Venho falando aqui sobre o poder dos encontros e de como tudo é processo nessa vida. Com o yoga, não foi diferente.
Meu encontro com o yoga aconteceu em Miami, no ano de 2016, durante uma temporada que passei lá.
Cheguei com a intenção de seguir com o treinamento funcional que eu fazia à época. Como só encontrei cross fit no meu entorno, acabei indo conhecer o studio de yoga que tinha pertinho do apartamento onde eu estava. E me apaixonei!
De volta a Porto Alegre, encontrei no tapetinho roxo da Devi Yoga – Amor e prática ensinamentos e encontros que iam além de posturas e ásanas.
Foi ali, nas aulas com a Sabrina Pereira e a Janaína de Paula farias, que aprendi (e muito) sobre a filosofia do yoga e, também, sobre sororidade, apoio entre mulheres, criatividade, arte e conexão. Foi ali que vivi minha primeira experiência com a potência dos grupos de mulheres!
Com Sa, Jana e a mulherada incrível com quem eu praticava na turma do meio-dia, e também com a Sonya Fhernandes, minha colega de turma e profe na Devi, troquei e aprendi tanto, sobre tantos assuntos – como mostro no carrossel.
Inclusive aqueles que sequer estavam no meu radar, como as questões que atravessam as mulheres mães.
Hoje me dou conta de que as experiências que vivi na Devi foram um embrião, uma espécie de preparação para o meu encontro com o feminismo. Assim como também foi o programa Duas Mulheres Num Sofá, que apresentei com a queridaça Marla Martins.
É incrível (e lindo) como tudo é processo nessa vida, né não?
Desde o ano passado, estou outra vez yogando com a Sabrina, essa amigona que é uma potência.
Agora, no tapetinho do seu Bhumi, yoga e ayurveda, vivencio práticas que têm uma conexão linda com as fases lunares e os ensinamentos da ayurveda. E aulas que vão além dos ásanas e são lugar de troca, conexão, ensinamento, acolhimento e celebração.
Outra mulher desse universo que eu admiro e com quem troco demais é a Tatiana Soares, que vem propondo uma revolução na forma de nos relacionarmos com a alma, com a espiritualidade. E, também, uma mudança e tanto de paradigma no yoga.
Tati tem sido incansável no trabalho de propor autonomia espiritual. “Eu não estou a serviço da experiência espiritual do outro. Cada um tem a sua. Acho que isso redimensiona demais a nossa relação com o sagrado”.
Com Tati, também acabei de saber a treta em torno da data que escolheu o 21 de junho como o dia pra celebrar o Yoga. E fiquei tão passada com o propósito desse dia, que de iluminado tem nada, que editei o texto aqui pra compartilhar com você .
O Dia Internacional do Yoga foi criado pela ONU em 2014 por iniciativa do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, líder da extrema-direita eleito com “retórica nacionalista (hindu), embalada por forte discurso religioso, por ataques a opositores e por elogios ao passado”, como consta em matéria da BBC.
Ele é chamado de messias por seus seguidores, dissemina fake news, faz constantes ataques à imprensa e se beneficia da extrema polarização do eleitorado. Isso te lembra alguém? Pois é…
Praticante de yoga, Modi é filiado ao Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), organização que opera como um grupo paramilitar, composta apenas por homens, e que defende a perpetuação do sistema de castas baseado no hinduismo. Vários ocupantes de cargos no governo de Modi são filiados ao RSS.
Apesar de abolido oficialmente em 1950, o sistema de castas, que divide a sociedade em grupos hierarquizados castas segundo a lógica religiosa hindu, segue mais viva do que nunca na Índia com a ascensão de Modi e do RSS ao poder. Até porque o RSS jamais concordou com essa parte do texto e sempre questionou a liberdade de crenças.
Desde sua eleição, em 2014, e reeleição em 2019, crescem os ataques e a violência contra muçulmanos e também cristãos convertidos na Índia. Lendo matéria da BBC, soube que muitos indianos se converteram ao cristianismo pra fugir dessa injusta lei das castas, que diferencia as pessoas por seu nascimento.
É esse cara aí que propôs a criação do Dia Internacional do Yoga. Com que intenção e propósito? Pra quê?
É aí que entra a treta toda.
Com a criação dessa data, o extremista Modi vem usando a prática do yoga como ferramenta de soft power, de convencimento, pra influenciar a visão do ocidente sobre a Índia, enquanto vai perpetrando horrores por lá contra não-hindus e as castas mais baixas com sua política nacionalista de forte intolerânica religiosa.
Pra quê?
Pra solidificar o nacionalismo hindu e massacrar opositores, com o apoio do Ocidente, encantado pela narrativa dos benefícios da prática do yoga. Que nojo ver essa prática tão potente ser usada para essa finalidade. Me indigna e entristece.
Realmente, Tati, não dá pra celebrar o Dia Internacional da Yoga. Afinal, o que essa data cultiva é a intolerância do projeto político nacionalista radical hindu, e não a prática que desde 2016 tanto me impacta positivamente.
Ainda bem que hoje existe um movimento que busca atualizar a narrativa da yoga e desvinculá-la das religiões, torná-la secular e acessível a um maior número de pessoas. Para que mais pessoas possam se beneficiar desses ensinamentos.
Seguirei celebrando esse yoga secular e acessível todos os dias. Menos no 21 de junho.
Obrigada por me alertar, Tati!
Coisa boa ter encontrado essa prática e, com ela, tantas vivências incrívei e mulheres geniais, questionadoras e potentes ao longo desses anos.
PS DA LILA
escrevi esse texto sobre o meu encontro com o yoga ontem. Um dia depois, alertada por uma amiga, descobri o propósito por trás do dia internacional do yoga e fiz uma atualização nele. Venho propondo contar novas histórias, que não mais perpetuem o machismo e os valores hieráquicos e intolerantes do patriacardo. Celebrar essa data, como agora eu sei, vai na contramão disso e contribui para a legitimação de uma política excludente e intolerante que vem massacrando pessoas na Índia. Impossível compactuar com isso.
Imagem: Tim Mossholder/Unsplash
