Era comecinho da madrugada e eu estava saindo de uma balada chamada Estação Z, em Canela, depois de me esbaldar na pista de dança. Sempre fui dessas que ama dançar de se acabar!
A Estação Z ficava no segundo andar de um prédio e seu acesso se dava por uma escadaria externa.
Como era amiga da RP da balada, e chegava cedinho, eu sempre conseguia estacionar meu carro no estacionamento próximo à escadaria, de chão batido forrado com pedrinhas.
Naquela noite, eu estava com uma bota cano longo, de salto alto quadrado, e um vestidinho bem curtinho, levinho e soltinho, como eu adorava. Por cima dele, um casaquinho pra dar conta da aragem da noite de começo de outono na serra.
Desci as escacansada, depois de tanto dançar, doidinha pra ir pra casa. Logo atrás de mim, vinha uma amiga e um senhor famoso por ser festeiro aos 80 anos, a quem eu daria carona até Gramado.
Já estava no estacionamento quando as pedrinhas implicaram com minha bota e fui ao chão e cai de quatro.
Não bastasse a vergonha do tombo, com a queda, o vestidinho levinho e soltinho veio parar na minha cintura e eu fiquei literalmente de quina pra lua.
Além do senhor festeiro e de minha amiga, quem estava na escadaria também assistiu tudo isso de camarote.
Junto com o orgulho avariado, sai do episódio com os joelhos machucados e uma vergonha absurda, que durou dias.
Com o tempo, eles sararam e o episódio caiu no esquecimento. Afinal, só quem viu, viu.
Fico aqui imaginando como teria sido se, naquela época, já houvesse celulares com seus vídeos e fotos de alta qualidade.
Quantas pessoas que nem lá estavam teriam me visto de quina pra lua? Teriam dado risada e comentado algo?
Como seria chegar no trabalho na segunda-feira com essa imagem gravada na retina das/dos colegas?
Será que minha vergonha e paz de espírito teriam se recuperado tão facilmente quanto os joelhos?
Ser teen/jovem adulto numa cultura de vigilância 24/7 como a de hoje deve ser nada fácil.
Deve ser difícil não poder pagar mico, cair tombo, se expor ao ridículo, sem que isso se torne um vídeo, uma cobraça, uma chacota ou um git no YouTube, revisto e disseminado num looping eterno. E saber que tudo fica eternizado numa memória eterna virtual, a qual todos têm acesso 24 horas por dia, 7 dias por semana. Ou seja, o tempo todo!
Isso me parece tão prejudical e complicado pra jovens, pra quem ainda está formando sua psique e aprendendo a lidar com as pressõs e desafios da vida. Desconheço por completo esse universo, mas desconfio que esse tipo de uso pra essa ferramenta seja nada saudável.
Relembrando essa e outras desventuras e aventuras, sorrio aliviada não ter vivido esse mico numa época de nuvens e celulares com câmeras como a de hoje. Com tantos causos, eu seria um prato cheio pra hitar no YouTube.
