“Não toque a ferro a parte do corpo regida pela Lua”
Esse foi um dos primeiros ensinamentos que minha professora de astrologia, a querida Wanda Carneiro, me transmitiu. O ano era 2004 e eu seguia o fascínio que Venusa provoca em nós, apontando os caminhos do coração e que o universo sussurra para o nosso florescer.
Após intenso convívio, questionamentos e conhecimento recebido dela, três anos e muitas aulas depois, eu me despediria da minha primeira mestra, que não resistiu a mais um ataque de um câncer que lhe acompanhava há muitas revoluções. Em homenagem à mulher que me iniciou na linguagem simbólica divina dos astros, as estrelas andantes do céu, nesta edição quero compartilhar esse pedacinho de sabedoria que dela recebi, honrando quem veio antes de mim e mantendo viva sua memória e seu legado astrológico.
Um ensinamento atribuído a Hipócrates diz o seguinte: não corte ou perfure a parte do corpo associada ao signo onde Lua (Luna, na astrologia mulheril) está no momento do procedimento. Claro que isso não vale para situações nas quais a vida está por um triz e em risco, sendo necessária uma ação imediata. Como tudo na vida, quando não há pensamento crítico e discernimento, a chance do fanatismo tomar conta e criar superstições e problemas escala, como temos visto acontecer com o movimento anti vax e alguns seguidores da cientologia. Tudo que acorrenta a mente, o coração e a imaginação por medo (principalmente, de algum tipo de punição) facilmente se transmuta em ferramenta de manipulação e faz florescer a dominação e o controle.
(Aliás, mulheres, eis porque desde o início a reviravolta no céu que propus tem sido exatamente a de usar a linguagem simbólica da astrologia como ferramenta de autonomia, poder pessoal, autodeterminação. Autoconhecimento com propósito de libertação e florescimento e não mais submissão ainda. Chega, né?)
Como expliquei na edição de março da revista Ginetopia, na perspectiva mulheril, Luna (a Lua) é a astrodeusa que sinaliza o que te nutre, te faz se sentir segura, em paz contigo mesma, que mantém o teu bem-estar e te dá consciência de tudo aquilo que te ajuda a preservar a segurança fisiológica e emocional, o teu equilíbrio interno e a vida pulsando em ti. Luna também representa e responde pela homeostase, uma das forças que opera em todo o universo e em nós, que o cosmólogo Brian Swimme apresenta na sua obra Cosmogenesis, numa série de palestras e no curso Powers of the Universe (Forças do Universo).
Para Brian, a força chamada homeostase é a forma como o universo preserva aquilo que é importante para ele e sua expansão, fora e dentro de nós. O mesmo ocorre conosco – preservamos aquilo que mantém o nosso equilíbrio interior, nos nutrindo e preservando a vida e sua expansão em nós e através de nós. Reside aí o papel das memórias associadas à Luna: elas nos ajudam a lembrar o que preserva e nutre corpo, alma, mente e espírito com vida. No momento em que alguma delas deixa de nutrir e passa a desnutrir, gerando desequilíbrio, seremos convidadas a mudar a percepção.
Isso sempre me lembra de uma cena de Num sofá de bolinhas: amor & terapia, romance que escrevi com minha prima psicóloga Ana Rizzon, no qual Alice, a psico da protagonista Babi, lhe explica como as estratégias de sobrevivência que criamos em função do ambiente que estamos inseridas na infância, por funcionarem nesse momento, se cristalizam na nossa psique. Porém, acabam se tornando obsoletas (e, muitas vezes, até disfuncionais) para a adulta que nos tornamos. Como explica Alice para Babi: “a estratégia nasceu como um martelo para prego, mas quando a vida te ofereceu parafuso não funcionou”. É aí que entra em ação a força da transmutação com seus cataclismos.
Mas o que tudo isso tem a ver com a frase do início? Explico.
