Foi em uma época de contracultura, e do surgimento dos movimentos ecofeminista e ambiental, que a Terra despertou no imaginário e foi (re)descoberta por nós.
Na véspera de Natal de 1968, a primeira foto em cores da Terra vista do espaço e feita por um humano, um astronauta da tripulação da missão Apollo 8, foi clicada. Batizada de Earth Rise, Nascer da Terra, a imagem impactou e inspirou a humanidade.
“Ver a Terra como ela realmente é, pequena e azul e bela naquele eterno silêncio em que flutua, é ver-nos como viajantes juntos sobre a Terra, irmãos nesse brilhante afeto em meio ao frio eterno —irmãos que agora se sabem realmente irmãos”, escreveu o poeta Archibald MacLeish no New York Times no dia seguinte à publicação da foto.
Assim, o arquétipo da Terra despertava na consciência e no imaginário coletivos. Para a Astrologia, quando um planeta é descoberto, um novo impulso e anseio desperta na consciência.
Ainda que a Terra não fosse exatamente nova pra nós, nunca antes havíamos visto uma imagem sua assim. O impacto dessa visão despertou em nós a compreensão que MacLeish traduziu em poesia: a Terra como nossa casa comum; e nós, como uma grande comunidade.
Em 1969, um ano após a primeira imagem da Terra ser divulgada, James Lovelock apresentaria ao mundo a Hipótese de Gaia, ou Teoria de Gaia, na qual defende que a Terra possui capacidade de autorregulação de suas condições. Em 1972, a bióloga Lynn Margulis se une a ele e, juntos, caracterizariam a Terra, Gaia, como um sistema com uma rede interconectada de ações interdependentes para o controle da vida aqui.
Antes disso, em 1970, seria instituído o Dia da Terra nos Estados Unidos em 22 de abril. Um ano depois, no Brasil, o ambientalista José Lutzemberger criava a Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), a primeira entidade ecológica do país.
Em 1973, o mundo testemunharia o início do movimento Chipko na Índia, quando um grupo de mulheres moradores da comunidade Mandal se mobilizou contra a derrubada de árvores nativas. Tocando tambores, elas entraram na floresta e se abraçaram às árvores, assim impedindo a derrubada delas. A partir daí, o movimento passaria a realizar ações similares para resistir às ações de madeireiros e combater as monoculturas de árvores.
Um ano antes, aconteceria a primeira conferência mundial sobre clima e meio ambiente em Estocolomo, e a segunda imagem da Terra era feita do espaço. Dessa vez, a Terra aparece em toda a sua exuberância. Essa imagem de 1972 estamparia a capa da Time na edição de janeiro de 1989, apresentando a Terra, nossa casa comum ameaçada, como personalidade do ano de 1988.
Também o feminismo ecológico desponta como movimento político entre os anos 60 e 80, durante a segunda onda do feminismo. Em 1974, a feminista francesa Francoise d´Eaubonne criava o termo ecofeminismo em sua obra Le Feminism ou la Mort (O Feminismo ou a Morte), estabelecendo o mesmo como movimento e filosofia.
No livro, ela propõe uma “nova forma relacional de gênero entre os sexos, bem como entre a humanidade e o meio ambiente”, subvertendo as estruturas conceituais patriarcais de dominação, opressão e exploração sobre a terra, as mulheres e todos aqueles que são considerados inferiores, humanos e não humanos. A marca registrada do patriarcado.
“A figura do homem e do masculino como centro das formações culturais é prejudicial tanto para vida e liberdade das mulheres, como das espécies humana e não humana, pois os mesmos adjetivos causadores da violência contra os corpos femininos também levaram às mazelas ambientais”, defende a advogada e ecofeminista Vanessa Lemgruber, no Guia Ecofeminista – Mulheres, Direito, Ecologia. Nessa obra, Vanessa se debruça sobre as ondas feministas e explica todos os debates e ideias discutidas em cada etapa, bem como seus múltiplos olhares e abordagens. E, assim, vai mostrando como o feminismo foi se tornando plural, à medida que avançava.
Quanto mais avanço na pesquisa, mais convicta fico do quanto é necessário resgatar o arquétipo da Terra/Gaia na astrologia. Não só pra lembrar que a Terra é muito mais do que cenário e pano de fundo da jornada de evolução e consciência do self, do eu por aqui, mas também pra reforçar que essa evolução inclui a noção de pertencimento e interdependência com as demais espécies e formas de vida.
Também entendo que o uso do arquétipo da Terra nos mapas astrais e na narrativa astrológica é fundamental pra subverter as estruturas conceituais patriarcais que criaram a visão de mundo vigente e estruturaram a sociedade. E essencial pra repovoar o imaginário com histórias e narrativas que desconstruam essa lógica opressora e dominadora que tão prejudicial tem sido à mulher e a todos aqueles que foram considerados inferiores – raças, povos, animais, plantas e demais formas de vidas. Muitas delas em extinção iminente.
Mais uma degustação do Ensaio sobre a Terra, em pré-lançamento essa semana.
Pra finalizar, deixo aqui Caetano Veloso e Gilbeto Gil cantando a música belíssima que Caetano compôs à época da divulgação da foto da Terra.
Imagem: NASA
