Viver não é monocromático

Eu escrevi essa crônica em 2006, para coluna que então assinava na Revista Mais.  O significado da avalanche de cores no dia de ontem me fez lembrar do conceito que nele compartilho.

Imagem da obra de Fabio Balen, cedida pelo amigo Alexandre Chini

Imagem da obra de Fabio Balen, cedida pelo amigo Alexandre Chini

Adoro cores. Para mim, a vida é feita assim. De cores. Absoluta e completamente policromática aos olhos, aos  sentidos e aos sentimentos. Minhas primeiras e mais sutis impressões de tudo que está ao meu redor podem ser traduzidas nos mais diversos tons.

O entusiasmo que sinto transbordar em meu corpo quando estou feliz é azul, anil como céu de inverno em dia de muito sol e sem nuvens. A monotonia é pálida como o cinza e o chumbo.  Dias tristes me lembram um verde desmaiado, asfixiado e sem vida pela quase ausência de cor. Se colocar mais pigmento nesse tom, chegando ao verde água, encontro sinônimo para calma e paz, sentimentos que me invadem quando meus olhos se fixam e se perdem em mares cristalinos.

É também através de cores que registro minhas impressões de lugares, pessoas, viagens e músicas. O hit do U2, Beautiful Day, me enche de uma felicidade anil, sentimento semelhante que tenho ao pegar a estrada para uma trip bacana em dia de céu absolutamente azul e ensolarado.  A Linha 28, uma localidade no interior de Gramado, no meio do Vale do Quilombo, me remete ao conforto e à segurança do marrom que é terra. É o pé no chão, o ser acolhido de braços abertos, o conforto de sempre ter para onde voltar, o se despir e ser, apenas.

Manhattan, por sua vez,  é um espectro de cores, tamanha diversidade de credos, culturas e personas de diferentes backgrounds que ali convivem em democrática harmonia. Os endereços nobres do Upper East Side são tão chiques, elegantes e clean quanto é a combinação do branco com o prata; e andar pelas ruas do Village, onde a criatividade é visceral e pulsante, é algo intenso como o púrpura e o escarlate.

Este intenso vermelho ainda me faz pensar em poder, conceito e cor que imediatamente associo tanto aos bispos e cardeais da Igreja Católica como a momentos inspirados, apaixonados e avassaladores, por amor ou por ódio.  O verde, da mesma forma, também me transmite emoções absolutamente opostas. Se o tom é claro e aguado, propaga calma; no entanto, se de tão escuro quase beira o preto, então expressa raiva e derivados tais como ciúme, inveja, frustração e ressentimento. Todos eles sentimentos que enrijecem a alma.

Tamanha subjetividade e amplitude de conceitos paradoxais que as cores traduzem é o que tanto me fascina e seduz. Em função disso, há alguns anos comecei a me aproximar da filosofia oriental e suas técnicas, com as quais aprendi que o equilíbrio da vida não está na tendenciosa monocromia do pensamento unilateral; mas sim, na policromia da alternância e coexistência entre polaridades e opostos.  Nada, mas nada mesmo na minha concepção, pode ser mais triste, pobre e artificial do que uma vida monocromática. Seja ela no tom que for.  Porque viver é exatamente o oposto disso. Vida é alternância e coexistência – de cores, de ritmos, de movimentos, de ciclos, de tudo que há e é.