Escrever cartas tem sido uma prática criativa, espiritual e curativa, ao longo da minha vida, no sentido de abrir espaço para vislumbrar novas possibilidades e entendimentos.
Três anos e meio atrás, no auge da pandemia, inspirada pelas palavras de Valarie Kaur e Clarissa Pinkola Estès, sentei e escrevi uma carta linda da Mulher Sábia e Forte que me habita para uma Lila então atravessada por angústias fruto de uma baita transformação. Ainda vivendo a fase crisálida, era difícil entender e lidar com tudo aquilo. Escrever a carta e deixar fluir o que essa Mulher tinha para me dizer naquele momento através da escrita foi potente.
Bem antes disso, eu já escrevia cartas para dialogar sobre situações da minha vida, mas com figuras de santos e santas. Dessa prática, nasceu minha primeira personagem publicada: Gabi Rezzabraba, uma jovem mulher nos seus vinte e poucos que escrevia cartas para Santo Antônio, falando sobre o seu cotidiano, suas esperanças, perrengues e sonhos. Suas cartas-desabafo eram publicadas semanalmente num portal gramadense, onde a história se passava, lá nos idos de 2006/2007.
Acredito na escrita com intenção como uma prática potente e transformadora. Por isso, volto a recorrer a elas, as cartas, nesse momento tão difícil que atravessamos. Dessa vez, em dois projetos que alegram muito o meu coração.

PARA O COSMOS
Um deles, que acaba de estrear no Apoia-se, é Querido Cosmos.
A cada nova lunação, escrevo uma carta para o Cosmos, dialogando com ele sobre o mapa do mês (entenda mês aqui como o intervalo entre uma Lua Nova e outra), sobre e os movimentos (os trânsitos, como chamamos na astrologia) dos planetas.
Junto a essa carta, acompanha um vídeo com uma sugestão de uma prática para o mês. É algo mais ou menos assim: eu passo uma instrução, uma ideia, e a apoiadora deixa sua imaginação desencadear a forma como vai fazer a sua prática. Depois, compartilhamos impressões e vivência/experiência entre nós na plataforma +avas, a morada da comunidade do lilaverso.

Esse formato de carta me permitiu dialogar sobre o céu de cada mês de uma maneira mais alinhada comigo e com minha proposta de potencializar a criatividade e a nossa capacidade de imaginar e vislumbrar o novo e de inspirar encantamento com o cosmos, a natureza e a vida, sempre a partir de um paradigma de ética amorosa.
Falando em ética amorosa…
PARA O CORAÇÃO
Martin Luther King dizia que há um grande poder benigno no universo, uma força “capaz de abrir caminho onde não há caminho”. Assim como ele, acredito nessa força. E tal qual diz a escritora Liz Gilbert em sua newsletter, também acredito que “há uma inteligência magnífica no universo que é gentil além da medida, e que só procura nos conhecer e ser conhecida por nós”.
Faço parte desse time aí, o dos que acreditam que há muito mais gentileza, amorosidade e magia (maravilhamento, encantamento) disponíveis no cotidiano do que imagina a nossa razão.

Temos muita dificuldade em reconhecer e nos conectar com essa força, essa inteligência amorosa, e até mesmo torcemos o nariz para a ideia dela, porque nossas consciências foram ensinadas a desprezar tudo aquilo que não pode ser explicado pela lógica, pela racionalidade. Fomos educadas para menosprezar a intuição e a sabedoria do corpo.
Assim tem sido nos últimos 400 anos, principalmente.
Essa desconexão abriu caminho para um mundo desencantado, desiludido e profundamente adoecido pela inexistência da consciência de pertencimento, que é tão essencial à nossa existência. Isso vem deixando a alma faminta de algo que lhe é vital: significado. Gostemos ou não, somos seres movidos por significado. Não fosse assim, jamais teríamos criado a arte, os mitos, as histórias e tantas outras linguagens simbólicas que nutrem nosso mundo interior.
Fruto disso, vivemos uma epidemia de falta de amor e de formas de existir que celebrem a vida como a comunhão de subjetividades, de gentes, de seres, de diferentes formas de existência, que ela é. Adoecidos por essa consciência de desconexão, fomos abrindo caminho para a destruição do planeta, da vida como conhecemos aqui e de nós mesmas, dos nossos mundos interiores. Das nossas subjetividades.
Para escritoras como eu, Elizabeth Gilbert, Julia Cameron e Richard Tarnas, entre outros, a escrita com intenção é uma maneira de nos conectarmos com essa inteligência, essa força, esse poder, essa dimensão criativa presente no cosmos, em nós e que atravessa a nossa existência aqui. E também uma prática potente e transformadora.
Movida por essa ideia, além das cartas para o Cosmos, preparo um outro projeto para esse mês de junho, também envolvendo a escrita de cartas.
São as Cartas para o Coração.
Nele, a apoiadora receberá uma carta de uma mulher ancestral, que é como eu represento na astrologia mulheril os planetas astrológicos e seus arquétipos.
Com essas cartas, chegará junto um convite para ela escrever cartas a essas mulheres e dialogar com essas forças cósmicas que nos habitam sobre o tema que é abordado na carta. Com isso, quero oferecer uma prática potente e linda de autorrecuperação e de conexão com essa dimensão criativa, gentil e amorosa do cosmos, a exemplo do que eu fiz em 2021 e inspirada no que Liz Gilbert vem fazendo em suas Letters from Love (Cartas do Amor, em tradução livre).

