Por muito tempo, ao longo de quase toda a minha vida adulta, me senti errada pelo fato de não conseguir gostar de fazer uma só coisa, nela me agarrar e somente a ela me dedicar.
Nunca consegui ser assim.
Isso fez com que eu me sentisse inadequada e investisse bastante tempo e algum dinheiro em mentorias e terapia, a fim de consertar essa falha. Só para ouvir um mesmo diagnóstico: falta de foco.
Sem conseguir mudar, a cada nova tentativa de solucionar esse problema, eu ficava mais convicta de que o problema era comigo, que minha fiação interna era defeituosa. Ou seja, que euzinha era falha, imperfeita.

Foi durante a pandemia que eu finalmente comecei a me curar. Não porque finalmente me apaixonei por um só assunto ou área, me agarrei a ele e lá permaneci. Nada disso.
Foi sob o céu daquele primeiro ano pandêmico que eu soube, enfim, que havia um nome para a minha natureza plural – e que não era falta de foco. Aquilo que me acompanhava desde o berço e por anos me fizera sentir errada e inadequada se chamava multipotencialidade.
UMA MULTIPOTENCIAL
Multipotencial é aquela pessoa que, ao invés de focar em apenas uma área de interesse, abraça sua natureza plural, se envolve com diferentes universos que lhe fascinam e está sempre descobrindo e fazendo algo novo. E quando o faz, se joga. Vai com tudo. Não poupa energia, atenção ou disposição.
“A multipotencialidade é um termo usado para identificar pessoas que têm diferentes interesses e que desenvolvem diversas competências ao longo da vida. Por conta disso, podem mudar várias vezes de carreira, atuar em diferentes áreas ao mesmo tempo ou combiná-las, criando algo novo. Outros termos que denotam a mesma ideia são polímata e pessoa renascentista”, explica Camila Carvalho nesse artigo.
Sou dessas.
A multipotencial é o oposto da especialista, que gosta de estudar uma só coisa e se aprofunda naquilo mais e mais. É alguém que, como eu, não se interessa por um só assunto. Pelo contrário, constrói uma vida e uma carreira tecendo suas diversas e múltiplas capacidades e interesses.
Outra autora que me ajudou a compreender a força dessa nossa natureza plural e acalmar meu coraçãozinho aflito é Emilie Wapnick, fundadora da comunidade The Puttyverse. Em uma palestra maravilhosa sobre multipotencialidade, ela mostra como a nossa cultura acaba tolhendo pessoas com essa característica, ao invés de incentivar e valorizar toda essa gama de potenciais.
Depois de anos se sentindo ansiosa e errada com sua multipotencialidade (assim como eu), com sua carreira tecida com muitos ziguezagues, Emilie finalmente decidiu abraçar sua natureza plural. Feito isso, iniciou um movimento para que outras pessoas deixassem de tentar se encaixar nos padrões sociais e acolhessem a própria pluralidade. A multipotencialidade.
– Se você é uma multipotencial, abrace suas muitas paixões, siga sua curiosidade, explore suas interseções. Abraçar a nossa fiação interior leva a uma vida mais feliz e autêntica – instiga Emilie.
Infelizmente, a multipotencialidade ainda é considerada falta de foco ao invés de potência na nossa cultura. Talvez menos do que antes, mas não muito, ao que tudo indica.
Há cerca de um mês, fiz um post no meu perfil no instagram sobre essa descoberta e fiquei impressionada com os relatos que recebi, com quantas mulheres também se identificaram com essa mesma experiência e com a multipotencialidade.
Uma leitora me contou que, por muito tempo, se sentiu absolutamente inadequada por não ter um foco. E acrescentou: “que bom que não estou sozinha e que tem pessoas desconstruindo a ideia de que isso é um problema”.
Concordo tanto.
Como é bom saber que não estamos sozinhas, que há muitas pessoas incríveis assim como nós por aí. Gente como Oprah Winfrey, Tati Garcia, Verônica Borges, Karen Garcia de Farias, Kelly Carvalho, Priscila Faria e Lidy Araújo, para citar algumas.
Também compartilho da alegria em saber que mais e mais pessoas estão ajudando a desconstruir essas caixas que aprisionam nossas potencialidades. Uma delas é o britânico Ken Robinson, que defendeu uma educação e uma escola mais criativas ao longo de sua vida.
Sua palestra Do Schools Kill Creativity? (As escolas matam a criatividade?), de 2006, acumula quase 76 milhões de visualizações. Nela, em outros talks e em livros como O Elemento-Chave, ele critica muito o quanto o sistema educacional está defasado e desperdiça talentos.
Para ele, é bastante equivocada a abordagem que mede a qualidade de uma pessoa através de testes padronizados, ao invés de estimular e avaliar as reais capacidades dos estudantes, que podem ser múltiplas. E a “industrialização da educação” vem formando nossas mentes da mesma maneira que o homem explora a Terra: em busca de uma commodity, uma mercadoria específica. E desvalorizando todo o resto.

As palavras de Ken Robinson me remetem ao relato de outra leitora, que contou que, pela primeira vez, em sua vida profissional, trabalha num lugar que gosta e incentiva essas suas capacidades múltiplas. E que, antes disso, “penou muito profissionalmente por não se sentir especialista”.
