Num dos cursos de Mindfulness que fiz com o querido Felipe Rech no Pacífico Instituto, no comecinho de 2020, ele propôs que pensássemos um mote para nós. Sem demora, me veio à mente a frase ‘histórias transformam o mundo’.
Hoje, essa frase faz muito mais sentido pra mim.
Com tudo que aprendi (e sigo aprendendo) nesses dois últimos anos, tenho ainda mais clareza do quanto histórias, mitos, lendas e narrativas assim ajudam a construir e justificar ideias, ideais, valores e comportamentos (autorizados e não) no nosso imaginário.
É por isso que acredito tanto que as histórias precisam ser contadas com novos valores.
Valores que enalteçam outras formas de ser e estar no mundo e não só essa que divide a nossa existência entre superiores e inferiores, céu e terra, winners e loosers, cultura e natureza, salvador branco e selvagens, e por aí vai. O que as construções simbólicas também ajudaram nos ensinaram a pensar e imaginar.
Quer um exemplo de novo modelo na cena pop?
A saga Crepúsculo.
Já reparou que Bella e sua então nova família só vencem os vampiros vilões criando uma rede/networking poderosa ao invés de ir pro embate sozinhos? Que ela, em momento algum, pensa na vitória como algo pessoal, mas, sim, como de todas e todos ali? E que superpoder Bella adquire? A capacidade de criar um campo/escudo protetor. Uma defesa, ao invés de arma de ataque. Nada patriarcal, mesmo!
Por fim, é interessante observar como o final sem luta (já que todo o embate é previsto/antecipado e de fato não acontece) é alvo de críticas. O final conciliatório não emplaca pois desagrada a mente acostumada com a clássica narrativa vencedor/perdedor.
Também venho em debruçando muito sobre os mitos. Desde o ano passado, quando analisei o mito de Gaia para o Ensaio sobre a Terra e entendi a treta patriarcal nele, nunca mais li da mesma forma os mitos. O olho treinado pelo pensamento crítico percebe as sutilezas das alegorias escolhidas e as mensagens e valores patriarcais contidos neles.
Entre as muitas relações que encontrei na construção simbólica desse mito e o rolo compressor do patriarcado que esmaga a nós/mulheres todos os dias, cito aqui uma que é sermos propriedades dos homens da família – primeiro, do pai ou irmão. Depois, do marido.
Essa ideia que encontramos também na Bíblia e em outras construções míticas e simbólicas são vistas na realidade nossa de cada dia em fatos como o fato de que até 1962, mulheres casadas só podiam trabalhar, abrir conta em banco, viajar e ter um negócio próprio no Brasil se o marido permitisse. Sem autorização legal dele, nem pensar. Ou que só em 2002 a virgindade deixou de ser um direito legal do marido.
E tem gente que revira os olhos e ainda fala mal do feminismo. Pois é…
Quanto mais me debruço e estudo os mitos e outras construções simbólicas como a astrologia com as lentes da nova cosmologia e do feminismo/ecofeminismo, mais me encanta e fascina o mote e com ele trabalho, adaptado ao que aprendi de lá pra cá: novas histórias pra transformar o mundo!
Acredito tanto nisso que escrevi um livro a respeito.
Reviravolta no Céu é a história de como a minha mudança de lentes me levou a uma reviravolta, um plot twist, uma mudança de paradigma e de visão de mundo einsteiniana! Daquelas que “cancela a possibilidade de retornar a um momento anterior ao de sua compreensão e assimilação”, como diz Rita Segato em Crítica da Colonialidade em oito ensaios. Do tipo que muda a consciência e não tem mais volta. E como tudo isso me levou a uma nova compreensão e visão da astrologia.
Além de questionar narrativas carregadas do mais puro suco do patriarcado que são perpetuadas no universo simbólico há milhares de anos, e que tantos danos, dor e destruição têm causado a nós, mulheres, à Terra e tantos outros seres, humanos e não humanos, que compartilham a vida conosco aqui, conto as mudanças que implementei, fruto da busca por narrativas com estruturas que celebrem formas mais sustentáveis, éticas e justas de habitar a Terra e de nos relacionarmos com ela, entre nós e com todos os demais seres.
O livro é um misto de memoir e manifesto por uma nova forma de ver e entender o ser humano e sua maneira de estar e se relacionar no mundo. Além disso, é também uma declaração de afeto pela Terra e todos os seus seres e um chamado para ação, pra uma tomada de consciência sobre a mudança que precisamos fazer no universo simbólico e na realidade nossa de cada dia.
Imagem: Amy Shamblen/Unsplash