Para isso, vou ensinar quem apoiar o projeto a escrever essas cartas, mostrando como eu faço para abrir minha imaginação e compartilhar essas mensagens. Para aderir a essa prática, você não precisa ser uma escritora, uma criativa, uma expert em texto, nada disso. Tudo o que precisa é abrir o coração e a alma e deixar as palavras fluírem de forma simples e espontânea, diretamente da alma (a sua e a do mundo) para as pontas dos seus dedos, se permitindo escrever.
E quem só quiser ler a carta e não escrever carta alguma, tudo certo também. Não precisa fazer nada, só ler e se deixar tocar e sentir. A escolha de fazer ou não é e sempre será de cada uma.
MAIS AMOROSIDADE, POR FAVOR!
Com esses dois projetos, mais do que construir uma comunidade conectada por essa maneira de dialogar com o saber astrológico e com a vida, também quero incentivar que a gente adote uma forma mais gentil, amorosa, afetiva, de dialogarmos e nos relacionarmos com nós mesmas e com a vida nossa de cada dia, sem perder o olhar crítico sobre a realidade e a força das construções sociais sobre nós.
Se antes eu já acreditava nisso, após as enchentes no RS, fiquei ainda mais convicta. É hora de mudar consciência, percepção e paradigma de mundo, reintegrando à consciência a compreensão de pertencimento à natureza, da comunhão de subjetividades, de gentes, de seres, de diferentes formas de existência e de celebração da vida.

Falando nas enchentes no RS…
RECUPERAÇÃO & DOAÇÃO
Enquanto as águas baixam e montanhas de lixo e restos das vidas destroçadas pela lama se avolumam nas ruas, fica cada vez mais claro o papel da negligência, da irresponsabilidade e do descaso das gestões Eduardo Leite no governo do Estado e Sebastião Mello na prefeitura de Porto Alegre, na tragédia política-climática que devastou o RS, assim como da ganância de setores apoiados por deputados, vereadores e senadores, que seguem passando a boiada no Legislativo.
Enquanto alguns se ocupam de destruir ainda mais o que restou, tem muita gente mobilizada pra ajudar quem perdeu tudo, tudo, tudo. Deixo aqui, duas sugestões de doação.
A primeira tá sendo capitaneada por meu irmão leonino, que vem trabalhando incansavelmente há um mês exatamente, desde o sábado de 04/05, para ajudar moradores do bairro Mathias Velho, em Canoas. A mais recente campanha dele é para a compra de kits de limpeza, colchões e mantinhas quentinhas de soft. O pix dessa campanha é 5199584.5454
A outra sugestão é ajudar três famílias de agricultores da Feira Ecológica Auxiliadora que perderam não só toda a sua produção, mas tudo que tinham em suas casas – uma delas é a do Seu Daniel, que contei aqui na última news. Moradores de Eldorado do Sul, uma das cidades mais atingidas pelas águas e pela lama, eles estão sem recursos até mesmo para voltar a plantar. Bora ajudar? O pix para essa doação é 51995344325 e está no nome da Alice, filha do Seu Daniel.
Quem doar qualquer valor para uma dessas campanhas, vai receber minha gratidão e um pdf com a primeira carta da série Querido Cosmos, falando sobre o mês de junho a partir do mapa da Lunação dessa quinta-feira, dia 06/06. Só mandar o comprovante por email pra mim, que eu respondo, enviando o pdf. Lembrando que pode ser qualquer valor!

O QUE FAZEMOS COM O QUE SABEMOS?
Pra finalizar a news de hoje, compartilho as palavras da Carol Pogliessi publicadas na sua mais recente newsletter do seu Funcional Flow. Nos diz Carol:
“A gente sabe também que embaixo dessa água toda que nos cobriu no mês de maio tem um projeto de mundo ao qual não importa a natureza, nem água, luz, terra e vento, tampouco plantas e todos os seres, os bichos, as pessoas. Por trás desses dias difíceis que estamos passando, e ainda vamos passar, tem um projeto sendo muito bem sucedido que busca cereais e minérios, exploração, uma neocolonização. Até quando o mundo terá recurso?! Um projeto que nos enxerga como mão de obra e/ou consumidores. Não importa muito onde a gente mora, se tem esgoto, se tem acesso, se tem o risco do rio subir, se as bombas de água estão funcionando, nesse projeto de mundo não importa a vida digna de todos os seres. Esse projeto de mundo acontece em Porto Alegre, acontece no Rio Grande do Sul, acontece no Brasil e no mundo. Para esse projeto não importa o sofrimento das pessoas. Inclusive esse projeto de mundo lucra com o desastre. A gente sabe? E o que fazemos com o que sabemos?
… o ponto de partida é conosco, é a consciência primeira, estar presente em si, pra também estar presente no coletivo, pra quem sabe, a partir de uma ideia genuína de solidariedade pensar junto, o que fazer com o que sabemos. Na sutileza do cuidado interno, na busca por cuidar da minha natureza, eu inicio uma aproximação tão linda e amorosa comigo que só pode reverberar no cuidado do outro e do que nos cerca. … Quem sabe juntos, a gente possa resgatar o cuidado à natureza e às pessoas. Quem sabe juntos, a gente possa voltar a gostar de sentir a água por perto e desfrutar da abundância da vida. Aliás, tenho a impressão que a única saída é coletiva.”
Eu também, Carol.
Compartilho dessa sua impressão. Obrigada por colocar em palavras.
