmente me recuso seguir cultivando, no nosso imaginário e na nossa paisagem cognitiva, qualquer construção simbólica que perpetue ideias e valores patriarcais que nos calam e geram tanta violência contra a mulher e a Terra.
Juntas, nos mobilizamos e sonhamos para mudar no imaginário e nos comportamentos nossos de cada dia as realidades que vivemos. Juntas, já estamos mudando tudo isso. E podemos mudar muito mais!
Imagem Jon Tyson/Unsplash
