É muito lindo, mesmo, esse tal processo criativo.
Tem me fascinado observar como ele funciona, como ele tem uma forma muito próprio de operar e de dialogar com a gente, e que varia de pessoa para pessoa.
Essa semana, mais uma vez me encantei vivendo a experiência de como esse processo potente vai costurando tudo em seu tempo e compondo algo novo. Vou contar o que aconteceu.
No ano passado, enquanto escrevia Reviravolta no Céu: uma revisão feminista da astrologia, uma pergunta despontou na minha mente: e se Dona Astrô começasse a ler teóricas feministas e se desse conta do quanto o modelo conceitual da astrologia reproduz e se sustenta em ideias machistas, misóginas, patriarcais? O que ela faria? Mudaria alguma coisa ou não?
Foi assim que a personagem Dona Astrô, que eu criara no início de 2019 pra falar de astrologia e do comportamento nosso de cada dia usando contação de histórias e que descontinuara tempos depois, tornou-se Feminista.
Passei, então, a publicar análises astrológicas feitas por ela e com essa pegada no instagram. E escrevi boletins assim:
O universo se transforma e evolui nos encontros que provocam transformações e geram novas possibilidades. Entre as quais, meu céu, você escolhe! Escolhe a partir do seu repertório, daquilo que você tem no momento.
No encontro de Vênus (a visão da mulher objeto no patriarcado) com Plutão (o tabu, o que está oculto, o poder, o sexo), a Globo escolheu expulsar dois homens assediadores e culpabilizar (ao invés de acolher) a vítima.
Não por acaso, mas total sincronicidade com o momento e transbordando a intensidade dele por todos os poros, a Lila escolheu falar do corpo como espaço a ser ocupado essa semana por aqui. E a Suzana Veiga, sobre as cidades como espaço ainda a ser ocupado pelas mulheres!
Vênus também dialogou com Saturno, que simboliza a maturidade, a velhice. E o que se viu no Ocidente?
Duas mulheres maduras ganhando Oscars de melhor atriz e atriz coadjuvante.
E vocês viram a foto machista da academia com as duas atrizes e os dois atores vencedores do Oscar? Eles em primeiro plano e elas atrás?
Veja como a ideia de que o homem é mais importante e, por isso, vem sempre à frente da mulher, está entranhada nas mentes, corações e vísceras da comunidade da Terra! Por todas as galáxias, haja desconstrução com Plutão, Urano & cia, manas!
Ainda sobre Vênus/Saturno, também rolou um vídeo lamentável com três jovens tolas e privilegiadas, que ainda não conhecem o que Saturno simboliza na vida, e tampouco o que é sororidade, acolhimento e empatia, ridicularizando uma colega madura que ingressara na faculdade.
Mas a viralização almejada acabou saindo pela culatra com esse Vênus/Saturno! E quem merecidamente ganhou holofotes e o acolhimento devido foi a estudante madura e a pauta do etarismo, que atinge muito (MUITO) mais as mulheres do que os homens, já que fizeram vocês acreditar que mulher tem prazo de validade e só tem valor no frescor da juventude e por sua capacidade de garantir prole e prazer pra macho. Que disparate!
Com essas ideias a serem derrubadas, encerro meu boletim cósmico.
¨¨¨¨
Depois de meses, a proposta pareceu perder o sentido e eu fiquei sem compreender a razão. Mas eu sentia que algo novo estava incubando e que precisa de algo que eu ainda não tinha consciência. Na época, para me ajudar nesse processo, recorri ao universo que eu havia criado lá em 2019, e reescrevi o post no qual contava como Dona Astrô havia se tornado Feminista. Em 27 de abril, escrevi:
Enquanto esse processo vai tomando forma dentro de mim, junto com a nova voz de Dona Astrô, farei uma pausa nas orientações diárias dela no instagram. Espero voltar em breve, porque curto demais fazê-las.
Cinco Luas cheias e muitas vivências depois, eis que finalmente todos os pontos se uniram e ganharam sentido. Dona Astrô é a voz que apresenta a revolução feminista no céu, que retira das narrativas astrológicas os conceitos patriarcais e destitui os deuses masculinos do panteão grego da função de representantes dos planetas astrológicos. E, em seus lugares, coloca as mulheres ancestrais (ideia essa que surgiu em função do Clube de Astrologia para Mulheres).
Sentei, então, em frente ao texto e reescrevi o final dessa história escrita em abril.
Eis como ficou.
DONA ASTRÔ & A REVOLUÇÃO FEMINISTA NO CÉU
A Cloud é um lugar nos rincões do universo que opera como uma grande central de dados da Terra.
É lá que fica A Grande Memória da Terra e os Serviços de Inteligência que acumulam todo o conhecimento, saber e evolução das inteligências das espécies e seres que habitam o pequeno belo planeta azul da Via Láctea.
Cada Serviço tem uma linguagem e um método todo seu. E um gestor que se reporta diretamente à dupla Universo/Evolução, os responsáveis pela criação e expansão de tudo que existe e é.
Nossa história começa quando Dona Astrô, a icônica diretora do Serviço de Inteligência Astrológica, a SIA, se depara com um livro esquecido por seu assistente pessoal, um pinguim cósmico chamado Pen, sobre sua mesa.
O livro era de uma Sapiens chamada Ivone Gebara, que a namorada de Pen, uma gata bibliotecária do setor de Pensamento Ocidental da Cloud, havia esquecido com o namorado.
Intrigada com o curioso título, Teologia Feminista, Dona Astrô mergulhou na leitura dele. E a partir daí, não parou mais.
