Precisei fazer um tratamento “de ataque” com corticoides na semana passada pra combater um bichinho oportunista. E, amiga, fiquei impressionada com o impacto dessa medicação no meu corpo.
As altas doses me deram uma inquietação, uma energia extra, que demandaram ação e mão na massa por aqui.
Limpei geladeira, organizei panos, arrumei arquivos no computador, fiz backup no hd externo, lavei e estendi roupa enlouquecidamente!
Agora, mesmo tendo reduzido gradativamente a dose e descontinuado o dito cujo, ele segue me fazendo borbulhar/transbordar ação por aqui!
Diz o médico que logo passa. Assim espero, pois isso também escalou minha ansiedade e eletricidade.
Algariada é uma ótima palavra pra descrever meu estado atual.
E haja caminhada no parque, flow e exercício de respiração pra lidar com tudo isso. E conseguir sentar a bunda na cadeira e trabalhar.
Em meio a toda essa montanha russa de atitude, tô aproveitando a energia disparada pelo corticoide na criação do meu novo universo de ficção. Isso, por sua vez, me trouxe consciência de uma forma mais leve, nova e suave de me relacionar comigo e com o meu processo criativo.
Nesses dias, tenho aprendido a fazer a minha parte. A fazer tudo que posso agora, aqui.
Tenho trabalhado com a certeza de que estou usando todas as ferramentas que tenho, e que estou entregando tudo que tenho disponível agora, nesse momento, para que as musas, ou a inteligência criativa do universo imbuída no espírito desse nosso tempo, façam a parte delas.
Aliás, foi ouvindo e lendo as orientações de autoras e autores sobre escrita- como Elizabeth Gilbert em Grande Magia, Steven Pressfield em A Guerra da Arte e Ray Bradbury em A Arte Zen da Escrita -, que aprendi a confiar nesse processo de entregar tudo e me entregar. E venho vencendo todos os dias a resistência, o sabotador, o predador natural que habita toda alma (de artista, principalmente).
Se você tem embates com seu processo criativo, sugiro demais a leitura deles, que vai muito na linha do que venho compartilhando no Clube de Astrologia para Mulheres e já escrevi texto aqui: se fôssemos ensinadas a seguir os nossos fascínios, a nos comprometer com o que realmente tem significado pra nós, como a vida seria mais leve e suave.
Enfim, sempre é tempo de aprender. Afinal, somos seres em constante construção.
Veja como o feminismo mudou pra sempre as lentes com as quais eu vejo o mundo. E com as quais eu escrevo, crio, invento e faço o meu trabalho – o que só ficou ainda mais claro, enquanto eu lia o capítulo “viver sob uma ética amorosa” do livro tudo sobre o amor de bell hooks.
Nele, a autora faz uma defesa linda de que sejam os valores da ética amorosa a construir as imagens e narrativas daquilo que nos entretém. E não exatamente o que estou fazendo?
Ontem, ainda, eu falava isso com a @suzanaveiga na nossa tarde feliz.
Eu não quero só escrever um romance romântico contemporâneo. Eu quero inserir novos valores nele, na forma como eu componho a história, alinhados com essa visão de mundo que não mais exalta a dominação de uns sobre os outros, e que apresenta e valoriza uma jornada guiada pela ética amorosa (aquela na qual o amor está presente, e faz com que o desejo de dominar e exercer poder saiam de cena).
Foi exatamente por isso que me apaixonei pelo modelo narrativo da Jornada da Heroína proposto pela autora Gail Carriger. Nele, os tijolinhos/beats que usamos na construção da história valorizam a conexão, as redes, a comunidade e o compartilhar, ao invés da viagem solitária por vingança e/ou redenção do herói, que, por séculos e séculos, tem sido perpetuada, influenciando a nossa visão de mundo. Essa narrativa é o puro suco dos valores do patriarcado e de suas instituições. E está mais do que na hora de aposentá-la.
Amo muito participar desse esforço coletivo de semear novas ideias e valores no imaginário coletivo – o que já fiz na astrologia e, agora, faço no mundo do romance pop. Trabalhar com a criação de novas narrativas e imagens que promovam uma outra forma de nos relacionamos entre nós e com os demais seres.
Que possamos nos tornar mais e mais pessoas fazendo isso.
Imagem: Brenda Godinez/Unsplash
