O problema é tédio em Paris?

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Paris. Dias lindos de começo de outono.  A magia da Torre Eiffel sob o brilho da lua cheia. A beleza das formas e vitrais de Notre Dame. A inspiração poética das ruas  e dos charmosos bistrôs.  A arte no Louvre e nas feirinhas.  As manobras de skate e os retratos de casamento no Trocadero. A elegância nas calçadas e nas bicicletas. O café que inspira o pensamento. O vinho que inebria o sentimento.  As noites que seduzem os sentidos.  Uma exposição de Henry-Cartie Bresson. E tédio, claro.

Oi? Tédio?

Sim, tédio, meu bem. Exatamente o que você leu. É o que ouvi do par de bíceps que me acompanhava nesta viagem.

– Tô entediado. Preferia estar em Ibiraquera…

Aham. Isso mesmo. Ibiraquera.

Imagine, então, o meu choque. Duplo. Triplo. Me amaldiçoei mil vezes. Porque renunciei à minha verdade e menti descaradamente a mim mesma? Por que tentei ser algo que não sou e, com isso, acabei testemunhando não só o enfado do bofe, mas também um embarque repleto de beijos apaixonados. Em outra mulher. E na minha frente. Sim, isso mesmo. Embaixo do meu nariz.

‘Bem feito’, pensei.

Afinal, porque fui querer acreditar que o macho pseudo alfa em questão valia o investimento? Porque fui dizer que estava cool com uma amizade colorida, quando não sentia isso? Amizade essa,  aliás, que logo se tornou negra diante do egoísmo, da falta de sensibilidade mimada e da pobreza do enfado na cidade luz. Porque permiti ter o amor próprio reduzido e auto-estima aniquilada por um bofe entediado diante da exuberância parisiense?

‘Bem feito’, pensei.

Sim! Afinal, atropelei minha essência, teimei e insisti. Bati pé em uma ideia que sabia que não servia para mim.  E, pior ainda – sim, tem algo pior do que tudo isso -,  dispensei  a divertida e alto astral companhia da minha melhor amiga. E pra quê?  Para me deparar com o insensato tédio de um bíceps atrofiado na encantadora Paris.

Malditos hormônios!

É por isso, meu bem, que tenho bradado repetidamente em alto e bom tom em todos os textos por aqui: seja honesta com quem você é! Compreenda a sua essência. Conecte-se a ela. E respeite você, sempre.  Porque, só assim, as escolhas trazem um arco-íris de alegria e não a monocromática tensão carregada de tristeza, breu e arrependimento. É a autenticidade que nos permite estabelecer vínculos reais, sólidos e com significado – e nos faz dar risada de equívocos como o narrado aqui. É a veracidade que alimenta e enobrece o espírito. E evita que você decepcione sua melhor amiga e, principalmente, a si mesma diante de um bíceps atrofiado cheio de tédio inacreditável em Paris.

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Texto de Maio de 2014