Vampiros Urbanos

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Cena do filme Entrevista com o Vampiro

Logo que chegou a Porto Alegre, Ela teve seu primeiro contato com eles. Cercados por brilhos e pessoas, eram a imagem do sucesso. Os Vampiros, como iremos chamá-los, parecem normais. Bem sucedidos, são educados, sedutores, refinados, elegantes e muito divertidos.  Convincentes no papel de prezados cidadãos da comunidade, sempre estão repletos de boas intenções – aliás, dizem que o inferno está cheio delas.  A fachada, no entanto, esconde almas ambiciosas, sedentas por poder e insatisfeitas com seus egos. Egos que sugam a energia de todos aqueles que os cercam e regem vidas alheias, numa demonstração absoluta de poder.

Pois Ela conheceu os Vampiros em um jantar na casa de amigos em comum. Era uma noite agradável. Inquieto, ele revelava-se um espirituoso cavalheiro sempre solícito a qualquer pedido. Belíssima, ela deslizava languidamente pelo ambiente, deleitando-se com as fofocas e a energia que a high society lhe transmitia.

Talvez pela magia da noite, a trilha melódica que mesclava soul, jazz e bossa, ou o tilintar de muitas e várias taças champanha, o fato é que Ela ficou  hipnotizada! Na verdade, deslumbrada diante da imagem de juventude, determinação e sucesso do casal. Logo, acabou íntima deles.

Frequentavam os mesmos restaurantes, tinham amigos em comum, organizavam festas, faziam jantares e almoços e iam aos mesmos eventos. Sua certeza era absoluta, como de todos na cidade: os Vampiros eram um exemplo de sucesso.  Um modelo a seguir.  E tamanha admiração me fez perder a razão. Tanto que ao ouvir os primeiros rumores sobre suas faces vampirescas, Ela creditou todas e tais histórias à inveja, à maldade.  Achou uma tremenda injustiça contra o belo e jovem casal. Ela esquecera o ditado “se há fumaça, há fogo”.

A verdadeira face dos Vampiros veio à tona quando Ela reencontrou uma grande amiga, com a qual eu havia perdido contato há tempos. Ao ouvir o relato repleto de momentos tensos e dramáticos de uma agora desfigurada mulher, entendeu o motivo de seu isolamento. Boa Amiga fugira da influência da dupla, razão pela qual ainda vinha sendo implacavelmente perseguida. E detalhou as maldades e humilhações pelas quais passara, narrando diversas histórias.  E todas foram se confirmando verdadeiras à medida que Ela entrava em contato com outras vítimas dos Vampiros.

Finalmente, Ela via a verdade, o que antes não enxergava.

ELa não sabia se ficava chocada por ter sido seduzida por um brilho tão falso como joia de camelô ou por sua total incapacidade de ver a realidade.  Descobriu que o “bom moço” escondia um desequilibrado empresário que regia sua vida por negociatas sujas. E que a esposa, uma ambiciosa, sedenta por riqueza, fama e poder,  passava os dias esgueirando-se entre fofocas, intrigas e maldades – suas verdadeiras especialidades.  E, então, Ela viu  quem o casal realmente era. Ele, um psicótico perseguido pela ideia de ser constantemente perseguido.  Ela, uma tresloucada, obcecada por poder e colunas sociais.

Alegando um problema em família, Ela se recolheu por longo período.  E, assim, acabou se afastando naturalmente dos Vampiros.  E ainda que saiba que há milhares como eles em todos os lugares, pois não se pode eliminar a todos, agora ela sabia como defender-se deles. Mantê-los a uma distância educada e polida.  E, assim, proteger sua essência e sua alma.

O que aconteceu com os Vampiros?

Nada. Eles continuam pela cidade, batendo salto em shoppings, brindando em festas, saboreando o doce poder e, claro, sugando almas.  Em toda a sua ganância e vazio sedento de poder.

Em clima Halloween, compartilho esta história
originalmente publicada na revista Mais  uma década atrás.