A cada dia, lá estava ela, com um livro novo em mãos, bebericando seu drink vino galáctico e devorando páginas e mais páginas de ideias e teorias criadas por Sapiens fêmeas na Terra, também conhecidas como mulheres.
Sentada sobre a mesa com as pernas cruzadas ou na sua poltrona cor de brilho de estrela, a cada rotação a Terra, ela lia uma Sapiens diferente… Rita, Simone, Silvia, Monique, Lélia, Carole, Audre, Débora, Vandana, bell, Françoise, Rebecca, Suzana, Marília… Foram muitas!
Assim se passaram várias rotações da Terra, até que, num retorno de Vênus, ao acabar mais um livro de uma Sapiens chamada Gerda Lerner, Dona Astrô saltou da cadeira e se pôs a caminhar agitada, de um lado para o outro, num vaivém frenético, que só fazia brilhar e agitar ainda mais as micro estrelas que desenham constelações nada estáticas sobre seu macacão escuro como o espaço.
– Não é possível isso, Pen – bradou diante do seu assistente pessoal, que já vinha testemunhando os bufos e a indignação crescente da chefa a cada nova leitura, assim como a mudança na cor das tatuagens em formato de raio que Dona Astrô traz em ambos os pulsos.
Reza a lenda que as cores dessas tatuagens indicam não só o humor da diretora da SIA, mas também o espírito do mundo na Terra.
Amarelo sinaliza tempos de percepção, criação e imaginação. Vermelho, por sua vez, é rEvolução. Disrupção. Transformação intensa e profunda. Já laranja, indica que vem mudança aí!
Não foi surpresa alguma para Pen ver que tais raios brilhavam num tom carmim a la Ziggy Stardust de David Bowie, o músico Sapiens por quem Dona Astrô tem um crush.
– Olha só o absurdo que fizeram com o saber astrológico na Terra! – bradou ela – E não só com ele, pelo que constatei nessas obras! Isso não pode ficar assim!
Foi nesse dia que Dona Astrô iniciou um movimento inédito no Cosmos e na Cloud: começou a fazer encontros pós expediente num pub galáctico com diretoras de outros serviços de inteligência, como o das Tradições Orais, o das Lendas e o da História das Mulheres, que fora criado não fazia muito tempo.
Tornou-se corriqueiro encontrá-las em conversas animadas por lá.
Logo, o grupo foi crescendo e, sem demora, estavam participando integrantes de outros setores de conhecimento, como do Saber Simbólico e Mitológico, dos Saberes Originários, da Inteligência Cosmológico, do Pensamento Ocidental, dos Dogmas e Religiões, das Leis, da Educação e até uma subversiva da Ciência, que ia disfarçada para evitar represálias dos colegas.
Assim, nascia uma troca de informações entre saberes e inteligências que atualizava a todas sobre os últimos avanços dos Sapiens na Terra. Sempre regado com muita alegria, risada, indignação, generosidade, vino e cevada galácticas. Todos na Cloud sentiam e sabiam que algo novo nascia ali…
Foi após mais um desses encontros que Dona Astrô surpreendeu Pen. Ao chegar na SAI, seu assistente pessoal encontrou a chefa debruçada sobre seu CosmicPad, digitando furiosamente nos teclados.
– Escrever é subversivo. É transformador, Pen – disse ela, sem sequer erguer a cabeça, antes de calar e mergulhar na escrita outra vez.
Assim foi sua rotina durante várias rotações da Terra. Dali, ela saia apenas para conversar encontrar as amigas e colegas no pub cósmico.
Numa tarde de conjunção de Urano e Plutão, Dona Astrô finalizou e achou que era hora de levar as ideias revolucionárias do grupo, sobre as quais vinha escrevendo, ao coração do Universo. Levantou-se e foi conversar com a Evolução.
Não muito tempo depois disso, as mudanças começaram a acontecer, no discurso e na prática de muitos setores. Mulheres começaram a ser nomeadas diretoras dos Serviços de Inteligência e dos Saberes. A integrante do setor de Ciência que ia escondida aos encontros não só foi promovida, mas também não precisou mais se camuflar para participar dos encontros.
No serviço sob seu comando, a partir dessa nova percepção de mundo que encontrara nas leituras de pensadoras, teóricas e escritoras Sapiens feministas, Dona Astrô começou a implementar mudanças.
Trabalhando em uma parceria com colegas do Serviço de Simbologia e Mitologia, as deusas de diversos reinos da Terra foram convocadas, a fim de criar uma nova narrativa para a astrologia. Uma que fosse nada hierárquica, misógina, tóxica, colonial e machista. E que fosse sagrada no sentido de contemplar relações mais éticas, saudáveis, empáticas, afetivas e plurais.
Assim, nascia a Revolução das Mulheres Planeta, como Dona Astrô chamou a grande mundança que implementou na astrologia da SIA, ao destituir os deuses masculinos do cargo de representantes dos planetas astrológicos e colocar mulheres ancestrais em seus lugares.
Com elas, Dona Astrô passou a escrever novas histórias para os planetas astrológicos – histórias que traziam em seu cerne todos os anseios e forças que eles representam, assim como as mudanças que a Evolução já vinha colocando em curso no Universo.
Suas narrativas logo se espalharam na Cloud, no Cosmos e nas consciências e corações de Sapiens antenadas com o espírito do mundo na Terra. E a revolução começou a acontecer também no pequeno belo planeta azul da Via Láctea.
