Eu devia ter uns seis anos quando tive a brilhante ideia de acender uma vela e colocá-la no topo da geladeira da casa em que morávamos.
Se a ideia por si só já não fosse arriscada para uma criança, some a isso o fato dela ser elétrica, a casa ser de madeira, e ser necessário subir numa cadeira e se equilibrar com uma vela na mão!
Pra aumentar o potencial risco de um desastre, em cima da geladeira, minha mãe tinha um vaso com uns penachos pintados com spray dourado. Pensa em algo inflamável…
Lilinha, animada com sua ideia e aventura, se aproveitando do envolvimento de Dona Graça com o almoço, subiu na cadeira, se esticou e, enquanto puxava o vaso com um mãozinha, com a outra esticava a vela rumo ao topo da geladeira. Nesse movimento, claro que a vela e os penachos dourados se encontraram…
Só lembro de berrar, largar o fogo no chão de madeira e sair correndo.
Graças a presença de espírito e agilidade de mamis, e a ajuda do meu irmão adolescente, a tragédia foi evitada e não houve incêndio.
Depois desse episódio, por muitos anos, fui chamada de incendiária.
Passadas mais de quatro décadas do incidente, eis que estou numa tarde gostosa com amigas na Bienal e vejo essa parede.
Na hora, quis fazer uma intervenção artística e pedi pra Suzana Veiga fazer uma foto minha ali.

Ao olhar pra imagem, lembrei do incidente e me dei conta do quanto ela fala da minha essência catalyst também.
A catalisadora, segundo Sally Hogshead, instiga a necessidade de repensar o lugar comum e provoca novas ideias. Ela causa a fagulha, o spark na cabeça que faz pensar “poxa, é isso!” É o raio que incendeia a mente e o coração com novas ideias e percepções.
A essência da catalyst mistura paixão e conexão com criatividade. Seus top 5 adjetivos são: out of the box/fora da caixa, entusiasmada/empolgada, criativa, contagiante e energizante.
Identifico a catalyst no meu mapa da alma, como chamo o mapa astral. É um arquétipo predominante, junto com a diva/drama queen da Rock Star (outro arquétipo que conheci com Sally Hogshead) e outros, como a shapeshifter e a supersensível.
O que eu aprendi nesse processo todo foi ser mais aquilo que eu já sou.
Afinal, mesmo que a gente não expresse conscientemente o que é, a essência sempre encontra uma forma de expressão.
Sempre.
Na pista de dança, nos livros e filmes que escolhemos, falando do final de semana, numa discussão acalorada, ou num incidente, como o meu na infância.
Foto na Bienal by Suzana Veiga
