Lendo Story Genius, da autora Lisa Cron, que traz estudos da neurociência sobre a nossa relação com as histórias, aprendi que o cérebro é um buscador-rastreador incansável de padrões que garantam a nossa sobrevivência. Isso me fez entender, por exemplo, por que a gente tem essa tendência tão forte de optar pelo caminho conhecido, adotando um comportamento à la “em time que está ganhando não se mexe”, ao invés de arriscar e testar algo diferente. E por que, por mais que se ame o novo, sempre há uma certa desconfiança em relação à mudança.
Apesar da nossa relutância, a vida parece não se importar nenhum pouco com nossos medos e receios e, com frequência, esfarela o chão já gasto pelo nosso pisotear constante e nos lança num caminho totalmente novo e desconhecido. É aí que as histórias entram, já que funcionam como uma espécie de treinamento e de antecipação de cenários futuros possíveis para o cérebro.
Lisa conta que as histórias funcionam como uma espécie de realidade virtual para o cérebro, ajudando a evitar o que ele mais teme na vida: o inesperado, o desconhecido, coisas que ele classifica como caos e ameaças em potencial. O que as histórias fazem, portanto, é fornecer ao nosso cérebro possíveis caminhos e soluções de problemas que possam surgir em seu caminho.
Quem também fala sobre isso e acho interessante pra caramba é a psicóloga Carol S Pearson. No livro Persephone Rising (O Despertar da Heroína Interior: a Ascensão de Perséfone e Outros Mitos e Arquétipos na Jornada do Herói), ela diz:
“Contar histórias é curativo. Em novas situações, com frequência, o que é preciso são novas histórias, que podem nos ajudar a criar um mapa para uma nova jornada e a nos segurar, quando essa jornada parece estar desmoronando. Essa história pode ser como alguém em quem a gente se segura quando parece estar caindo”.
Para ela, além de servir como mapas que nos orientam e guiam e fontes de apoio emocional em momentos de forte oscilação e desafios, mitos e histórias nos ajudam a encontrar sentido e direção.
Carol ensina, ainda, que as histórias que nos contamos têm o poder de moldar a nossa psique. Não só as que escolhemos ler para nós mesmas, mas também aquelas que criamos a nosso respeito e que, muitas vezes, são carregadinhas de autocrítica, julgamentos, muito dedo apontado e zero compaixão e ternura por nós.
Uma das grandes criadoras dessas histórias internas é a Sabotadora. O arquétipo da Sabotadora na astrologia mulheril tem muita conexão com o do Barba Azul que a psicanalista e escritora Clarissa Pinkola Estès apresenta no livro Mulheres que Correm com os Lobos.
Sou encantada pelas palavras e obra dessa mulher, que tem livros lindos, singelos e profundos como O Jardineiro Fiel e A Ciranda das Mulheres Sábias. Com ela, aprendi que, além de fonte de sabedoria, as histórias podem ser terapêuticas e até mesmo veículos de cura. E que elas não só nos ensinam a lidar com desafios, mas também direcionam os caminhos para a alma.
Voltando à Sabotadora, dialogo bastante sobre essa mulher ancestral e força que nos habita com as integrantes do Clube de Astrologia e com as mulheres que fazem mapa astral comigo. Acho impressionante como a Sabotadora pode ter um volume tão alto em muitas de nós, nos levando a desacreditar, julgar e criticar a nós mesmas, e até nos deixando em posição fetal em alguns momentos, sempre tentando aniquilar e reduzir nossos sonhos (e a nós) a pó.
Como digo e repito nessas conversas, apesar de não ser possível eliminá-la das nossas mentes, podemos aprender a reconhecer sua voz e diminuir a força que ela exerce sobre nós.
Uma forma de fazer isso que eu adoro é a prática da autocompaixão, idealizada pela professora de psicologia Kristin Neff. Neste TedTalk, ela mostra como essa prática nos ensina a tratarmos nós mesmas com toda a gentileza e cuidado que dedicamos às nossas amigas mais queridas e pessoas mais estimadas.
Outra maneira que eu amo é a prática de escrita com intenção. Sou apaixonada pelas Cartas do Amor (Letters from Love) da Elizabeth Gilbert, que trazem muito da autocompaixão nelas, também. Além dela, agora também tenho as Cartas ao Coração, que criei inspirada em todas as mulheres que citei aqui e em bell hooks e sua prosa sobre autoamor. Com essas cartas, ofereço a mim (e, a partir dessa semana, a quem interessar possa) uma prática criativa e potente de autorrecuperação, e uma ferramenta pra acessar essa parte nossa que é pura potência e mudar e mudar histórias e diálogos internos.
Creio que essas práticas nos mostram que podemos combater a Sabotadora, diminuindo sua voz e sua força em nós, com essas práticas, que fornecem ao cérebro um outro tipo de padrão de relacionamento com nós mesmas. Creio que essa prática pode me ajudar não só a mudar histórias nada legais que eu me conte, mas a acessar com mais frequência esse lugar de potência amorosa que está sempre à nossa disposição.