O paradigma da astrologia mulheril se fundamenta na nova compreensão do universo, nascida no século 20: a de que ele, o universo, não é simplesmente um lugar, mas um processo criativo em desdobramento, um imenso manancial de possibilidades de vir a ser. Ou seja, o universo segue se construindo, a partir das relações, das interações que vai fazendo em contextos e momentos distintos, sempre guiado pelas mesmas forças que, há 14 bilhões de anos, deram origem aos átomos, às estrelas, à galáxias e planetas, à vida na Terra e todas as formas de existência – inclusive, a humana. Eu e você
Assim como se dá em todo o universo, nossa existência é um processo criativo em desdobramento, uma grande trama sem desenho prévio, que vai sendo tecida momento a momento por nós e pela vida. Mais especificamente, por nossas escolhas diante do que a vida e o universo propõem, a partir das possibilidades que o contexto oferta no momento.
Eis porque as relações entre as astrodeusas num mapa natal nos dão a capacidade de reconhecer a nossa natureza: somos filhas da trama de um momento-tempo do universo, de um emaranhamento de relações de possibilidades de desdobramentos no espaço-tempo, cujos diálogos das mulheres planeta espelham e nos ajudam a nomear. Assim como as relações entre elas nos dão clareza e, mais uma vez, nos ajudam a nomear aquilo que sentimos nos atravessar num momento: os convites que a vida nos faz em nome do universo que já se desdobram em nossas entranhas e nas da Terra.
Não é lindo e fascinante demais tudo isso? E essa nova compreensão do universo?
A mim encanta saber que somos participantes (junto com todos os demais seres e formas de existência) de uma história de milhares e milhares de capítulos; e que, dentro dela, como protagonistas da nossa própria trama, também colaboramos com os desfechos e plot twists do grande épico cósmico que se desenrola em real time.
Posto tudo isso, voltemos à frase atribuída a Hipócrates.
Então, se uma cirurgia ou procedimento invasivo é eletivo e você pode escolher a data, se for esse o caso, ao invés de olhar para a posição de Luna no zodíaco com temor ou medo, pense na posição dela como uma aliada, com uma forma de cooperação entre a vida e você. Escute seus sentimentos, acolha os medos, converse sobre eles com quem lhe entende, silencie para se conectar com sua intuição, com as imagens e alegorias que lhe conectam ao sagrado, ao transcendente, à alma do mundo. Só depois disso, olhe para o céu e, se possível e se fizer sentido, evite tocar a ferro, cortar, perfurar, a parte do corpo regida por Luna.

Abaixo, deixo um breve guia para você. Antes disso, saliento que, como tudo o que diz respeito ao universo, qualquer estudo astrológico se debruça sobre um emaranhamento de relações. O de uma cirurgia não é diferente. Além do signo em que se encontra Luna, outros indicadores são avaliados nesta análise. A posição dela no zodíaco é o básico, digamos assim.
ÁRIES
Cabeça, crânio, couro cabeludo, face, glândulas suprarrenais
TOURO
Pescoço, garganta, laringe, amígdalas, boca, língua, cordas vocais, tireoide, artérias carótidas e veia jugular
GÊMEOS
Aparelho respiratório, pulmões, traqueia, faringe, timo, costelas superiores, ombros, braços, mãos, dedos
CÂNCER
Estômago, esôfago, abdômen, seios, glândulas mamárias, útero, ovários, sistema linfático
LEÃO
Coração, aorta, tórax, lombar, medula
VIRGEM
Intestino delgado, aparelho gastrintestinal, pâncreas
LIBRA
Rins
ESCORPIÃO
Colo descendente, intestino grosso, reto, órgãos sexuais e reprodutivos (pênis, vagina) próstata, aparelho urinário
SAGITÁRIO
Quadris, coxas, fêmur, região sacro, fígado, pâncreas, veias, sistema circulatório
CAPRICÓRNIO
Joelhos, ossos (inclusive a coluna), dentes, juntas, pele e vesícula
AQUÁRIO
Pernas, tornozelos, calcanhares, veias, vasos e capilares, sistema circulatório
PEIXES
Pés e seus dedinhos, sistema linfático
