Eu estava visitando a cidade e era o meu último dia ali. Naquele final da tarde, decidi ir até a academia do hotel.
Chegando lá, vi a esteira e decidi fazer uma caminhada leve. Subi nela e iniciei numa velocidade baixa. Aos poucos, conforme o ritmo do meu corpo ditava, ia aumentando. Quando percebi, estava trotando, numa corridinha leve e deliciosa. Foi nesse momento que tudo aconteceu.
Do nada, a velocidade começou a aumentar vertiginosamente, sem que houvesse qualquer estímulo da minha parte. Logo estava correndo em um ritmo de atleta, muito rápido. O coração disparou e a garganta secou com a exigência de alta performance que a esteira demandava.
Minhas bochechas pegavam fogo. Meu coração parecia que ia explodir! Eu não iria longe se mantivesse o ritmo insano da esteira. “Vou ter um troço aqui”, pensei, enquanto a esteira aumentava mais e mais a velocidade, ficando cada vez mais difícil acompanhar seu ritmo.
Olhei para o painel, à procura de algum botão pra diminuir a velocidade. Para minha surpresa e desespero, estava quebrado. Não existia mais naquela esteira. Nela, havia apenas o controle para aumentar sua velocidade. Desesperada, agarrei com força nas laterais e comecei a avaliar o risco de me jogar pra longe dela.
Nesse instante, uma queda abrupta de energia escureceu toda a academia e fez a esteira parar de supetão. O movimento brusco lançou meu corpo à frente e só não me machuquei porque já estava agarrada nas barras laterais.
Com as pernas bambas, desabei de joelhos e me arrastei para fora da esteira. Deitei no chão e ali fiquei, recuperando o fôlego. Não sei quanto tempo se passou até que uma funcionária do hotel entrou ali e, ao me ver deitada no chão completamente desalinhada, arregalou os olhos e veio me ajudar.
– A senhora precisa de ajuda? Aconteceu alguma coisa?
Enquanto ela me ajudava a levantar, contei o que havia acontecido. Ela quis chamar o gerente, mas pedi que não o fizesse, pois estava nem e só queria voltar ao meu quarto e descansar. Muito a contragosto, ela concordou.
Subi para o quarto, tomei um banho e desabei na cama. Exausta, adormeci. E sonhei com ela. A esteira.
– Me chamo Histeira – me dizia – E não queria te fazer mal. Desculpa. É o burnout.
Acordei com o coração batendo forte. Pedi uma sopa e uma taça de vinho ao serviço de quarto, que o hotel me deu como ’cortesia’ pelo incidente nada fortuito.
Na manhã seguinte, assim que cheguei no balcão para o checkout, fui abordada pelo gerente, que me aguardava para se desculpar e garantir que as “devidas providências já haviam sido tomadas” e aquilo jamais voltaria a se repetir.
– Ainda ontem, retiramos a esteira da nossa empresa e a descartamos num ferro velho – contou, satisfeito – E já temos uma nova, de última geração, no seu lugar.
Agradeci sua atenção, fechei a conta e fui embora. Rumo ao aeroporto, fiquei pensando no triste destino da Histeira, a esteira que eu conhecera na tarde anterior.
Quantas vezes foi exigida alta performance da pobre esteira? Ou velocidade acima de sua possibilidade?
Quantas metas impossíveis e exaustivas impostas por terceiros ela teve que bater em seu tempo de existência?
E pra quê?
Pra acabar sendo descartada e substituída numa velocidade mais rápida do que a do seu descompenso, depois de ser usada e exaurida até esgotar geral e burnoutar. Um retrato fiel da lógica que pauta as relações num mundo capitalista patriarcal. Usar até exaurir, desgatar, descompensar. Aí, descartar e trocar.
Imagem: Morgan Basham/Unsplash.
