Meu amigo Guilherme Atencio, biólogo doutor em Entomologia, me contou que as borboletas, ao saírem da crisálida em seu processo de metamorfose, ficam um tempo com as asas estendidas, quietinhas, esperando secar, até que possam então voar.
Essa imagem faz muito sentido pra explicar meu último ano.
Em meados dessa época, no ano passado, eu calei. Perdi a voz. Aqui no blog, nas redes, nas conversas com amigas. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas uma certeza eu tinha: a necessidade absurda de escutar, ouvir, aprender, refletir, questionar ideias e reciclar o pensamento. De reaprender pra entender melhor. E foi o que fiz.
Foram horas e horas de cursos, workshops, encontros e muuuita leitura e escuta atenta e profunda de vozes que, até então, eu nunca havia parado pra ouvir e prestar atenção. Tantas narrativas lindas, potentes e tão diferentes das que eu ouvia na minha bolha!
Comecei a entender o tamanho das injustiças estruturais e sistêmicas que moldam a nossa sociedade e nos atravessam e impactam a nossa subjetividade também. Compreendi como o pensamento que molda nossa visão de mundo e os paradigmas dele decorrentes nos levaram aos grandes desafios que vivemos nesse nosso tempo. Entendimento que se ampliou mais ainda quando entrei em contato com a cosmologia arquetípica do Centro de Estudos Integrados da Califórnia (CIIS) e, através dela, com a sensacional obra de Thomas Berry e a de Brian Swimme.
Aliás, como é bom olhar pro mundo de outro ponto, de um lugar diferente daquele que a gente se acostumou a ver e viver a vida inteira. Como isso amplia os horizontes e a empatia! Palavrinha de sete letras e atitude de muita humildade tão necessárias nesses tempos de profunda transformação que vivemos.
Quanto mais eu alargava meus horizontes, mais as narrativas que até então me sustentavam iam ruindo, uma a uma. E menos sentido elas faziam diante da decolonização do pensamento que eu vivia e da nova compreensão de mundo que despontava.
Tudo isso me atravessou como artista, como astróloga, como jornalista, como humana. E foi me transformando profunda e irrevogavelmente, cambiando entendimentos, percepções e propósitos. Dessa nova compreensão de mundo e cosmovisão, minha voz foi voltando. Renascendo. E consciente dos tremendos desafios que temos à frente, meu desejo é usá-la para contribuir com este momento de transição que a humanidade está atravessando e que é o limiar de um novo período.
Mas como fazer isso?
Propondo novas narrativas para nós, humanas, nesse planeta lindo chamado Terra, e que é a nossa casa coletiva. Narrativas que proponham rever, reimaginar e ampliar o olhar do nosso papel no mundo e também estabelecer uma nova relação entre nós humanas, e também com a natureza e todas as demais espécies e expressões de vida. Que proponham um relacionar menos abusivo e mais amoroso, inspirado em práticas éticas, sensíveis ao cuidar, ao respeito, à empatia, à cooperação, ao bem viver comunitário e não o individualista.
Narrativa é a forma como eu escolho construir uma história. É uma decisão consciente que eu faço de que lugar eu quero contar essa história, a partir de qual ponto de vista vou narrá-la, a fim de provocar uma resposta emocional. Ou seja, como o corpo e a mente vão reagir à ela. Pois são elas, as nossas narrativas pessoais, por sua vez moldadas a partir das narrativas coletivas, que definem como compreendemos o mundo e moldam as escolhas que fazemos, assim como as ações e atitudes com as quais vamos construindo a realidade.
Eis por que precisamos de narrativas mais saudáveis, éticas e participativas ao invés de opressoras e violentas. Narrativas que reparem injustiças milenares que nos separam, e que resgatem o senso de encantamento reverente à natureza e a compreensão do nosso pertencimento à grande e interdependente comunidade da Terra que formamos entre nós Sapiens e com todas as demais espécies e seres.
E tem tanta história pra contar com isso tudo! Muuuitas!
Algumas delas, sobre o que já vem sendo feito mundo afora, gente que vem se dedicando a reimaginar a espécie humana como integrante dessa grande comunidade que é a Terra. E há aquelas que inspiram lindamente a ficção.
Enquanto pacientemente aguardo minha asas secarem, sigo escutando, lendo, pesquisando e ampliando o olhar.
– Curioso pra ver pra onde vai voar essa borboleta – me diz Guilherme.
Eu também, amigo. Eu também.
PS: escrevi esse texto sobre ter perdido e recuperado a voz no dia mundial da voz. Sincronicidade, sua linda! Amo-te.
