Não é de hoje que acompanho o trabalho dessa artista visual multipotencial que é Tati Garcia. Mãe de quatro mulheres, foi através das filhas que seu olhar se voltou para as questões que enfrentamos social e coletivamente e ela sentiu necessidade de ter um outro caminho para se expressar.
“Eu comecei a me dar conta da dificuldade que elas estavam enfrentando. Enquanto era só eu batalhando pela vida e tentando sustentar e educar minhas filhas, eu quase não percebia muitas coisas, porque eu ia no automático da rotina. Quando é com a gente, parece que não enxergamos. Simplesmente se acha que aquilo ali é natural. Mas com minhas filhas, fui aprendendo que a coisa não é bem assim. À medida que elas foram crescendo e que eu fui vendo as dificuldades que elas encontram para abrir suas próprias portas e entrar no mundo do trabalho e na sociedade em si, comecei a prestar atenção”.
Com essa avalanche de sentimentos borbulhando, Tati encontrou na arte o caminho para expressar as ideias, os questionamentos e as batalhas que vivia e observava suas filhas e outras mulheres atravessando.
Assim nascia a obra Transbordar, onde a incrível história de Tia Chinoca, e muitas outras, se tornaram arte. O projeto fez Tati ir atrás de histórias, em busca do que outras mulheres tinham para falar. Ao todo, foram cerca de 200 com quem Tati conversou (e ouviu) em salas de espera, fila de supermercado, em tantos outros momentos nossos do cotidiano.
Com essas histórias, algumas mais sofridas, outras nem tanto, mas todas sempre na luta por condições melhores para suas vidas, Tati foi então bordando uma belíssima narrativa sobre as vivências comuns como invisibilidade, sororidade, insubordinação, coragem, limitações e potencialidades pessoais e coletivas.
Nesse processo, trouxe para sua arte técnicas e materiais associados ao universo feminino e restrito ao ambiente doméstico e, por isso, vistos como de menor valor e, quase sempre, mantidos às margens. Entre elas, o bordado.

Foi com sua mãe, as tias e a avó, as mulheres da família, que faziam muito crochê para decorar a casa, que Tati aprendeu a bordar na infância. Lembrando os trabalhos com linha, agulha, bordados e crochê que a mãe fazia, ela pondera que, se tivesse tido oportunidade, sua mãe poderia ter sido uma artista fenomenal.
“Eu sinto esperança de que as coisas estão mudando. Devagar, mas com concretude. Hoje, minha mãe tem a possibilidade de ver bordado e crochê estar em um museu, numa bienal. Isso me motiva a continuar”.
A arte, especialmente a contemporânea, diz Tati, abre um leque imenso para romper barreiras, alargar possibilidades, abandonar padrões convencionais, colocar nossa voz para fora, pensar e propor o diferente, abrindo espaço para as mudanças de paradigma.


ABRINDO ESPAÇOS
Antes de levar seus talentos para o universo da arte visual, Tati desenvolveu suas habilidades artísticas em outro setor: o moveleiro. Desde a infância, ela tinha muita facilidade para desenhar e, depois de acompanhar fascinada o trabalho com marcenaria de um tio materno seu, ela acabou levando suas habilidades para esse setor.
Foi trabalhando na indústria moveleira que aprendeu tudo sobre composição, proporção, escala, perspectiva, coberturas, colas, pincéis, tempo de secagem e desenvolveu os conhecimentos que hoje usa em sua arte.
Mas esse setor, predominantemente masculino na década de 1990, traria outras lições importantes para ela. Nele, Tati aprenderia a desbravar caminhos e criar estofo para enfrentar desafios.
“Não foi fácil. Tive que ir me colocando, ter muita força na minha voz, provando que eu tinha capacidade para estar ali. Isso me fortaleceu, me ensinou a estufar o peito e seguir”.
É com essa mesma determinação que Tati agora adentra o mundo da arte e, utilizando a diversidade de materiais e técnicas, a leveza do humor e a sutileza da ironia, vai ganhando espaço, apresentando uma visão crítica e bem-humorada da realidade. Quase uma paródia.


Veja mais as obras dessa mulher genial aqui!
