Histeira, uma esteira estressada

pronta para correr da esteira - e não na esteira.

pronta para correr da esteira – e não na esteira.

Histeira (leia issssssssteira, com sotaque carioca) era dissimulada. Parecia amigável, tranquila, uma aliada do bem estar. Mas bastava o sujeito começar seu caminhar sobre ela, para Histeira mostrar sua verdadeira faceta, estressada e histérica.  Sim, ela havia sido normal um dia. Mas depois de tanto correr e correr em velocidades altas, baixas, médias, acabou se tornando uma descompassada. Uma esteira estressada.

A pobre máquina não suportava mais ver os hóspedes do hotel, atletas de ocasião ou não, pulando sobre sua borracha. Estava cansada de tanta correria. E, por isso, rebelou-se. O que Joana descobriu numa  pacata manhã de domingo.

A consciência pesada pelos excessos do dia anterior fez nossa protagonista correr para o Fitness no hotel. Alonga daqui, espicha dali e logo a garota subi faceirita em Histeira.  Começou  com a caminhada leve, em velocidade bem baixa. E foi  aumentando. E mais. E mais. Quando percebeu, estava trotando, em uma corrida leve. E então tudo aconteceu.

De repente, a velocidade disparou, sem qualquer estímulo de Joana – que do trote, leve passou para uma corrida hiper hard rápida. Ela procurava desesperadamente o botão “diminuir” que, para sua surpresa, não existia. Isso mesmo! Histeira só tinha botão para aumentar  velocidade – um defeito de fabricação que deve ter sido causa e início de todos os seus problemas.

As bochechas de Joana ardiam e o suor há muito havia tomado seu corpo.  Ela corria em ritmo de atleta de provas rasas. Muito rápido.  Seu coração batia descompassado e a respiração há muito ultrapassara o estágio de ofegante.  E a velocidade aumentava, ficando cada vez mais difícil acompanhar o ritmo da histérica esteira.  Desesperada, Joana pensou que iria morrer.   “Ai Jesus,  vou enfartar”, desesperou-se.

Quando a  garota achou que tudo estava perdido, um milagre aconteceu. Uma forte queda na rede elétrica fez com a esteira parasse.  Seu corpo foi, então,  lançado para frente. Por sorte, a garota havia se agarrado nas barras laterais para conseguir acompanhar o ritmo das pernas e, graças a isso, não machucou-se.

Joana pulou para longe de Histeira, sentou no chão  e ficou encarando a máquina assassina, ainda sem entender direito o que havia acontecido.  Cerca de 20 minutos se passaram até que sua respiração voltasse ao normal.  Quando finalmente conseguiu  levantar, olhou no espelho e viu uma figura patética,  completamente desalinhada, escabelada, suada, amassada  e de rosto tão rubro que parecia ter se transformado em um grande morango.  Muito lentamente, a garota se dirigiu ao elevador e ao quarto.  Passou o resto do dia tentando convencer os amigos quanto à veracidade de sua história maluca – sendo  sempre questionada se havia consumido alguma substância ilícita.

Um mês depois, ao voltar ao hotel,  Joana ficou sabendo que os dias de descompasso de Histeira haviam chegado ao fim.  A descontrolada fora banida do Fitness após ter arremessado um dos acionistas do hotel ao chão, causando um forte entorse no ombro e muitos transtorno ao todo poderoso. Acabou sendo substituída por uma comportada, robusta e classuda esteira nova. Acabou revendida em um brick e quase matou um sedentário de tanto correr.  Depois disso, nunca mais se ouviu falar dela. Pelo menos até agora.

Escrito em  julho de 2004