Era uma vez uma célula. Bem pequenina, minúscula, como todas as outras células do corpo. Licélula havia nascido no Baço, um país setentrional pouquíssimo conhecido e bastante neutro na geopolítica corporal. Como toda baciense, ela era extremamente sensível aos humores de todo o corpo humano e tinha uma certa tendência a pensar demais e criar preocupações.
Tudo ia muito bem, obrigada, até o dia em que Licélula começou a achar que a vida no Baço era medíocre e que não fazia jus a tudo que ela poderia e merecia ser. Como ser feliz num lugar tão sem graça como esse? Para ela, as células do Fígado, do Pulmão, do Coração e até do Intestino Grosso levavam vidas muito mais interessantes, importantes e valiosas do que ela.
Quanto mais se perdia nesses pensamentos, mais Licélula se considerava a célula menos interessante, com a atividade menos valiosa e a rotina menos glamourosa do corpo. Acreditando que seu gramado era o menos verde de todos, começou a desprezar e rejeitar sua condição de baciense. E sentimentos como desapontamento, frustração, crítica, autoflagelação e sofrimento passaram a ser constantes, criando um cenário de tumulto e caos no seu núcleo.
– Perdedora, fracassada, idiota – repetia, num diálogo interno incessante.
Tanto conflito começou a afetar seu bem-estar. Licélula foi ficando inchada, esverdeada, com manchas estranhas e uma dificuldade extrema de executar suas atividades mais essenciais. O que só aumentava sua raiva, frustação e desespero.
Vendo o colapso da companheira, as demais células do Baço lembraram dos relatos sobre o terrível vírus Sou Especial e Mereço, uma peste que havia se originado nos países da Região Alta e se alastrara corpo afora, provocando uma verdadeira pandemia. Esse vírus causava uma alteração no entendimento de que toda célula integra o sistema do corpo e que ele funciona de forma interdependente e interconectada. Essa cosmovisão de desconexão provocava alucinações individualistas e comparações terríveis. O que, em casos graves, desencadeava, até mesmo, óbitos celulares.
Entendendo a gravidade da situação, e decididos a não abandonar uma das suas, as células bacienses convocaram seu Conselho Comunitário. Reunidas, então, em um círculo em torno de Licélula, começaram a recitar as qualidades e contribuições da colega para o grupo.
– Lembra quando você encontrou uma maneira de combater aquela infecção superperigosa?
À medida que eram ditas, as palavras das células conselheiras iam atuando como um antivírus, desintoxicando Licélula e despertando memórias que fizeram com que ela se reconhecesse, outra vez. Sim, toda célula tem sua singularidade e também seu propósito coletivo no corpo, lembrou. E a sua, como baciense, era tão vital ao organismo quanto qualquer outra.
Depois desse dia, Licélula foi retomando, pouco a pouco, sua vitalidade e bem-estar. E guardou no seu núcleo a lição que aprendera.
