Tem um filminho antigo do diretor Cameron Crowe que eu adoro. Se chama Elizabethtown (Tudo acontece em Elizabethtown).
Esse filme é um dos meus prediletos na vida. Tem várias coisas que ADORO nele – da trilha às falas dos personagens, do mapa musicado da road trip ao romance.
Tem uma frase em que Claire, personagem vivida pela Kirsten Dunst, diz o seguinte para Drew, o protagonista interpretado por Orlando Bloom, diz o seguinte:
“You’re an artist, man. Your job is to break through barriers. Not accept blame and bow and say thank you, I’m a loser, I’ll go away now”.
“Você é um artista, cara. Seu trabalho é romper barreiras. Não aceitar culpa e se curvar e dizer obrigado, eu sou um perdedor, vou embora agora“. (em tradução livre)
Essa fala sempre me pegou, sabe? Sempre achei incrível!
Nessa última semana, escrevendo para meu amigo Guilherme Atencio, entendi o que mais me encanta nela.
Assim como Drew, estou nesse mundão pra criativar, criar, quebrar barreiras, chacoalhar o mundo de quem chega perto de mim. Sou uma artista.
Foi estudando arquétipos com Caroline Myss que isso começou a ficar claro pra mim. Diz a autora que a artista quer expressar-se, dar forma a uma visão e entregar isso que ela imagina e vê ao mundo (e não é exatamente o que estou fazendo com as Mulheres Planeta no Clube de Astrologia para Mulheres?)
E mais, ainda. Que ela está sempre criando algo novo, que ama novas ideias e fazer as coisas acontecerem de um jeito diferente. E que a artista sente profunda satisfação no processo de fazer e no resultado. Tão eu isso tudo!
Quanto mais eu lia, mais me identificava com esse arquétipo. E mais e mais buscava saber sobre ele. Fiz até alguns testes pra me convencer e… lá estava ela. Sempre.

A artista é uma das formas de expressão do arquétipo da Criadora, que se caracteriza por ser imaginativa, ter muita sensibilidade e uma visão diferente das coisas. A imobilidade não lhe agrada, já que sua cabeça não para de inventar. Na sua manifestação artista, a criadora percebe o mundo através do sentimento e busca dar sentindo a ele dando vazão ao que lhe atravessa. Expressando o que sente.
Mesmo me identificando muito com esse arquétipo (e reconhecendo tudo isso aí em mim), eu não me via artista. Eu não me sentia assim. Como acontece com muitas de nós, por questões sociais/estruturais e pessoais, abafei e calei essa voz dentro de mim. Por tanto tempo que já não a reconhecia.
A artista e a escritora nunca pareceram ser da mesma família no meu mundo. Menos, ainda, sinônimos. O que até entendo, já que minha formação foi como jornalista.
Assim, mesmo me reconhecendo como escritora, eu não me via artista de forma alguma. Foi preciso alguns processos terapêuticos – com psicoterapia, arquétipos, escrita criativa, livros e muitas trocas com mulheres feministas – pra que isso mudasse e eu acolhesse e abraçasse essa verdade.
Com essa nova compreensão, então olhei pra tudo o que já fiz (e inventei) na minha vida profissional nessas três últimas décadas. E não tive dúvidas. A necessidade de criar, de expressar o que me atravessava, mesclando minhas vivências e paixões, sempre esteve presente, assim como o desejo de fazer coisas diferentes e o anseio de propor algo novo, seguindo minha voz interior. Mas, como eu não a reconhecia como legítima, autêntica, eu não acreditava nela.
Agora, percebo nitidamente como a artista encontrava brechas e se fazia presente como podia. Nas biografias que eu escrevia e que dialogavam com o coração de quem lia. Nos jornais e revistas que ajudei a criar ou reformular nas empresas para as quais trabalhei. Na forma como me fascinava trabalhar em eventos ou pautas envolvendo arte e cultura pop. Na festa de aniversário mais memorável que fiz (com uma amiga) e que teve como tema “se você não fosse você, que personagem você gostaria de ser?
Entendi porque trabalhar como hostess numa balada que operava por temporadas (no inverno em Gramado e no verão na praia) foi tão marcante pra mim. Minha alma de artista amava a oportunidade de expressar toda a sua imaginação e criatividade a cada novo final de semana, com looks nada convencionais e make up carregado. A cada novo final de semana, eu levava miha artista para passear.
