Voa, passarinho!

Em um dos muitos prédios do bairro em que moro,  há um pássaro de tamanho médio, cuja gaiola fica exposta para a rua. Até aí, nenhuma novidade. O que fascina é o que acontece tão logo a persiana sobre o vidro se abre a cada manhã. O pássaro recebe dezenas de amigos que, como em uma romaria, vão pousando no beiral da janela para contar as novidades.

Os passarinhos que o visitam, acredito, habitam jacarandás e as muitas outras árvores das ruas próximas. Pelo que percebe, nunca se demoram – talvez com medo de serem aprisionados. Observo que gorjeiam as novidades e vão embora.  Pois sempre que presencio tal cena, imagino o tipo de conversa que se estabelece entre eles: as aves livres contando façanhas deliciosas feitas ao embalo de ventos mornos, aquecido pelo sol em dia de céu claro. Ou viagens feitas em incríveis correntes de ar, narradas com entusiasmo. Ou mesmo a  visita a novos lugares, árvores, bairros e até mesmo cidades – coisas que só a liberdade de ir e vir permite.

Nesses momentos, como em um bom desenho animado,  consigo até mesmo visualizar o engaiolado sonhando em viver muitas aventuras. Mas aí, ele logo se defende de tudo que essa imagem provoca, e com desdém diz que não precisa de aventura e que prefere o certo ao incerto.  E defende com veemência todas as vantagens viver em cativeiro.  Por exemplo, não se estressar com as intempéries do tempo e nem com a busca por comida.  Gatos e ratos? Não há porque temê-los. Afinal, está protegido contra tudo e todos não apenas pelas grades, mas também pelo amo e dono.

Será mesmo? Quem garante?

Pois lembrando de como o pássaro se resigna a girar em círculos na sua gaiola, penso em nós pessoas, seres humanos.  A ave desta gaiola lembra que as nossas limitações estão dentro de nós, que criamos as nossas próprias gaiolas internas quando nos limitamos em nome de uma pseudo-segurança que  – nunca – é tão garantida assim.

Reescrito em algum momento de 2014