Em dos muitos prédios do bairro mora um pássaro de tamanho médio, cuja gaiola fica exposta para a rua. Até aí, nenhuma novidade. O que me fascina é o que acontece tão logo a persiana e o vidro se abrem a cada manhã.
O pássaro recebe dezenas de amigos que, como em uma romaria, um a um vão pousando no beiral da janela para contar as novidades. Os passarinhos que o visitam, creio eu, habitam os jacarandás e as muitas outras árvores das ruas próximas. Pelo que percebo, nunca se demoram – talvez com medo de serem aprisionados. Vejo que gorjeiam as novidades e vão embora.
Sempre que presencio tal cena, fico pensando no tipo de conversa que se estabelece entre eles. Imagino as aves livres contando façanhas deliciosas feitas ao embalo de ventos mornos, aquecido pelo sol em dia de céu claro. Ou viagens feitas em correntes de ar. Pondero sobre a forma com que anunciam, entusiasmados, a visita a novos lugares, árvores, bairros e até mesmo cidades – coisas que só a liberdade de ir e vir permite.
Nesses momentos, como em um bom desenho animado, consigo até mesmo ver o engaiolado sonhando em viver muitas aventuras. Porém, logo imagino que ele se defenda de tudo isso com o desdém de quem não precisa de aventura e que prefere o certo ao incerto. Ou seja, para ele, viver em cativeiro tem lá as suas vantagens.
Ele não se estressa com as intempéries do tempo e nem com a busca por comida, por exemplo. Gatos e ratos? Não há porque temê-los. Afinal, está protegido contra tudo e todos não apenas pelas grades, mas também pelo amo e dono. É nesse ponto que eu em pergunto: será mesmo? Quem garante?
Então, enquanto reflito sobre isso tudo, penso na gente. Em mim, em você, em todos nós, seres humanos, que criamos as nossas próprias gaiolas dentro de nós mesmos – ao colocarmos pesadas grades em nossas mentes. Também penso no quanto nos limitamos em nome de uma pseudo-segurança.
Olhando para aquele pássaro que gira em círculos na sua gaiola, só posso concluir que somos nós que criamos limitações e obstáculos à nossa vida. Muitas vezes, em nome de uma segurança que – na real – nem é tão verdadeira assim.
Uma vez me disseram que as nossas limitações estão dentro da nossa mente. Olhar para esta ave cantarolando dentro da gaiola me lembra isso. Sempre.
Escrito em algum momento de 2007