Me dei conta, também, como, nas muitas vezes em que esse sentimento-necessidade de criar o novo me atravessou e não dei vazão, ele acabou transbordando de alguma maneira. E, muitas vezes, até se metamorfoseando em drama pessoal na minha vida. Como diz Caroline Myss, todo anseio instintivo em nós (que chamamos arquétipo) SEMPRE vai encontrar uma forma de manifestar, de se expressar. Seja ela construtiva ou destrutiva (sombria, como diz a psicologia).
Olhar pra tudo isso me fez entender o quanto criar e dar forma ao que me atravessa não só é uma parte natural de mim, mas essencial pra minha alma.
Aliás, não faz muito tempo, uma amiga me perguntou por que eu preciso tanto expressar o que sinto. Ela queria saber de onde vem esse anseio, necessidade, vontade. Eu já havia sido questionada antes sobre isso, mas não sabia responder. Agora, no entanto, sequer titubeei:
– É porque sou artista, amiga!
Por essa mesmíssima razão, também aprendi o quanto é imprescindível cultivar laços que fortaleçam a minha vida criativa. Eu já havia lido sobre isso em vários dos livros sobre escrita ou criatividade (ou ambas) que li nos últimos anos – a maioria das autoras e autores é unânime ao orientar que criemos uma rede, um ecossistema ao nosso redor, que nutra a nossa essência criativa, ao invés de podá-la, julgá-la, recriminá-la, desencorajá-la. Dizem elas que é fundamental.
Depois desses últimos 16 meses, tenho certeza disso. O encontro com Suzana Veiga e seu cluster feminista e a convivência com mulheres incríveis, as de alma sensível e as artistas, que venho tendo garantiu solo fértil e seguro para que a minha artista florescesse. Nesse período, escrevi e vi ser aceito e publicado (pela editora Hortelã) um livro que tem catalisado mudanças e revoluções (em suaves prestações mentais), passei a fazer colagens no Canva para ilustar posts, criei e dei voz à Dona Astrô Feminista, e escrevi um conto YA (para participar de um concurso).
Desse conto, nasceu o embrião do meu novo universo de ficção, que já comecei a estruturar, usando um novo template que se opõe ao da jornada do herói. Por fim, nesse mês de agosto, concebi uma nova maneira de apresentar os arquétipos dos planetas astrológicos no Clube de Astrologia para Mulheres, dando a eles a forma de mulheres ancestrais e contando as suas histórias.
Olhar pra isso tudo me escancarou algumas coisas e desencadeou mais um plot twist na minha história.
Ficou claro o quanto minha artista se fez presente na forma como lapidei e construí meu trabalho nesses meses, até se tornar o que é hoje.
“Teu trabalho é muito único. É algo que fura completamente a bolha do que foi socialmente definido, convencionado”, ouvi numa sessão de psicoterapia. “Não se encaixa, não cabe em caixinhas”.
Se antes isso me frustrava e confundia, hoje não me incomoda mais. Pelo contrário! Abraço e sorrio, porque… estou me relacionando de uma forma diferente com a artista, o anseio criativo que me habita.
Eu enxergo, acolho, valorizo e amo essa parte do jeitinho que ela é – e que não é igual a de outras artistas, já que todo arquétipo, ainda que represente um mesmo anseio, sempre é customizado.
Ao invés de olhar com cara feia e dedo em riste para mim mesma, me criticando, julgando e culpando por todas as inventações que fiz na vida, como fiz tantas vezes, agora, olho pra mim com alegria e orgulho e digo em voz alta:
– Tu és uma artista, mulher! Tu estás aqui pra romper barreiras, pra propor o novo, pra inventar, pra chacoalhar o mundo de quem chega perto de ti.
Também ficou claro e cristalino o quanto de fato é importante e faz A diferença cultivar laços que fortaleçam a vida criativa minha, sua, de qualquer uma de nós que seja uma criadora! O quanto nós precisamos de redes que nos retroalimentem. E conversando com uma artista querida no último sábado, tive ainda mais certeza disso.
Além de seguir expressando e dando voz à minha artista, passo a colocar meu conhecimento e repertório à serviço da criatividade (e da criativa) que habita outras mulheres. Eu acredito que, pra mudarmos qualquer coisa (e o mundo), precisamos de corpos e corações alegres, mentes cheinhas de imaginação e conexão com a criatividade e com a nossa capacidade de cocriação.
Seguimos juntas, criativando e criando!
