Dizem que seu nome, em inglês, significa maçã com muitas sementes.
Maçã, a fruta que Eva comeu para nos libertar da ilusão de um paraíso falso e bom só para os homens, como nos conta a escritora e ativista V (a Eve Ensler).
Eva curiosa, desobediente, sedenta por conhecimento, prazer, justiça e verdade, que lutou desde o dia um da civilização contra aqueles que a tutelavam.
Eva que, ao comer a maçã, ansiava por “justiça, êxtase, conexão, prazer, igualdade e amor”, como diz V. E que desejava resgatar os poderes e o conhecimento que ela sabia deter, “antes de ser mantida refém no jardim errado.”
Se a romã é uma maçã com muitas sementes, entendo essa fruta como um símbolo da profunda sabedoria e conhecimento associado às mulheres, à intuição, ao que traz significado para a alma e faz sentido ao coração.
Uma sabedoria, portanto, mulheril.

Quando escolhi a romã como símbolo, eu não sabia nada disso.
A romã era tão somente a fruta que Perséfone comeu, um nome para um podcast e uma imagem que me fascinava, encantava e que não saia da minha cabeça.
Era, também, uma fruta de cor e textura pelas quais sou fissurada e com a qual sempre tive intimidade, devido a uma tradição que minha mãe e o tio Manoel Ramires mantêm no dia de Reis Magos. Data, aliás, na qual também é celebrado o dia das astrólogas.
Depois, meu amigo Luciano Alves me mostrou que, quando lemos ao contrário a palavra romã, o que encontramos é amor. Amor que, como vim a aprender com bell hooks, é a vontade e a ação de investir e trabalhar pelo nosso próprio desenvolvimento espiritual e o dos outros. Amor esse que é um dos pilares do meu trabalho.
Não é lindo isso?
Talvez, se eu tivesse tentado racionalizar e justificar a minha escolha, eu não teria usado a romã. Teria ficado com o raio e uma estrela – figuras que amo tanto quanto borboletas, espirais, fadas, lemniscatas (o símbolo do infinito) e corações e que dialogam muito comigo.
Mas o fato é que segui o que me fascinava, o que me encantava, como a mulher planeta Venusa nos propõe, e deu no que deu: a imagem acabou trazendo todos esses significados para o meu universo – significados que tanto têm a ver com o que estou fazendo hoje na astrologia e na construção de narrativas que moldam nossa compreensão e visão de mundo.

INSURREIÇÃO DE CONSCIÊNCIA
Junto com a romã, também quis o raio como símbolo do que faço. Além de um tributo à criatividade, à estética e à genialidade artística de David Bowie, muso que inspira minha alma inventadeira e criativa de artista, o raio também é uma referência à Thea, a mulher sagrada do céu revolucionária, genial, inventiva e que anuncia e libera o novo nos nossos dias.
Thea simboliza a força que rompe com a mesmice, com o mais do mesmo, que anuncia e traz mudanças, liberando o novo em nossas vidas e nos libertando do que nos prende e aprisiona e dos espartilhos mentais que nos restringem.
Unindo o raio e a romã, traduzi em uma imagem o que venho propondo na astrologia, na escrita e na comunicação: promover uma insurreição de consciências (como diz Ailton Krenak) e vislumbrar outra forma de entender o mundo e de nos relacionarmos entre nós, com a Terra e os outros, orientada por justiça, êxtase, conexão, prazer, reciprocidade, igualdade e amor.
Esse ano, a combinação da romã com o raio ganhou releitura pelo olhar da talentosíssima Karina Werneck, essa artista de imagens, traços e palavras, que tem a newsletter 2 por 30 – que eu AMO ler – aqui no Substack.

CURIOSIDADES SOBRE A ROMÃ
Na mitologia
Os gregos associaram a romã às deusas Afrodite, Hera e Perséfone, e há duas lendas em torno do seu surgimento. A mais popular nos conta que Afrodite, a deusa do amor, teria plantado a primeira árvore dessa espécie em Chipre – razão pela qual a fruta tornou-se sagrada para os moradores da ilha e para a própria deusa.
Já a outra lenda relaciona a fruta ao semideus Dionísio. Sequestrado e esquartejado por titãs a mando de Hera, a ciumenta esposa do predador Zeus, uma gota de seu sangue teria ido ao chão, assim dando origem à romã.
Se a primeira lenda me encanta pela conexão entre amor e romã, gosto muito da segunda por mostrar como essa fruta surge da combinação entre a energia vital que faz pulsar a vida, e que o sangue simboliza, com a materialidade da terra, do corpo, da natureza – todos eles sempre associados à mulher. No fim, tudo isso reforça ainda mais a romã como símbolo de uma sabedoria profunda, ancestral, intuitiva, erótica (no sentido daquilo que nutre a alegria e o prazer de viver). Sabedoria essa que nos habita, que é mulheril e que estamos resgatando e utilizando para sonhar, imaginar, vislumbrar e conceber novos mundos.
Na religião
A romã é mencionada em diversas religiões. Li que o profeta muçulmano Maomé aconselhava mulheres grávidas a comerem romãs para que tivessem lindos filhos. E que no Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico, romãs são abertas como um apelo à fertilidade e prosperidade. Já na arte cristã, a fruta simboliza esperança.
Na saúde
Em sites que encontrei na rede, dizem que a romã é rica em Fósforo, Vitaminas C e K, Folato e Potássio; e indicada para regular o fluxo menstrual, reduzir pressão arterial e no tratamento de diversas condições como artrite, diabetes, disfunção erétil e problemas de garganta, cardiovasculares e gástricos.
Se a romã é tudo isso aí mesmo, não sei. Mas, como falei antes, essa fruta simboliza bem a intenção que há no meu trabalho como astróloga, escritora, comunicadora. E agradeço demais aquela Lila de um ano atrás, por ela ter confiado no seu instinto, ter seguido sua intuição e o seu fascínio, e não ter ficado se questionando e racionalizando sobre que raios, afinal, a romã tinha a ver com o seu trabalho.
Às vezes, confiar é tudo que precisamos.
