Venho pesquisando e buscando uma nova estrutura narrativa para o meu novo romance.
Um que fuja da consagrada jornada do herói, que exalta modalidades masculinas de poder, definidas por dominação, violência, conquista e colonização, como quase todas as estruturas que conhecemos fazem.
Li um artigo sensacional da atriz e cineasta Brit Marling no Medium falando sobre isso, no qual ressalta como ainda não temos uma estrutura narrativa em que a mulher é realmente livre e que sejam exaltadas modalidades outras de poder que não as masculinas.
“Escavar, ensinar e celebrar o feminino através de histórias é, dentro de nossa emergência climática, uma questão de sobrevivência humana. O momento em que começamos a imaginar um novo mundo e a compartilhá-lo através de histórias é o momento em que um novo mundo pode realmente vir”, diz ela no final do artigo. Ler suas palavras reforça o propósito de me unir a essas mulheres que já vem fazendo isso, pra assim participar e colaborar na recomposição do imaginário com novas histórias e mitologias. Pra que esse novo mundo, guiado por outros valores e mentalidade, possa vir.
Quanto mais me envolvia com a pesquisa e a escrita do Ensaio sobre a Terra nesses últimos meses, mais forte ficava uma imagem em minha mente: a do patriarcado com a personagem mitológica da Hidra de Lerna, que Hércules precisa derrotar em seus 12 trabalho. Essa Hidra patriarcal, que simboliza a cultura e mentalidade de dominação, agressão, opressão e violência, tem como cabeças-serpentes o sexismo, o racismo, o androcentrismo, o capacitismo, o colonialismo, o imperialismo, o capitalismo, o neoliberalismo, entre tantos outros ismos e injustiças que essa visão de mundo gerou.
E a gente conhece o mito, né?
Se tentar cortar fora uma cabeça-serpente, outras duas surgem em seu lugar. Ou seja, para acabar com a hidra, é preciso atacar a fonte de tudo. Ou, como dizem por aí, cortar o mal pela raiz. Ou seja, é preciso reconhecer a presença das estruturas conceituais do patriarcado e como elas estão presentes e permeiam todas as esferas da nossa vida, sem que nem nos demos conta.
Pra derrotar a hidra, acredito que precisamos ir onde tudo se origina: no campo do imaginário, do simbólico, dos mitos, o das narrativas que sustentam a visão de mundo que forja a sociedade que vivemos. E que também é o das histórias.
O modus operandi do patriarcado desde os seus primórdios é o da dominação, da conquista, da subjugação, da violência. E os mitos que fundamentam o nosso pensamento e cultura são frutos dessa visão de mundo, das construções feitas a partir delas, que também ativaram e deram vida à arquétipos como mestre e escravo, o salvador (branco) e as vítimas, o pai (que limpa a bagunça e salva) e o filho, pra citar alguns.
Creio que esse seja o nosso maior desafio: recontar nossas histórias, nossas mitologias, nos ajudando a contemplar sentidos e reimaginar a espécie humana como um membro da comunidade terrestre. Pra isso, é preciso decolonizar a mente e o olhar sobre o mundo, o que requer leitura, escuta, educação, desejo de mudança e ação. Um processo que já vem se desdobrando há alguns anos, mas que, agora, diante da urgência da crise climática e humanitária em curso, requer que aceleremos o processo de despertar para a necessária desconstrução em curso.
Reflorescer o arquétipo da Terra, Gaia, no nosso imaginário é essencial, nesse propósito. Por isso, entendo que papel da Astrologia como linguagem simbólica e arquetípica é bem importante. “Esperamos que os astrólogos comecem a colocar a Terra nos mapas, tornando assim as pessoas mais conscientes do modo como estão ligadas à Terra na vida real”, dizem Arielle Guttman e Kenneth Johnson na obra Astrologia e Mitologia. Eu também.
Imagem: Michele Eckert/Unsplash
