A experiência humana é construída, desde sempre, por histórias, como afirma a autora e roteirista Sônia Rodrigues em sua palestra para o TEDxLaçador. “Há 29 séculos, mais ou menos, as histórias escritas vêm garantindo o nosso sentido de humanidade”, diz ela.
Eu sou fascinada pelo poder das histórias e dos romances. Estudo esse tema desde 2013.
Tem autores e pesquisadores incríveis que explicam como as histórias fornecem ao cérebro, que está sempre buscando padrões que lhe garantam a sobrevivência, pistas de como evitar o que ele mais teme: o inesperado, o desconhecido.
Uma delas é Lisa Cron. No livro Story Genius, ela apresenta a visão da neurociência sobre essa potente ferramenta de transformação. Ela explica como as histórias fornecem ao cérebro, pistas de como evitar seu maior temor.
Para a psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, autora do clássico Mulheres que Correm com os Lobos, as histórias trazem instruções que nos ensinam a lidar com as dificuldades e desafios e direcionam os caminhos da alma. E o escritor Neil Gaiman diz, em Coraline, que contos de fadas nos ensinam que dragões podem ser derrotados.
Aliás, foi por isso que surgiram as lendas e os mitos. Ao descreverem padrões de desenvolvimento e experiências psicológicas e éticas que todos nós vivemos internamente, lendas e mitos permitem que o nosso universo interior se identifique imediatamente.
A psicóloga e astróloga Liz Greene explica isso, dizendo que os mythos (palavra cuja origem significa história, relato) nos permitem ‘constatar a nossa ligação com as forças da natureza e os eternos desígnios humanos’. E também as nossas contradições.

Quantas vezes euzinha encontrei, na ficção, um lugar pra dar vazão aos meus sentimentos e angústias e também me inspirei e encontrei (outros) possíveis caminhos.
É assim, diz ela, è assim que as histórias nos ajudam a encontrar caminhos e inspiração em momentos de dramas reais, de incertezas, de desafios e dificuldades, e a acolher vulnerabilidades e verdades.
E é tão importante isso, né?!
Inspirar, esperançar, ajudar a segurar a mão de alguém!
Em Story Genius, Lisa também conta que as histórias foram a primeira realidade virtual a qual tivemos acesso. Estudos desenvolvidos pela neurocientista Mary Immordino-Yang na University of Southern California, que analisaram o cérebro enquanto as pessoas ouviam histórias comoventes, mostraram que elas se identificavam com as narrativas e seus personagens em um nível visceral, reportando fortes ondas emocionais.
“Ao compartilharmos indiretamente as sutilezas e atribulações da história, e ao fazer inferências sobre o desenvolvimento da trama, expandimos nossa empatia. Ou seja, alinhamos nossas emoções e pensamentos com os dos personagens”, reforça o professor Keith Oatley, professor e especialista em psicologia da ficção.
“Nosso inconsciente é um leitor infatigável que está continuamente aprendendo − quem lê, interpreta a partir de seu inconsciente”, disse o psiquiatra e psicanalista David Dorenbaum em uma coluna sua publicada no jornal El País.
É incrível, também, ver como essa estrutura das histórias influencia outras áreas que falam do nosso mundo interior, como o tarot, por exemplo. Há uma forma de leitura chamada Sacred Quest (Busca Sagrada) que baseia a disposição de suas cartas, os arcanos, nos mitos e lendas, exatamente com o propósito de evocar o mesmo poder de resolução das histórias.
Aliás, falando em tarot e histórias, o escritor italiano Italo Calvino dizia que, com suas imagens carregadas de simbolismo e repletas de significados, o ‘Tarot é uma máquina para contar histórias’. O que faz todo o sentido, já que o jogo do Tarot, além de ser uma grande história arquetípica sobre o contínuo processo de aprender a vencer medos e desafios ao abraçarmos a mudança e nos lançarmos num novo desconhecido vida afora.
Sabendo do poder dos romances e da necessidade de contarmos novas histórias, me uno à atriz e cineasta Brit Marling, que propôs em artigo no Medium:
“Escavar, ensinar e celebrar o feminino através de histórias é, dentro de nossa emergência climática, uma questão de sobrevivência humana. O momento em que começamos a imaginar um novo mundo e a compartilhá-lo através de histórias é o momento em que um novo mundo pode realmente vir”.
Eu acredito tanto nisso, gurias! E, como o curso de História das Mulheres me ensinou, já tem muitas mulheres trabalhando nisso. E não é de hoje.
Por tudo isso, se antes eu já amava as histórias, quanto mais estudo e leio sobre elas, mais me fascino por seu incrível poder de transmitir conhecimento, transformar pessoas e, assim, mudar o mundo.
Seguimos!