Quantas de nós já vivemos essa experiência, não é mesmo?
Fico pensando no quanto perdemos todas e todos com isso – como indivíduos e como sociedade. E quanto tempo perdemos na vida, como pontua outra leitora, em função dessa pressão para nos adequarmos às caixas e de nos sentirmos inadequadas.
Perdemos muito. Muito, mesmo.
“A maioria dos problemas atuais no mundo são complexos e multidisciplinares e pessoas criativas, inovadoras e multipotenciais são muito bem-vindas para resolvê-los. Mesmo assim, o mercado de trabalho ainda não absorve esse tipo de pessoa de forma que ela atinja todo o seu potencial” – diz Renata Lapetina, que criou e manteve por seis anos a plataforma Multipotenciais do Brasil, hoje desativada.
“Descobrir que algo como a multipotencialidade existe e que, sim, existem outras pessoas no mundo que agem como você e sofrem dos mesmos questionamentos, é um alívio, não é mesmo?”
Com certeza, Renata. Não só é um alívio, como fortalece a confiança.
Depois de acolher a minha natureza de múltiplos interesses e competências e fazer as pazes com ela, finalmente pude tecer o lilaverso, como chamo essa carreira que mescla jornalismo, comunicação, astrologia, escrita, criatividade e tudo que vai mobilizando minha curiosidade e me fascinando pelo caminho.
Aliás, unir assim nossos talentos, paixões, saberes e potenciais em uma carreira é uma das maneiras de viver a multipotencialidade e ela se chama Três em Um. Existem outras duas, ainda: a das carreiras paralelas, que também vivi quando atuei como astróloga e jornalista concomitantemente. E a das encarnações profissionais distintas, quando não nos parece possível conciliar nossas formações e interesses.
Hoje, entendo que essa tal multipotencialidade me fez escrever romance contemporâneo e coluna social, fazer assessoria de imprensa e apresentar o programa Duas Mulheres Num Sofá (que eu e a talentosa Marla Martins criamos e levamos ao ar em 2018). Trabalhar em redação de jornal e também em balada. Estudar Body Talk e escrita criativa, storytelling e astrologia.
Mais recentemente, essas multi capacidades me levaram a combinar a força da contação de histórias, as mudanças de paradigma da nova cosmologia e do feminismo com a linguagem simbólica dos arquétipos e a ampliação da consciência para propor uma nova abordagem na astrologia e na minha prática.
Saber da multipotencialidade e poder nomear meu modus operandi me ajudou a entender tudo isso e me fez compreender por que nunca sosseguei ou me aprofundei numa só profissão.
Entender de onde vem esse ziguezague todo, que tanto me fez sentir errada, culpada e ansiosa no passado, também tirou o peso daquela sensação de que o problema era comigo. Por isso, escrevi essa news para você. Se esse for o seu caso, se você estiver se achando inadequada ou se culpando por ser uma pessoa sem foco, lembre-se que isso nem sempre é um problema. Talvez, você seja uma pessoa de múltiplos talentos, competências, interesses. Uma multipotencial.
SEJA MAIS QUEM VOCÊ JÁ É!
Quem também defende que abracemos mais e mais a nossa natureza e a nossa fiação interna é Sally Hogshead, criadora da plataforma How to Fascinate (Como fascinar).
“Você não precisa mudar quem você é, você precisa se tornar mais quem você é”, diz e repete Sally em palestras, livros, vídeos e em todo o seu trabalho.
Conheci essa autora através da Jaque Girardi-Pauly. Recentemente, Jaque fez um post bem legal sobre Sally, contando que as ideias e obras dessa mulher genial têm pautado o seu trabalho de branding há mais de dez anos. Há sete, elas vêm inspirando o meu.
Em um de seus livros, How the World sees you: discover you highest value through the Science of Fascination (Como o mundo vê você: descubra seu maior valor através da ciência do fascínio, em tradução livre), Sally mostra como a combinação de dois potenciais nossos resulta num arquétipo que traduz a nossa natureza.
Fiz o teste sete anos atrás e achei o resultado cirúrgico.
A combinação de paixão/conexão com criatividade forma o arquétipo da Catalyst, o que foi atribuído a mim. A catalisadora, diz Sally, instiga a necessidade de repensar o lugar comum e provoca novas ideias. Ela causa a fagulha que faz pensar: poxa, é isso! E incendeia mentes e corações. Seus principais adjetivos são fora da caixa, entusiasmada, empolgada, criativa e contagiante.
Muito minha essência, mesmo.
PS DA LILA
1 Apesar de desativado, o perfil @multisdobrasil tem posts bacanas e muito material interessante sobre multipotencialidade
2 Toda essa prosa me fez lembrar da clássica canção dos anos 80 da banda Journey, Don´t Stop Believin´, que virou hino da série Glee. Adoro assistir vídeos dessa série (que fui muito fã). Muitos deles, como esse aí, com a canção hino de Lady Gaga, me inspiram e me fazem levantar da cadeira e dançar dançar. Dança comigo?
