Bem-vindo a mais esse capítulo de Dona Astrô Feminista. Ou, a influência do patriarcado na astrologia.
O episódio de hoje, a Lua como útero, é um oferecimento de Patriarcado.
No livro Moon Lore, publicado em 1818, no qual analisa mitos, superstições e a adoração e reverência à Lua, o reverendo Timothy Harley conta como a lua foi predominantemente uma deidade masculina por séculos. Na Babilônia e na Pérsia, pro exemplo, a Lua era tida como os deuses Sin e Máh, respectivamente.
Sabe quem muda isso no nosso imaginário?
Aristóteles, seguindo uma ideia de Platão, como conto no meu novo livro, Reviravolta no Céu.
Para Platão, o universo físico era uma cópia de uma ideia original que existia na mente do criador, que ele chamava de Demiurgo. Tudo que está da Lua para cima, e é representado pelo céu, faz parte do reino das ideias, das formas perfeitas desse criador, do Demiurgo. As ideias dele habitavam essa esfera transcendente harmoniosa, perfeita e imutável, que chegavam até nós aqui na Terra através dos planetas.
É aí que Aristóteles entra. Pupilo de Platão, ele se debruça sobre as ideias do mestre e cria um modelo ordenado de Cosmos que coloca a Terra no centro do universo e dispõe sete planetas girando em torno dela, entre eles a Lua. A Terra, ao centro, é a mais distante esfera do criador, por isso, ela é o mais imperfeito planeta.
É viagem minha achar que o fato de Gaia, a Grande Deusa, representar o mais imperfeito planeta esteja conectado à ideia de que mulher é caótica e precisa de orientação e tutela para ser menos imperfeita? E que essa ‘orientação’ venha daquele que está mais próximo de Deus, que, por acaso, é Saturno, o deus masculino que acabou com a (des)ordem anterior do mundo, estruturou a coisa toda e se tornou o pai, o patriarca, dessa nova ordem?
Com isso, Aristóteles define que, da Lua para cima, no reino do ser, o mundo era perfeito, imutável, verdadeiro. Já da esfera lunar baixo, ou seja, na Terra, era o domínio do devir, do vir a ser, o mundo das imperfeições, transformações, mudanças.
Só isso aí, pra mim, já mostra o quanto a astrologia, como toda construção simbólica pensada nessa época, também sofreu forte influência das estruturas conceituais e pressupostos do patriarcado e está impregnada de seus valores, conceitos e crenças sexistas. Mas a coisa não fica por aí, não. Tem mais, ainda!
Que planeta estava bem ao lado da Terra e, portanto, é a segunda esfera mais imperfeito? A Lua, claro! Afinal, ela está coladinha na Terra e bem distante do domínio do criador. Seria essa a razão da Lua ter passado a representar deusas femininas da mitologia grega? Talvez, mas não é só isso.
Conforme a teoria de Aristóteles, inspirada em Platão, quando estava pronta para a vida física, a alma humana descia lá da esfera divina do céu, a do criador, para a física aqui na Terra através dos planetas. Começando por Saturno, ia passando um a um. E, à medida que fazia isso, ia adquirindo as qualidades atribuídas a cada planeta. Ao passar por Júpiter, recebia orgulho e sabedoria; e, por Vênus, graça e beleza, por exemplo. Ao chegar na Lua, a alma estaria pronta e ali aguardava para nascer em sua forma física.
Assim, a Lua se tornou o grande útero espiritual de onde todos os humanos emergem. Útero que, antes, aliás, era associado à Gaia. Veja como o local de onde o ser nasce muda das entranhas da Terra para o céu.
Essas ideias acabam sendo aceitas sem questionamento e sua cosmologia se torna a regra e só será questionada com timidez a partir de Copérnico, Kepler, Galileu, Newton e cia. Aliás, a própria igreja católica medieval se apropria desse conceito e o adapta pra referendar no imaginário um conceito cosmológico de um Deus off planet, que governa o mundo no exterior da Terra, num espaço onde tudo é perfeito, ordenado, isento de caos. E a Terra como lugar de pecado, decadência, corrupção, sofrimento, caos e que também é o lugar do inferno, que se localiza nas entranhas do centro da Terra.
Com isso, a igreja faz do inferno o centro do universo, já que a Terra é o centro desse cosmos aristotélico tão ordenado. Bastante simbólico isso, né? E em função desse interesse político, a igreja sustenta a cosmologia de Aristóteles com mão de ferro, perseguindo e acusando de heresia quem diz o contrário. Eis porque nenhuma teoria ganhou fôlego até Copérnico, Kepler, Galileu e Newton ousarem expor suas ideias publicamente.
Veja, você, como tudo isso foi social e culturalmente construído. E como as narrativas são construídas e derrubadas em processos de ampliação de visão de mundo e consciência. É por isso que eu amo tanto me reunir com grupos de mulheres e repensar o mundo, reler mitos e revisionar narrativas de arquétipos e da astrologia, retirando delas valores patriarcais que, até hoje, reforçam no nosso inconsciente, no nosso imaginário, ideias que retiram a soberania da nossa existência e a legitimidade da nossa voz.
Imagem: Ryunosuke Kikuno/Unsplash
