Eu não conhecia nada.
Nunca tinha ouvido falar em galáxias, planetas, mapa astral, símbolos, sincronicidade e o escambau. Minha vida se resumia a esfregar as penas da casaca nas geleiras do Pólo Sul, me saciar com peixes e plâncton e olhar pro céu.
Nunca, nunquinha mesmo, nem nos meus devaneios mais incríveis, criativos, delirantes, ou em meus sonhos mais selvagens, imaginei que um dia eu seria colorido como o céu. Brilhante como as estrelas. E habitaria o lugar onde os registros de cada suspiro e de tudo o que acontece no Cosmos são guardados.
Nunca vou esquecer o dia que mudou a minha vida.
Eu era como tantos outros pingüins recém chegado às áreas gélidas do Pólo Sul na Terra. Preto e branco. Fã de peixes, moluscos e plancton. Desviando e evitando orcas e fugindo das terríveis focas-leopardo.
Mas eu tinha uma coisinha diferente dos outros filhotes.
Ou melhor, duas.
Sabe o que dizem dos pingüins, que eles não conseguem esticar o pescoço pra cima e olhar um avião riscando o céu?
Grande lenda urbana. Fake news a respeito de todo e qualquer pingüim do universo. À exceção de um.
Aham. Euzíssimo. Pen Guyn.
E esse probleminha aí, que me fazia diferente dos demais, não seria um drama existencial se eu não tivesse nascido com outro fator atípico aos pinguins: um fascínio por cores.
Mas pensa num encantamento encantador!
Tanto que me fazia esquecer tudo e só querer olhar praquele céu colorido lindo em meio à imensidão branca das geleiras. O que me custava tombos e quedas ao olhar pra cima e horas a fio estatelado com as costas nas geleiras. O que sempre causava tititi, comentários e muita estranheza na tribo pinguística.
Se eu sofria com isso?
Nada!
Meu coraçãozinho transbordava alegria toda vez que eu estava lá estatelado no gelo, me maravilhando com o céu, com as nuvens e as estrelas. E devaneando…
Existe cor depois das estrelas?
O que tem depois do azul do céu?
E assim eu passava meus dias.
Até que…
Algo diferente aconteceu nas geleiras da Antártida. Houve uma invasão de Sapiens das mais variadas cores e tipos por lá: curiosos, deslumbrados, investigativos, cobertos por peles sintéticas coloridíssimas como o arco-íris.
Se eu fiquei fascinado pela profusão de cores e tonto com tamanha correria de um lado pra outro, meu clã ficou perturbado e muito alterado. “Sapiens é uma praga, filhote… Quando chega assim aos montes, deixa um rastro de destruição pra trás”, repetia minha mãe, ressabiada.
Apesar de pequeno, eu entendia a razão de sua preocupação. Foi numa invasão assim que mamis perdeu meu pai, quando eu e meus irmãos ainda estávamos em sua barriga. Parece que foi pra nos defender…
Apesar disso eu acompanhava aquele alvoroço todo com muita curiosidade, mesmo sem entender nada.
Passado algum um tempo, quando o dia começou a virar noite, então eu entendi razão de todo aquele vuco-vuco. Algo raro estava acontecendo no céu, o que deixou os Sapiens ainda mais alvoroçados.
Na época, eu sequer imaginava o que seria aquilo. Hoje, eu sei que era um raríssimo eclipse solar total no Pólo Sul. Pela primeira vez em cem anos, durante vários minutos, o Sol ficaria coberto pela Lua. Algo tão tãããão singular que levou centenas de Sapiens pra lá.
Acredita que teve Sapiens até lotando avião pra ver de pertinho esse incomum encontro do Sol com a Lua?
Pois, sim!
E que momento foi aquele! Meu coração bate forte no peito quando lembro…
Lá estava eu, acompanhando aquela movimentação toda, quando um Sapiens começou a caminhar na minha direção. Assustado, vi que minha mãe não estava por perto.
Com o coração aos pulos, disparei, então, à procura de abrigo e proteção. E aí, bem à minha frente, crescendo e rodando sem parar, eu vi uma circunferência colorida e brilhante.
Apertei os olhos, pra ter certeza de que eu não estava alucinando de tanto medo. Mas era isso, não. A esfera não só continuava rodando, mas, agora aberta, mostrava um lugar cheinho de estrelas brilhantes e multicoloridas. Lindo, lindo de ver!
Fiquei fascinado! Extasiado. Hipnotizado.
E aí, movido pelo medo do Sapiens e o transe diante de tanta cor, corri na direção do círculo rodopiante e, quando lá cheguei, nem pensei… Me joguei com tudo pra dentro dele.
Mal fiz isso, ele se fechou. E à minha frente, através de uma parede transparente, eu me vi, pela primeira de inúmeras outras vezes, admirando a imensidão deslumbrante e colorida de milhaaaaares de estrelas aglomeradas num cluster em meio ao espaço. Um espetáculo!
– Seja bem-vindo. Estava esperando você.
Meu coração saltou à boca tamanho susto e virei de supetão, dando de cara aquela mulher de tom lilás e cabelos acobreados, sentada sobre uma mesa prata redonda, pés descalços e pernas cruzadas.
Como assim, me esperando? Ela me conhecia? Ela sabia que eu iria pra lá? E por mil tubarões, como eu entendia o que ela falava?
– Aqui na Cloud falamos todos a mesma língua – disse, sorrindo ao perceber minha confusão – Temos conversores e tradutores automáticos para que isso aconteça.
Achei que fosse um sonho e levei as asas aos olhos, esfregando outra vez. E quase cai duro estatelado no chão duro quando abri os olhos e olhei para as penas das minhas asas.
Por mil tubarões! Elas estavam coloridas!
O preto do fraque e das asas havia sido substituído pelo azul da noite, com geometrias, símbolos e psicodelismos em tons laranja, azul claro e dourado neles. Esse azul também coloria meu bico e patas. E o peito e a barriga eram agora da cor do sol, cravejados de estrelas azuis brilhantes como o céu do Polo Sul, formando constelações em mim.
Paralisei diante da única conclusão praquilo tudo.
Estou morto? Será que morri?
– Não, Pen – disse ela – Você está vivíssimo. E acaba de chegar na Cloud.
Ela esticou sua mão delgada lilás com unhas pratas longas e bem cuidadas, que exibia um anel enorme e brilhante em formato de sol em um dos dedos, e me convidou a sentar com ela.
– Vem comigo e eu explico tudo pra você. A propósito, sou Dona Astrô.
E ali, bem assim, nascia a nossa amizade, convívio e parceria. Uma que me levaria a estar lado a lado com ela na SIA, o Serviço de Inteligência Astrológica que Dona Astrô comanda aqui na Cloud, desde a sua invenção pelo Sapiens na Terra. E a me tornar o primeiro pinguim cósmico das galáxias.
A SIA integra o setor que registra a evolução de consciência dos Sapiens, uma espécie experimento do Universo na Terra. Registramos cada sistema e modelo conceitual que essa espécie desenvolve e que vai impactando e mudando a forma desses seres perceberem o mundo deles e o universo – o que, o final das contas, é o que conta. Pra ser honesto, até hoje não entendi bem pra que essa espécie experimento serve, mas deve ser alguma coisa com a evolução, porque aqui, tudo tem a ver com isso! Enfim, vai saber o plano do Uni, né?
E lá se vão dezenas de rotações da Terra ao redor do Sol…

Dona Astrô e Pinguim Pen são personagens que criei para fazer posts usando storytelling pra falar de astrologia e o comportamento nosso de cada dia. #astrostorytelling
