Certa vez, meu tio Manoel Ramires recusou um negócio que faria a diferença na vida dele. Quando questionei a razão pra tal decisão, ele me respondeu sem titubear: é dinheiro sujo de sangue, prefiro não fazer o negócio.
Se antes eu já admirava esse tio, depois dessa situação, o respeito só cresceu. Não é todos os dias que vemos uma pessoa recusar uma oferta financeira tentadora e se manter fiel aos seus princípios éticos.
Lembrei desse caso ao ler a notícia da venda do clube de futebol Newscastle United da Inglaterra para um Fundo de Investimentos Públicos da Arábia Saudita, país que integra a lista dos que mais atrocidades comentem contra os direitos humanos. Vale lembrar o caso do jornalista saudita que foi torturado e teve seu corpo desmembrado e cortado em pedaços dentro da embaixada do Arábia Saudita na Turquia em 2018.
Para as autoridades da Premier League, a liga inglesa de futebol, isso parece ser apenas um detalhe. Nada relevante que impeça um aporte milionário que garanta dinheiro infinito ao clube. Tampouco parece incomodar o ex-dono do time, o bilionário britânico do varejo Mike Ashley. Inclusive, ele declarou à imprensa que não foi só o dinheiro que moveu sua escolha pelo Fundo comandado pelo príncipe herdeiro do trono do país localizado no Oriente Médio, e que havia ofertas maiores. Mas, para ele, a escolha era a melhor pro time que terá “dinheiro infinito” pra montar um time dois sonhos e lançar resultados incríveis dentro do campo.
Que nojo!
Tudo isso me faz pensar na enorme crise ética e humanitária que atravessamos, e que é resultado direto do nosso divórcio da natureza. Separação essa que nasceu da ideia equivocada de que alguns homens eram senhores de todos os outros, da terra e das demais espécies e que podiam (e ainda podem) dominar e governar qualquer outro na base de violência, medo e opressão.
A mesma premissa que fez do homem caucasiano o sujeito da ação, da conquista, do sucesso, enquanto todos os demais integrantes da comunidade da Terra, humanos e não humanos, se tornavam objetos passíveis de uso, exploração, descarte.
Pois essa falsa ideia de desconexão, que apagou da consciência a noção de interconexão e interdependência entre nós, humans, e com todas as demais espécies e seres do grande sistema de vida que habitamos que é a Terra, alimenta a corrupção interna que gera, tolera e aplaude atitudes de indiferença e/ou conivência com abusos e violência e motes ordinários como “os fins justificam os meios”.
Ainda bem que nós, humanas, estamos sempre mudando e, portanto, podemos mudar. E que ainda há almas nesse planeta capazes de recusar uma oferta financeira tentadora e honrar e preservar seus princípios éticos.
