Era sexta-feira. Dia de Vênus e Eva, por associação simbólica. Final de mais uma semana intensa. Tudo que eu queria era falar do talento e da força de uma mulher nas redes.
Mas aí, começo a rolar o feed do instagram e ler as mensagens no direct e me deparo com absurdos, como a ameaça de morte e estupro à Lola Aranovich, a nojenta nova alegação da defesa de Daniel Alves e o cartaz da Festa da Maçã.
À minha frente estão as soberanas da tradicional festa gaúcha. Duas delas seguram maçãs. Já a outra, tem uma jiboia, uma serpente, nas mãos e envolta no pescoço. Junto a elas, está a chamada “um doce desejo”, numa alusão a Eva e Adão. É a cereja do bolo (ops, troquei as frutas e as festas).
Esfrego os olhos pra ter certeza de que não tô netunianamente viajando e… Tô, não. É bem real.
Curiosa, vou pesquisar e não me surpreendo com o que encontro. A campanha, classificada por seu criador como “fora dos padrões” (juro), nasceu da cabeça de um homem, um Y. E a organização da festa se orgulha pela “criatividade, sensualidade e ousadia” da campanha, como consta no site.
Sigo lendo e a coisa só fica pior. Descubro que, em 2015, os cartazes traziam as soberanas segurando maçãs cobrindo a nudez do corpo, juntamente com o slogan “caia na tentação”. Algo muito fora dos padrões, que não abusa da tradicional objetificação das mulheres.
Resolvo parar. Afinal, não tô podendo acrescentar incomodação extra ao meu fígado já exausto com esse momento. E nem ampliar a minha indignação com a falta de noção de quem aprova uma campanha dessas e ainda acha que tá quebrado padrões.
Fala sério!
Em pleno século 21, com mulheres sofrendo violências a rodo todos os dias, não dá pra não problematizar, gente. É tempo de quebrar paradigmas, mesmo. E associar a mulher ao pecado, à tentação e ao desejo não faz isso, mesmo! Porque é total e absolutamente padrão, poxa! É nada novo sob o céu de 2023.
Mas como meu barato é imaginar e propor novas narrativas, na manhã seguinte, acordei pensando como seria uma outra proposta de tema para a campanha da Festa da Maçã. E adivinha?
Não deu outra.
Eu escolheria a versão de Eva escrita pela V (ex- Eve Ensler).
Aquela na qual “Eva comeu a maçã para recuperar seus poderes, para saber o que sabia antes de ser mantida refém no jardim errado.”
A da Eva que sabia que o verdadeiro paraíso se constrói sobre conexão, inteligência afetiva, cooperação. E não sobre hierarquias forjadas por interesses violadores e que são nada naturais à vida.
Eu mostraria toda a ousadia de Eva ao comer a maçã. Porque mesmo sabendo que ela seria desqualificada, desacreditada e atacada pelo Clube dos Brothers, como chamo a fraternidade patriarcal que governa o mundo, ela comeu.
Mostraria a coragem de Eva em comer a maçã pra nos libertar! Pra resgatar a nós e um mundo tão faminto como ela “por justiça, êxtase, conexão, prazer, igualdade e amor”. Esse, sim, um doce desejo que pulsa em nós.
Uau! Olha tudo que comer a maçã reapresenta! E como seria realmente fora dos padrões e revolucionária, como foi Eva, uma campanha inspirada nessa (nova) história.
Novas histórias, novo mundo.
Imagem: Brandi Alexandra/Unsplash
