Como já contei, conforme fui compreendendo mais e mais as arapucas conceituais criadas pelo patriarcado para manter nossos sonhos, mentes e vozes aprisionadas, condicionadas e silenciadas, mais meu olho se acostumou a identificar por aí construções patriarcais que o clube dos brothers criou.
Entre elas, as que reconheci na astrologia.
Como sistema simbólico construído a partir de narrativas míticas e arquétipos que é, a astrologia está impregnada dessas construções – como conto no meu livro Reviravolta no Céu.
Reconhecer essas estruturas me inspirou criar Dona Astrô Feminista e uma leitura de mapa astral voltada para mulheres, que é despida de conceitos que perpetuam a lógica patriarcal de divisão hierárquica entre superior/ativo/masculino e inferior/passivo/feminino.
Me recuso seguir cultivando qualquer construção que perpetue ideias e valores que até hoje geram tamanha violência contra a mulher e a Terra.
É por isso que eu mudei a minha leitura da astrologia e do mapa astral.
Acredito que, despidos dos valores patriarcais, ambos são uma potente e valiosa ferramenta de autocompreensão e conhecimento que nos dá consciência da força da nossa presença e voz no mundo.
Além disso, adotando uma nova linguagem, também vamos criando novas narrativas pessoais e coletivas e, com elas, outras formas de ser e estar no mundo e de nos relacionar entre nós e com os demais seres.
Algo que precisamos, urgentemente!
Quer fazer o mapa astral com nova essa visão?
AS MUDANÇAS QUE FIZ
1
Ao invés de casamento sagrado do Sol com a Lua, eu uso o TAO sagrado. Porque o casamento foi um importante instrumento de dominação criado pelo patriarcado com o propósito de manter a mulher submissa e presa à vontade de um homem.
2
Faz mais sentido qualificar planetas, arquétipos e signos por atributos e não mais por palavras e imagens que remetam a gêneros.
O yin, a noite e a escuridão representam o inconsciente, o repouso, o vazio, o desconhecido, o recolhimento, o mistério, a alma, a capacidade de conceber novas ideias.
O yang, o dia e a luz simbolizam a ação, a consciência, a exposição, o conhecido, o espírito, a vontade, a capacidade de implementar nossas ideias no mundo.
3
Como minha proposta é abandonar construções simbólicas que seguem a lógica patriarcal de divisão hieráquica por gênero no nosso imaginário, faz muito mais sentido, pra mim, falar da existência do sagrado, essa dimensão misteriosa da vida, sem divisão alguma em masculino e feminino.
Isso não significa, no entanto, abrir mão da presença das figuras das deusas e seus simbolismos potentes que dialogam com nossa alma e psique. Pelo contrário, venho buscando referências simbólicas femininas pra associar aos arquétipos astrológicos até então representados apenas a figuras de deuses masculinos na astrologia. Mas pra isso, novas histórias e construções/releituras de mitos são necessárias.
Sabendo que a hegemonia de um sagrado masculino é um conceito institucionalizado por homens, como uma forma de ter poder sobre as mulheres e alguns grupos, o que atribui à religião uma função política de controle, compreendo o movimento de contestação e discordância à narrativa hegemônica que há na exaltação das figuras de deusas.
4
Adotei a Terra na leitura, que forma o eixo Terra-Sol no mapa astral. O eixo Terra-Sol ajuda a compreender como irradiar e florescer a nossa singularidade no mundo, contribuindo para o bem-viver nosso e o de todas e todos os demais seres aqui.
Como isso vai de fato se desdobrar e acontecer na vida sua de cada dia é algo muito particular de cada pessoa e que depende das interações entre os planetas do seu mapa e as muitas possibilidades que cada combinação propõe, assim como da sua socialização, daquilo que você apreende da cultura da sua família, do seu entorno, do seu lugar
O eixo Terra-Sol também simboliza a autoconsciência que compreende que, pra existir, o self/eu precisa de um solo, de um corpo. E que ele só existe porque a Terra e todos os seus sistemas existem.
5
Por fim, Vênus!
O que o planeta simboliza é muito mais que romance e beleza!
É uma potência que teve seus atributos reduzidos pelo patriarcado à beleza, desejos fúteis e amor romântico. E, não por acaso, ao ciúme e àquela que semeia discórdia por disputa de beleza.
Não, essa associação aí não foi por acaso. Foi pra colocar a mulher no papel que lhe cabia. Pra que nas nossas cabeças e corações acreditassem que isso era a verdade e desígnio dos deuses. Fala sério!
Vênus simboliza a força do desejo, do afeto e do fascínio que mobiliza a nossa ação!
É a força que nos empurra rumo às escolhas que têm significado para a alma, para o nosso florescer por aqui. E, por isso, lhe é caro. E por isso tem valor pra você.
O que tem valor para você tem significado para a sua alma e lhe mobiliza e move suas escolhas e ações.
Infelizmente, não fomos ensinadas a fazer esse tipo de escolha e precisamos transgredir o que nos foi ensinado pra ter essa lealdade com a alma – algo que, por milênios, fomos ensinadas a negar. Afinal, só a alma domesticada pelos dogmas e crenças patriarcais (olha Júpiter, aí) têm valor.
Imagem: Jessica Dixon
